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Em política o que é, é

Luiz Werneck Vianna - Janeiro 2022
 



A sociedade está entregue a si mesma, ao desamparo de partidos e de vozes que a representem e mesmo assim, por meio de suas instituições ou até por fora delas, tem-se demonstrado capaz de se defender da pandemia que nos infesta diante de um governo omisso e até conivente com ela por sua postura refratária às prescrições recomendadas pela ciência. Contudo, apesar dele, os brasileiros acorrem em massa aos postos de vacinação e ao uso de máscaras e se disseminam práticas de autodefesa nas periferias por meio de práticas solidárias, especialmente nos seus setores subalternos afligidos por uma situação de miséria crescente. O credo neoliberal vocalizado em tom triunfante por Margareth Thatcher de que essa coisa de sociedade não existe tem encontrado refutação eloquente na cena brasileira atual.

A constatação desse fato benévolo torna ainda mais gritante a ausência dos partidos políticos democráticos, principalmente os de esquerda, nos movimentos sociais, limitados às suas ações no âmbito parlamentar numa conjuntura onde ainda se fazem presentes ameaças reacionárias e fascistas. No mundo desertificado da política atual não se pode fazer ouvidos moucos à importante iniciativa de dois próceres da nossa política, Lula e Alckmin, de conceber uma ampla coalizão a fim de pela via eleitoral fechar as portas para o caminho de desgraças que acomete o país.

A esquerda é herdeira de uma rica história de alianças, às vezes celebradas em condições adversas, como nas lutas contra o nazifascismo, em que soube, nos interesses do bem comum, superar divergências e antagonismos. É verdade que no teatro das nações do mundo nosso país ocupa ainda uma posição secundária, embora estejamos situados bem perto do coração do país ainda hegemônico nas relações internacionais, hoje polarizado em torno dos projetos de Biden e de Trump, o primeiro empenhado em devolver seu país aos trilhos que lhe foram naturais, e o segundo claramente orientado por um neoliberalismo que o conduz a uma política isolacionista e imperial.

Estamos, desde já, envolvidos nessa disputa, basta ver os contatos frequentes entre o vértice do bolsonarismo e quadros dirigentes do Partido Republicano dos EUA. Inevitável que as posições que resultarem das nossas próximas eleições vão interferir nesse tabuleiro, circunstância que empresta a elas, além da possibilidade de livrar o país do flagelo do governo Bolsonaro, uma maior significação no cenário internacional. 

É preciso impedir que o trumpismo estabeleça uma cabeça de ponte em nosso país e daí irradie sua influência para os demais países latino-americanos. O tamanho da encrenca exige o recurso a remédios heroicos, como o que ora entra em linha de elaboração, a que o conjunto das forças e personalidades democráticas não pode ser indiferente. Ao contrário, deve proceder para melhor cimentar e alargar as vias ainda em esboço para uma ampla coalizão democrática. 

Em política o que é, é. Não há uma terceira via no horizonte, salvo na fabulação de uns poucos. Não faz sentido, registre-se, conceber um juiz julgado pelos mais eminentes dos seus pares como parcial em sentenças que proferiu como alguém credenciado à postulação presidencial.

De fato, nas trajetórias dos dois personagens envolvidos na trama dessa auspiciosa negociação houve momentos erráticos, mas nada que os comprometa em suas adesões aos princípios da democracia política. São ambos confiáveis nesse quesito incontornável, e, como detêm currículos que atestam suas práticas de governança, podem e devem ser advertidos, pelas forças e personalidades que a eles vierem a se agregar para participarem da coalizão que lideram, do que recusam em seus comportamentos pretéritos. No caso do PT, particularmente sua história pregressa de hegemonismo e sua nem sempre nítida percepção de que governo e Estado são dimensões separadas e dotadas de autonomia são temas a exigir manifestações autocríticas diante da opinião democrática.

Em negociações francas e abertas, animadas pelo propósito de remover a política nefasta que a todos oprime, tal objetivo, certamente difícil, mas de nenhum modo impossível, pode descerrar o que ainda impede a construção da estrada real que nos livre dos males da hora presente. Igualmente não consiste em tarefa acima da escala humana encontrar soluções para os complexos ajustes entre as eleições presidenciais e as estaduais, para o que contamos com o tirocínio de políticos experimentados capazes de dar nó em pingo d´água.

Não experimentar essa janela de oportunidade, cedendo, mais uma vez, espaço para que ambições pessoais por poder e patriotismos identitários ocupem o lugar que deve ser protegido em nome da defesa do interesse comum, é tudo o que desejam aqueles que atuam no sentido de reproduzir nas eleições o governo que aí está.

Não é preciso conhecer as lições de Maquiavel em A arte da guerra a fim de ponderar o papel da correlação de forças políticas nos desfechos das disputas pelo poder. Grossos e poderosos interesses fazem parte das linhas de sustentação do governo Bolsonaro, que detém o poder da caneta, como se diz, e o controle da imensa e capilarizada malha com que o Estado recobre a sociedade, inclusive nos seus remotos rincões.

A experiência nesses já longos anos com a clique que se mantém no poder ensina que não se deve subestimar sua capacidade de manobrar no terreno da política. A rusticidade da sua aparência é enganadora, como restou demonstrado na bem-sucedida operação em que, num momento de fraqueza, recorreu a aliança com o Centrão, afastando os riscos de um iminente impeachment e ganhando novo fôlego nas disputas eleitorais.

No passado as forças democráticas, em momentos decisivos, souberam inovar na construção de amplas coalizões políticas. Essa experiência faz parte do seu repertório que nos cumpre agora reprisar.

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Sociólogo, PUC-Rio




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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