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O fator Simone ajuda mais a Lula: quem tem medo de ser feliz?

Paulo Fábio Dantas Neto - Maio 2022
 




A coluna de hoje é dedicada à memória de Eliana Kertész, artista essencial e política ocasional que nos deixou há 5 anos e que faria aniversário nesse sábado. Ela sempre quis muito, mesmo sendo modesta. Faz falta em tempos sombrios.

Até aqui, maio de 2022, a pré-campanha do ex-presidente de República, Luiz Ignácio Lula da Silva, resolveu emular duas das suas cinco campanhas presidenciais anteriores. A primeira, de 1989, desponta através do jingle da estrela, que emociona pessoas maduras e jovens em shows de MPB (e as reuniria também em comícios e atos de rua, se já estivessem ocorrendo ou se ainda puderem ocorrer) e através de clipes que circulam em redes e outros ambientes jovens e/ou “progressistas”, em universidades, no mundo da cultura e do trabalho tradicionalmente organizado. A emulação da última, de 2006 – em que a esperança se reelegeu já como promessa oficial, livre do medo conservador ao PT, vencido em 2002 e durante o mandato cumpridor de contratos com o mundo da economia, embora não tão zeloso no trato com a República –, mira públicos mais populares e menos descolados. Enquanto o partido, animado, faz seu líder recordar a glória ideológica da derrota de 1989, seu atual vice recorda-lhe, em carne e osso, a vitória de 2006, obtida já no manejo da pequena política e do script do nós x eles.

Nesse tom, fica em boa hora esquecido o tempo das oposições ranzinzas de 1994 e 1998, mas, também, o da “Carta aos Brasileiros” de 2002, momento ímpar na trajetória do líder em que ele, de fato, se retratou na moldura plural do Brasil. Na feliz expressão da jornalista Dora Kramer, o centrismo fake de Lula é um dado concreto a ser considerado para se bem entender o atual contexto e não se viajar na maionese ou exagerar no alho, por mais que seja intragável o bugalho que a extrema-direita nos serve.

Nada a objetar quanto ao direito legítimo do PT e de Lula fazerem a escolha política que estão fazendo. A ampla e sustentada liderança nas pesquisas autoriza a ambição de vencer a eleição com uma frente de esquerda, que é o que até aqui existe. Para se viabilizar a chapa com uma piscada simbólica ao centro, Geraldo Alckmin precisou se filiar ao Partido Socialista. Basta olhar para o que está acontecendo, por exemplo, em Minas Gerais, com as tratativas entre PT e PSD, para se ter ideia do problema que haveria se Alckmin, ao escolher seu novo P, juntasse ao S um D, em vez do B.

O impasse não seria culpa de Alckmin, do PT ou do PSD. Nesses assuntos não cabe buscar culpados. Cabe, no caso, entender o fato de que, no momento, o PT e partidos fora da esquerda não estão se sentindo reciprocamente à vontade para celebrar alianças em prol da candidatura de Lula. Nenhuma tragédia há nisso (a eleição é em dois turnos) e o fato em si não merece censura alguma. O que se deve cobrar do líder das pesquisas não é que mude seu filme. É que não tente nos vender uma versão pirata.

Pautas incontornáveis

Se “defesa da soberania nacional” é um eixo relevante da campanha e se a esse eixo se vincula “defesa das estatais” não se pode esperar apoio automático de liberais ou mesmo de social-democratas fora da esquerda imantada pelo PT, quando esse discurso causa incômodos até em petistas e socialistas não alinhados com a atitude antiliberal predominante em seu campo. Do mesmo modo ocorre se diretrizes econômicas para “reconstrução do Brasil” implicam “não haver teto de gastos” e questionar a reforma trabalhista. O que se quer com isso é legitimar eleitoralmente antigos postulados da esquerda do século XX, abraçados por muitos dos seus mais relevantes atores de hoje no Brasil. A esquerda – ainda mais estando razoavelmente unida, como está – tem direito democrático de submeter essa agenda ao eleitorado. E deve reconhecer o mesmo direito a quem discorda dela e pretende propor uma agenda liberal em economia, assim como o de quem defende começar já – pela estrada principal da política e não por uma vicinal – um trajeto que nos leve, em futuro aprazado, a uma economia de baixo carbono.

Naturalmente o ex-presidente Lula, por vezes, veicula versões nuançadas das diretrizes anunciadas. Isso posto, é razoável supor que ele não coloque todas as estatais no mesmo patamar, que não pense em governar sem algum controle de gastos e que não queira atirar no lixo a reforma trabalhista, mas revisá-la, negociando, como deve, com associações empresariais e sindicatos de trabalhadores. Tudo isso é sensato e acalma, além do fato de que todas as propostas que impliquem em legislação deverão ir ao Congresso, a instância que dará as últimas palavras. Porém, numa democracia que faça jus ao nome, essas ressalvas não bastam para permitir que um candidato receba prévio apoio eleitoral de uma ampla frente democrática. Se Lula quer fazer essa frente já no primeiro turno, é preciso um script adequado. E se entender com adversários para ganhar aliados firmes e não aderentes céticos, alinhados por sucção.

O argumento em contrário à necessidade desse tipo de concertação é quase sempre o da pouca relevância eleitoral das objeções, feitas por liberais e centristas, à pauta econômica da esquerda. Quem não tem voto não precisaria ser ouvido pois a hora é de eleição. Ok, se assim é que façam a farta colheita eleitoral, sem precisar se preocupar com candidatos presidenciais eleitoralmente nanicos, nem cooptar parlamentares e quadros dirigentes dos seus partidos. Os apoios virão naturalmente, basta esperar. Ouso cogitar, na contramão das pesquisas e na mão das buscas de cooptação que se tem visto por aí, que Lula sabe que é uma imprudência descansar diante do novo perfil “liberal” do eleitorado brasileiro, detectado, após a derrota inglória de 2018, por pesquisas de entidades assessoras do próprio PT.

Raciocínio análogo ao feito para a pauta econômica vale para a chamada pauta de costumes. Assim como liberais em economia, partidos e eleitores conservadores naquele terreno terão dificuldades em apoiar, logo no primeiro turno, um candidato que abrace pautas consideradas progressistas. A analogia para por aí, porque, nesse caso, as objeções têm peso eleitoral relevantíssimo, como demonstrado em recente pesquisa do Genial Quaest, seja pela captação do deslocamento do voto evangélico na direção de Bolsonaro, seja na mensuração direta do potencial impacto negativo da posição de Lula sobre o aborto. O fato de a questão não ser da competência da Presidência da República não deixa de ser um álibi para que o candidato da esquerda evite ser colocado em situações de aperto. Porém, nem sempre são as devidas atribuições constitucionais que ditam o grau de prioridade de um tema no debate eleitoral. A possibilidade de temas como aborto, ao qual o voto religioso é sensível, serem inseridos na polarização é real e são limitados os movimentos de Lula para evitá-los. A hipótese de o voto conservador, nesse terreno de religião e família, ter Bolsonaro como sua única opção deve preocupar seriamente o rival e é uma razão a mais para que ele reflita melhor sobre sua estratégia de ajudar a interditar terceiras vias.

Ademais, o “Lula lá” de há quase um quarto de século era toque de reunir para boa parte do mundo da cultura universitária e artística e para atores ideológicos esquerdistas, que respiravam democracia direta num país recém-democratizado. Chamados pela energia que emanava da figura de Lula, estavam dispostos a resgatar um Brasil profundo. Esse estaria pulsando em atores sociais irredentos do campo e das favelas urbanas, a serem atraídos para a órbita do Brasil operário mobilizado pelo líder emergente que, a juízo daquela vanguarda que se queria horizontal, era a melhor expressão do nosso moderno. Naquele momento, as pautas identitárias progressistas habitavam os rodapés das páginas dos programas de esquerda, ao contrário do que ocorria em democracias avançadas, especialmente a norte-americana. Hoje é bem outro o Brasil profundo que emerge do poente rural para outro moderno, nas franjas do agronegócio e ao som da nova música sertaneja, conectando-se a metrópoles por evangelhos pentecostais. Suas convicções identitárias e religiosas soldam a pauta política de Bolsonaro. Na outra ponta, pautas identitárias progressistas pedem passagem, pressionam o candidato da esquerda, assim como pressionaram e penetraram nos partidos. Esse é mais um complicador para se formar uma frente que atraia, no primeiro turno, desde eleitores do PSOL até os de setores mais à direita da terceira via.

Nas circunstâncias de sociedade civil e sociedade política mais plurais do que as do tempo da campanha de 1989 e num país que viveu a experiência de quase 14 anos de governos petistas em Brasília, além de governos subnacionais, a quem Lula se dirige mesmo quando sugere não se ter medo de ser feliz? Nenhum espanto deve causar a existência de ouvidos moucos entre tantos quantos olham para trás e avaliam que foram infelizes durante aqueles anos que, para a campanha de Lula, foram anos dourados. Inútil estigmatizá-los como estranhos ao Brasil porque foram 57 milhões em 2018 e seja a marca de hoje a mesma, maior, ou menor, serão, de todo o modo, muitos em 2022, o suficiente para prolongar, para além dos resultados das urnas, os conflitos que vivemos hoje. Se não se quer que toda essa multidão de eleitores retorne ao colo do Bonaparte das milícias é preciso haver quem lhes diga palavras democráticas que escutem. Precisamente porque Lula não pode dizê-las, por razões já expostas, não sai de pauta a quebra (ao menos a atenuação), da polarização atual por uma terceira via, jocosamente tratada, há meses, como uma “tal”, por engenheiros de obras prontas e até por respeitáveis analistas.

Está mais do que evidente que os horrores desses três anos e meio não foram bastantes para vacinar o eleitorado brasileiro contra o perigo de sua contínua reiteração, seja pela improvável reeleição do seu promotor, seja pela sua provável legitimação, nas urnas, como principal chefe e força de oposição. A hipótese do seu impedimento não teve apoio no Congresso e tudo até aqui indica que sua exclusão do segundo turno não tem apoio no povo. É essa, a meu ver, a leitura mais contundentemente realista que se poderá fazer do fracasso de uma agregação de forças centristas para disputarem as eleições, caso esse fracasso, de fato, se consume. Ele roubará do Brasil a chance de optar entre duas saídas democráticas distintas, ou de fazer, no segundo turno, uma convergência republicana consistente. Fora a extrema-direita, ninguém mais deveria ser feliz com a perda dessa chance, porque ela significa grave adiamento de qualquer futuro comum. Sair-se da eleição como nela entramos, polarizados entre o que seja o bem e o mal para cada qual, é, no mínimo, condenar a democracia brasileira a quatro anos de UTI.

Diante da majestade de um perigo manifesto como fato, são dois os caminhos que se colocam para a convergência republicana e democrática que – também de fato – existe no Brasil e precisa se ampliar em direção ao maciço biombo conservador que Bolsonaro usa como escudo para sua aventura destrutiva. Essa convergência não pode nem deve ser eleitoral no primeiro turno, mas tem sido (e precisa ser cada vez mais) uma barragem institucional e política ampla e efetiva nos momentos de maior risco para a democracia. Dos seus dois caminhos tratarei a seguir, com a atenção e o respeito que ambos merecem.

Entre evitar o segundo turno ou fazer dele um caminho

Pesos pesados do seleto rol de políticos lúcidos e merecedores de respeito tomam o primeiro caminho. O mais recente foi o ex-senador e ex-ministro Aloísio Nunes Ferreira. O argumento é cristalino: só restam, hoje, duas vias, a democracia e o fascismo. Impossível que democratas responsáveis discordem disso, ainda que possam discutir o uso do termo fascismo para nomear a arruaça em curso. Afinal, nove entre dez estrelas do nosso teto dão luz à visão de Bolsonaro presente no segundo turno e a décima, que ainda poderia iluminar uma esperança de nos aliviar dessa sina, está escondida entre nuvens densas.

O argumento persuasivo leva, no caso de Ferreira e de outros políticos igualmente dignos de crédito, a concluir que um segundo turno mais sangrento pode e deve ser evitado e que, para tanto, uma frente democrática única pode e deve ser antecipada para o primeiro turno, reconhecendo assim que um segundo turno já se dá na prática, pela consolidação irreversível da polarização entre Lula e Bolsonaro. A avaliação de que essa antecipação é possível e a prescrição de caminho de ação que dessa avaliação decorre não permitem que a conclusão provoque o mesmo consenso firmado em torno da premissa.

A possibilidade de formar essa frente de modo politicamente consistente esbarra em legítimos problemas de pauta política, aqui já discutidos e também na intricada teia federativa, que faz de arranjos políticos regionais um jogo complexo. Essa complexidade não pode ser desqualificada, ou vista como patológica, porque está, de fato, também em jogo, nessas eleições, o destino da política subnacional, cuja importância e dignidade não devem ser subestimadas, como ficou patente no combate que estados e municípios travaram contra a pandemia, sob sabotagem aberta do governo federal.

Quanto à conveniência da antecipação, o não-consenso verifica-se em dois pontos. Primeiro sobre se será mesmo a melhor tática contra a extrema-direita apostar num confronto direto e binário entre ela e uma candidatura de esquerda, mesmo a de um político de inegável popularidade, com experiência de Estado e mesmo que esse líder esteja sinceramente disposto a caminhar em direção ao centro. Há quem argumente, também sinceramente, que a memória simbólica do eleitorado é mais forte para conservar o antipetismo como fator relevante do que movimentos racionais pela sua reversão, ainda mais quando se sabe das dificuldades de Lula para abandonar a narrativa de que o impeachment de Dilma Rousseff foi um golpe. Essa renitência provoca coesão, em vez de distensão, no voto antipetista. O receio não chega a ser que isso custe a eleição de Lula (as pesquisas tendem a tranquilizar quanto a esse ponto) mas a estabilidade política do seu governo e que facilite, antes disso, maior apoio social à mais que provável atitude de Bolsonaro de questionar o resultado eleitoral. A ideia de resolver tudo no primeiro turno implica em renunciar à possibilidade de uma vitória folgada, maiúscula e irrefutável, num segundo turno antecedido por um amplo entendimento entre as distintas forças democráticas, balizado pelos seus respectivos pesos eleitorais auferidos num primeiro turno em que ocorra debate e não duelo.

Chego assim ao segundo ponto que é legitimamente levantado pelos céticos em relação à conveniência do primeiro caminho. A adesão a Lula agora, por parte de partidos de diferentes zonas do centro democrático, tende a padecer, ou de insuficiente amplitude ou de baixa sustentabilidade política. No primeiro caso Bolsonaro será o óbvio beneficiário, como desaguadouro dos votos dos que não se sentirem incluídos ou representados no desenho de uma frente democrática de raio limitado. No segundo caso, pode-se cair no quadro desmobilizador a que levam apoios compulsórios e altamente críticos. Grassa perigosamente, no centro democrático, a ideia – também circulante em ambientes psolistas – de apoiar Lula agora “porque não há outro jeito”, surgindo, como corolário dessa resignação, uma predisposição consoladora a, passado o perigo fascista, organizar durante os próximos quatro anos, a oposição ao PT. Mas como se realizaria essa fantasia? O lugar de oposição principal estará ocupado pela extrema-direita, como está ocupado, desde 2019, pelo PT. O chamado à unidade democrática será cotidiano para defender o governo democrático de ameaças golpistas.

A lógica binária não se extinguirá com a vitória de Lula, menos ainda se ele contar com apoio do centro por mera força de gravidade. Apoiar e relaxar é a pior coisa a se fazer no momento, inclusive do ponto de vista de quem teme – e me incluo entre esses – uma grande ofensiva golpista antes, durante ou após as eleições. Que ela ocorrerá é quase certeza, embora seu êxito final seja improvável. Enfrentar essa ameaça seria mais complicado se restasse, na cena eleitoral, apenas a campanha da esquerda, com apoio recuado ou tácito, quando não silêncio obsequioso, do restante do campo democrático. A desmobilização das demais campanhas traria limitação, não expansão da resistência a um golpe.

Todas essas incertezas legitimam a defesa do segundo caminho, qual seja a insistência na busca de uma nova hipótese de terceira via, entre MDB, PSDB e Cidadania que, a essa altura dos acontecimentos, como opinei nesta coluna há três semanas, tem em Simone Tebet o único nome de unidade possível. Além desse hipotético núcleo, o segundo caminho nutre-se da hipótese já posta da candidatura de Ciro Gomes. Já a hipótese de junção imediata desses dois focos aspirantes a mitigar e moderar a polarização principal, não se coloca, por motivos análogos aos que inviabilizam a formação de uma frente única das oposições no primeiro turno. Há pelo menos duas pedras, no caminho do entendimento imediato entre Ciro e Simone, que são difíceis de remover. Uma é a agenda econômica, outra a manutenção, no discurso de Ciro, do anátema que ele dirige – em coro com o PT e de modo até mais enfático que o de Lula – aos políticos e partidos centristas, por terem dado um suposto golpe em 2016. A relação entre ele e Tebet não pode ser de cooptação. Mas nada impede, salvo se neles houver desejos em contrário, que seja de cooperação em alto nível. É uma cooperação recomendada não só por valores democráticos e pluralistas, também por mútuo interesse, pois nenhum dos dois chegará a lugar algum sem se beneficiar de virtuais efeitos da campanha do outro. Simone atuando junto ao campo liberal para conter votos que estão indo para Bolsonaro e Ciro fincando estaca na centro esquerda como alternativa a Lula exercerão um duplo efeito moderador da polarização sem limites que tende a se cristalizar num cenário binário. Se houver uma hora das duas candidaturas fundirem-se com base em pesquisas será no tempo das convenções ou até depois disso, caso alguma delas, ou ambas, adquiram alguma relevância quantitativa. Ilógico ser agora quando, embora Ciro esteja à frente de Simone nesse quesito importante, a polarização entre os principais é extrema e nenhum dos dois do "centro" saiu de um dígito nas intenções de voto.

Falando especificamente do trio de partidos que se entende atualmente, ele compartilha com o conjunto dos que em algum momento se declararam dispostos a constituir uma terceira via, duas deficiências básicas, que são a um só tempo causa e consequência de sua falta de unidade. Primeiro falta-lhe, como é óbvio, votos, não tendo surgido, nesse campo, ninguém que possa sequer fazer cócegas na popularidade de Lula. Mas faltou-lhe também, durante todo o governo Bolsonaro até aqui, articulação fluente “por cima”. Ela faltou, por exemplo, com a cúpula do Congresso, tanto para fazer prosperar um impeachment quanto para, no mínimo, dissuadir parte do centrão da adesão ao governo, através de entendimentos em torno de matérias congressuais e/ou antecipando arranjos políticos regionais. Faltou também com militares da ativa, para interditar a propagação do golpismo, uma vez que a sua politização é uma realidade imposta pelo recrutamento de quadros seus para o governo de Bolsonaro. Insuficiente também com o empresariado, para escutar e propor alternativas de futuro superiores à relação instável, cativa do curto prazo, que lhe oferece Bolsonaro. E insuficiente ainda com a imprensa, que aos poucos foi percebendo a inconsistência do agrupamento e assim deixando de levar a terceira via a sério. Em suma os partidos centristas além de não se qualificarem eleitoralmente, também não lograram interagir de modo consequente com a própria elite política que compõem e com as demais elites do país.

Deixo de lado a busca dos por quês. A hora não é de balanço das circunstâncias objetivas determinantes, nem dos erros, porque o processo não terminou e há uma eleição no horizonte, tentação irresistível para qualquer democrata. A realidade cobra ação dessas forças e tal não pode se dar por mera vontade.

Os centristas não podem brigar com a polarização que se firmou. Se a pergunta é se ainda podem evitá-la a resposta é não. Se é sobre a possibilidade de influírem para que ela seja manos danosa para eles mesmos e para a democracia, a resposta é sim e o meio é a frente democrática, não para disputar, mas para garantir as eleições e defender a Constituição. Também é sim a resposta sobre se podem contribuir para que a polarização seja menos excludente do ponto de vista político e, nesse caso, a contribuição do centro é diversificar e qualificar o cardápio eleitoral lançando de fato a candidatura de Simone Tebet. Fazendo isso qualificar melhor também o discurso da campanha de Lula, levando a que as nuances do candidato favorito prevaleçam sobre os dogmas dos seus interlocutores favoritos. No limite, até mesmo Bolsonaro tenderia a domar suas febres, pela presença de uma candidata assertiva em seus calcanhares.

Em adição a tudo isso, a de Simone Tebet poderá ser uma candidatura resgatadora das trajetórias recentes dos três partidos. Em 2016 o centro liberal-democrático criou uma polarização política com o PT ao liderar o processo do impeachment num Congresso agitado à direita, mas sem norte político positivo. Na sequência, porém (já bati nessa tecla aqui algumas vezes), contraiu uma dívida abissal com a sociedade e o eleitorado brasileiros ao se eximir de se apresentar igualmente unificado nas eleições de 2018. Era o mínimo que lhe cabia após processo tão traumático. No entanto, cada parte daquela aliança que promoveu uma solução institucional e constitucional para o impasse paralisante do governo Dilma foi cuidar da própria vida. Negaram apoio consistente ao governo de transição que criaram e cederam às pressões de uma polarização entre o PT e a lava-jato. Enquanto a candidatura de Ciro Gomes, a alternativa de centro-esquerda, era pautada, como até hoje, pelo discurso petista do golpe, os partidos do centro deixarem-se pautar pela lava-Jato e largaram de mão o governo, na esperança de escapar dos artilheiros de Curitiba e suas ramificações Brasil afora, com simpatias estabelecidas no STF. Dois desses partidos (PSDB e Cidadania, hoje federados) pagam o preço de um momento de pusilanimidade política. Uma reincidência não terá perdão. O Cidadania dá passos decisivos para reverter aquela atitude, reaprendendo aos poucos a pedagogia unitária da política do antigo PCB, do qual descende. O PSDB tem mais problemas, mas possui relevância para se decidir um pouco mais adiante e ser acolhido com a reverência compatível com os serviços que já prestou ao país. Já o MDB está com a bola e precisa dar o passe inicial abrindo para sua candidata as portas da publicidade que for possível.

Uma candidatura feminina de uma senadora democrata e respeitável, que conta com apoio razoável na cúpula de um MDB sobrevivente às condenações de Eduardo Cunha, Sergio Cabral, Geddel Viera Lima e Henrique Eduardo Alves e póstero ao declínio político de Romero Jucá, Eunício Oliveira e Eliseu Padilha, é algo que desperta mais curiosidade e interrogações do que rejeição e vaticínios. A renovação compulsória desse partido foi mais extensa do que a que se deu no PT. Ainda não se apresentou ao eleitorado nacional para que se saiba se nele os episódios mais recentes calam os ecos democráticos da sua história. Simone Tebet é uma chance de refazer seu caminho por uma linha reta. Sem ela o processo corre o risco de acabar em mixórdia. Partido que veste bem a carapuça do slogan que o PT pretende estender a todos, mas é antes de tudo seu, o MDB também pode encarar a eleição sem medo de ser feliz.

Militantes intransigentes e analistas angustiados por vezes desqualificam moralmente a realidade do não-consenso eleitoral, jogando sobre os ombros de quem não está convencido da possibilidade e da conveniência da antecipação política do segundo turno o peso da responsabilidade sobre um eventual fortalecimento de Bolsonaro durante as quatro semanas de outubro. Ancorados nesse argumento, operadores políticos do campo lulista esforçam-se para acelerar o esfarelamento de partidos do centro como meio de interditar até a modesta rua em que ainda se pode converter “a tal” da terceira via. Ao mesmo tempo movem, nas redes sociais e em outros espaços, uma campanha de desestabilização da candidatura de Ciro Gomes que, combinada com o assédio de Lula ao PDT, antecipa, cinco meses antes das eleições, uma alta pressão pelo voto útil. É de importância capital que esses passos sejam revistos. Se uma das caras da terceira via for a de Simone Tebet, penso que haverá motivos de inquietação nas hostes de Bolsonaro, enquanto nas de Lula haverá apenas o risco saudável de ter que calibrar o discurso para travar, não só o bom combate contra um autocrata como também o bom debate com uma adversária democrática. Já que Bolsonaro parece impor sua presença na hora decisiva, se surpresas não ocorrerem – e surpresas aqui serão também sinais de vida – o processo político tocado com prudência reunirá ambos, solidaria e ativamente, num palanque vitorioso e mais sustentável, no segundo turno.

Recorro ao livro inesquecível de Maria Alice Rezende de Carvalho sobre André Rebouças (O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil) para comparar, sem licença da autora, a frustração da alma do seu protagonista – indo da resignação apenas racionalizada (sem aceitação emocional) com a queda da monarquia e ascensão de uma república incivil, até o suicídio – com o “moderatismo” de Joaquim Nabuco, que o leva a uma racionalização de outro tipo, conciliada com seu sentimento e percepção da política como média e não como catarse. Da visão da monarquia finda como república até a possibilidade de republicanização da república empírica, ele chegaria ao panamericanismo como forma de manter viva, pela diplomacia, as possibilidades da política. Está em aberto aonde chegaremos nós, mas há boa chance de se chegar a um bom porto pelo caminho surpreendente da grande política.

Já concluímos o primeiro quinto do nosso sexto século e merecemos futuro. O que será impossível se não vivermos o presente inteiro, sem atalhos. O presente demora, a lei da gravidade tem pressa e vale, mas não é a única que nele vigora. Nada desaparece antes da hora. Prazo de validade esgotado é o dos fantasmas ideológicos, inclusive fantasminhas camaradas (essa imagem, sexagenários entenderão, a turma jovem vai precisar do tio Google). Passou da hora de saírem da nossa vida e entrarem na História.

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Cientista político e professor da UFBa

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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