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A arte naïf de Aparecida Azedo (1929-2006)

Ivan Alves Filho - Dezembro 2005
 

Nascida em Brodowski (a mesma cidadezinha de Portinari), Aparecida Azedo (1929-2006) desde pequena manifestou interesse pela arte. Aos 17 anos, pintou a primeira tela com tinta de parede. Muito jovem, depois de ler um livro sobre a então URSS, filiou-se ao Partido Comunista, trabalhando em agitação e propaganda. Mesmo depois de passagens pela prisão, manteve acesa a vocação de pintora. Em 1950, veio para o Rio de Janeiro, freqüentando a casa de Graciliano Ramos. Casou-se com o jornalista Raul Azedo. Ex-aluna de Ivan Serpa, fez sua primeira exposição em 1973. Algumas das suas obras estão em exposição permanente no Museu Internacional de Arte Naïf: Rua Cosme Velho, 561 Rio de Janeiro (museunaif.com.br). A seguir, texto do historiador Ivan Alves Filho.

A história de vida da pintora Aparecida Azedo — inicialmente objeto de um livro meu (A pintura como conto de fadas. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2005) e agora levada às telas pelo cineasta Zelito Vianna (Uma vida em 24 quadros) — é, por si só, uma obra de arte. Com efeito, sua trajetória humana é das mais densas e singulares que conhecemos. Senão vejamos. Bóia-fria aos dez anos de idade, operária de fábrica aos 13, comunista desde os 16, Aparecida enfrentou clandestinidades e inúmeras prisões, criou seis filhos e foi artista plástica autodidata reconhecida internacionalmente.

Vale dizer, ela foi a soma de todas essas experiências, tendo sido uma mulher altamente representativa por tudo que logrou realizar no plano social. Sua arte — feita de cores vibrantes e linhas sensuais — é a materialização da sua própria vitalidade, da sua fertilidade. Ela prova que Aparecida atingiu o objetivo que, no fundo, deveria ser aquele de todos nós: a auto-expressão criadora. “Cada um está em sua obra”, sentenciou certa vez Montaigne. Nada mais justo. Comovente em sua candura, Aparecida Azedo criou beleza como quem respira: com naturalidade, simplesmente. Ela viria a ser, nos nossos dias, provavelmente a maior pintora naïf do Brasil, a sucessora de Djanira e Tarsila do Amaral. E isso decididamente não é pouco.

Pintando contos de fadas, ao invés de quadros, Aparecida Azedo há muito deixara os pincéis de lado e adotara, como único instrumento de trabalho, a boa e velha varinha de condão. Daí o título do meu livro, que Zelito Vianna, com sua sensibilidade e generosidade, transformou em documentário indispensável para todos os que queiram de fato conhecer melhor a alma brasileira.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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