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Lima Barreto e a cultura nacional

Berthold Zilly - Abril 2006
Tradução: Simone de Mello
 

1. Marginalidade e canonização

Em 1919, o escritor carioca Afonso Henriques de Lima Barreto volta a concorrer, aos 38 anos, à Academia Brasileira de Letras. É sua segunda tentativa de ingressar na instituição cultural mais prestigiosa de seu país, fundada duas décadas antes por Machado de Assis, segundo o modelo da Académie Française. Vários de seus textos em prosa, especialmente o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, já haviam sido elogiados por críticos importantes, não restando, portanto, dúvidas sobre o mérito literário do candidato. Entre tantas decepções sociais na vida de Lima Barreto, a segunda recusa da Academia provavelmente nem chegou a surpreender.

Tanto a candidatura como a sua derrota remetem à posição ambígua do escritor com respeito ao establishment, ao qual ele pertencia de alguma maneira, estando ao mesmo tempo à margem. Apesar de lhe concederem uma certa projeção como jornalista e escritor, as instituições culturais o mantinham à distância, ao passo que ele, mesmo parodiando-as e ridicularizando-as, nunca deixou de esperar um reconhecimento oficial. Tomava os estatutos, regulamentos e princípios das entidades culturais ao pé da letra, levando-as por vezes mais a sério do que seus próprios membros. Combinando, apesar das desilusões, uma boa dose de otimismo com sua típica falta de cinismo e, talvez, uma certa ingenuidade, ele acreditava que uma academia de letras tivesse que incentivar a vida literária e intelectual, integrando homens de letras, a serem selecionados de acordo com méritos literários. Avaliava instituições e pessoas nas áreas cultural, política, jurídica segundo os critérios estabelecidos por elas mesmas – uma postura típica de moralistas e autores satíricos.

O papel representativo, oficial e quase estatal que criticava na Academia foi justamente o que levou seus membros a recusar um colega relativamente jovem, tido como boêmio e inadaptado, cuja conduta, modo de pensar, estilo de vida e estilo de escrita não correspondiam à imagem de um escritor comme il faut, respeitador das conveniências, digno do prestígio da categoria e merecedor de consagração. A ambição de usar o talento literário como meio de ascensão social entrava em conflito com sua honestidade e incorruptibilidade – um dilema de que Lima Barreto tratou em seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909). Orgulhoso de sua origem modesta e da ascendência dos avós, antigos escravos, seu objetivo era expressar “os sofrimentos e sonhos do povo”, compreendendo sua vida e obra como um “contínuo protesto contra toda e qualquer injustiça”. Ele não deixava escapar nenhuma oportunidade de denunciar os desmandos sociais e ridicularizar os responsáveis, dando mais valor à radical veracidade do que ao refinamento de linguagem e composição.

Quem entrar numa livraria hoje em dia e pedir alguma obra de um antigo membro da Academia provavelmente deixará o vendedor perplexo. Afinal, a maioria dos escritores que consideravam Lima Barreto indigno de ingressar em seu ilustre círculo, em 1919, já caíram em absoluto esquecimento há décadas – isso, sem falar de outros acadêmicos que nem eram literatos, mas figurões com veleidades beletristas: políticos, donos e estrelas de jornais, ou generais. Os livros e antologias de contos do antigo subversor e outsider Lima Barreto podem ser encontrados, por sua vez, em qualquer livraria e biblioteca, principalmente Triste Fim de Policarpo Quaresma. Este romance, transcendendo o âmbito estritamente literário, ingressou, desde a edição organizada por Francisco de Assis Barbosa nos anos cinqüenta, no cânone nacional daqueles livros básicos, quase fundacionais, que são considerados indispensáveis para o Brasil compreender a si mesmo. Pertence a uma biblioteca canônica de obras ficcionais, ensaísticas e acadêmicas, como por exemplo O Guarani e Iracema de José de Alencar (1857 e 1865, respectivamente), Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1880), Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902), Macunaíma, de Mário de Andrade (1928), Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre (1933), Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda (1936), Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1938), Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1956), Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido (1959), ou Carnavais, Malandros e Heróis, de Roberto DaMatta (1982). Policarpo Quaresma é leitura escolar, fonte de adaptações teatrais, objeto de inúmeros estudos acadêmicos e ensaios jornalísticos, volume de coleções representativas, como a Biblioteca Ayacucho, uma seleção de obras-chave da literatura latino-americana, exemplarmente comentadas, ou a Colección Archivos, da Unesco, uma coletânea de edições críticas de textos representativos das letras ibéricas, acompanhadas de ensaios elucidativos. A edição de Policarpo Quaresma em língua alemã, publicada em 2001 pela editora Ammann, de Zurique, amplia a lista de traduções para numerosos idiomas.

Em 1998, o romance foi adaptado para o cinema pelo diretor Paulo Thiago, numa versão bastante peculiar, mas digna de ser vista: Policarpo Quaresma – Herói do Brasil. O título do filme já estabelece um contraponto com o romance de Mário de Andrade, Macunaíma – o herói sem nenhum caráter, filmado por Joaquim Pedro de Andrade no fim da década de 60, sob o signo do Tropicalismo. Ao contrário do malandro Macunaíma, o anti-herói de Lima Barreto – como o de Paulo Thiago – tem caráter demais, numa sociedade sem nenhum caráter. Com certeza, há muito do próprio escritor neste personagem. Remetendo-se a um episódio da vida do autor, uma das primeiras cenas do filme mostra o protagonista como membro de um júri, apurando o homicídio cometido por um militar na chamada primavera de sangue, em 1909, apesar de o enredo do romance se passar nos anos noventa do século XIX.

Graças ao Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto foi bastante discutido e celebrado como redescobridor do país no ano 2000, por ocasião da comemoração dos quinhentos anos do “descobrimento” do Brasil pelo navegador português Cabral. De fato, o Brasil – com sua história, sua cultura, suas excelências, mas também suas mazelas, seus desmandos e os possíveis meios de combatê-los – é o tema central do romance, o principal interesse do herói e a maior preocupação do autor. Essa indagação sobre o Brasil, por sua vez, é feita criticamente através do personagem risível e simpático de Policarpo e da sua vã busca por uma pátria verdadeira, de modo que o autor estimula uma auto-reflexão metacrítica sobre o caráter e os destinos da nação. O enredo questiona e desmonta não só determinadas definições da brasilidade, mas qualquer tentativa de definição unívoca de uma cultura. Não só os resultados da busca pela essência do Brasil, mas a própria busca revela-se perigosa ou quimérica.

2. A vida de um literato no Rio de Janeiro da Belle Époque

A vida de Afonso Henriques de Lima Barreto sugere uma comparação com a de Machado de Assis (1839-1908), até hoje o decano dos prosadores brasileiros, nascido quase duas gerações antes, mas ainda vivo quando o mais jovem publicou o primeiro romance, o já mencionado Isaías Caminha. Como Machado, era mulato provindo das classes subalternas da sociedade carioca, entre o operariado e a baixa pequena burguesia. Como Machado, ele se tornaria cronista de sua cidade natal, capital do Brasil até 1960. Como Machado, teve que conviver com a instabilidade psíquica, tematizando reiteradamente o limite tênue entre loucura e razão. Pelo menos durante a juventude, Lima Barreto também recebeu de bom grado a proteção de políticos influentes. Assim como Machado e a maioria dos escritores brasileiros, iniciou a carreira literária na imprensa, escrevendo sobretudo crônicas, gênero cambiante entre jornalismo, memorialismo, ensaio e ficção. Como o pai de Machado, o de Lima Barreto era prelista, tornando-se tipógrafo graças à sua competência e aos favores do ministro do Império Afonso Celso, mais conhecido como Visconde de Ouro Preto. É a ele, seu padrinho, que o futuro escritor deve em parte o prenome duplo, que também remete ao primeiro rei de Portugal.

Isso não impediu Lima Barreto de parodiar implicitamente, no Policarpo Quaresma, o opúsculo patrioteiro de Afonso Celso, filho de seu protetor, intitulado Por que me ufano do meu país? (1901), livro muito popular no começo do século XX, que deu origem ao termo ufanismo e foi traduzido para diversas línguas na época, inclusive o alemão. Por outro lado, embora tivesse posições radicalmente democráticas, quase anarquistas, e simpatizasse com a Revolução Bolchevique de 1917, Afonso Henriques manteria suas veleidades monarquistas a vida toda.

Apesar de provirem de camadas semelhantes, Machado de Assis e Lima Barreto seguiriam caminhos diferentes. A façanha do primeiro – inscrever-se na elite do país, denunciando ao mesmo tempo seus egoísmos, dissimulações e imposturas, combinando magistralmente um tom cortês e clássico com o teor impiedoso de sua crítica sarcástica e mordaz – não foi o caminho de Lima Barreto, que sempre manteve uma atitude entre plebéia e pequeno-burguesa. Sua ambição não era pertencer à nata da sociedade, mas sim ao círculo dos autores formadores da opinião pública e do estilo literário. No entanto, esta dissociação se mostrou praticamente inviável, considerando-se a estreita interdependência entre as elites social e cultural.

O sucesso literário não era realmente o destino de Afonso Henriques de Lima Barreto, quando nasceu em 1881. Órfão, aos quatro anos, da mãe que dirigia uma pequena escola primária, era o mais velho de quatro filhos de um tipógrafo que seria demitido pelos republicanos em 1889, por causa de sua proximidade com os políticos do Império, conseguindo depois um modesto emprego como almoxarife num manicômio, na Ilha do Governador. O futuro escritor, porém, graças à ajuda de seu protetor, teve a chance de freqüentar boas escolas, conseguindo passar no vestibular da Escola Politécnica. Ao lado das poucas faculdades de Medicina e de Direito, dos seminários de padres e da Escola Militar, o curso de Engenharia nas Escolas Politécnicas do Rio e de São Paulo era uma das poucas possibilidades de formação acadêmica no Brasil daquela época, talvez até a mais moderna. Apesar de ter amigos entre os estudantes – a um deles, o futuro engenheiro civil João Luís Ferreira, viria a dedicar Policarpo Quaresma –, Lima Barreto se sentia discriminado no meio acadêmico, pela origem inferior e a condição de mulato. Além disso, devido à inclinação pela literatura e pelo jornalismo, dedicou-se a leituras obsessivas, relegando para segundo plano os estudos que poderiam lhe ter garantido, talvez, uma carreira bem remunerada e de prestígio social.

Naquela época, poucos anos após a Abolição tardia, em 1888, a cor negra significava proximidade dos antigos párias, indicando um status social humilde. Sobretudo para as pessoas sem posses, todo esforço era pouco para se distanciar dessa origem: vestir-se e comportar-se de acordo com a etiqueta, silenciar obstinadamente o preconceito racial e, se possível, casar com uma mulher branca, como o fizeram Machado de Assis ou, no século XX, o jogador de futebol e posterior ministro Pelé. Como muitas pessoas não brancas no Brasil até hoje, Lima Barreto reclamava de ser tido às vezes por servidor subalterno, como porteiro ou contínuo, confessando certa vez em seu diário: “É triste não ser branco”.

Em 1902, justamente quando começava a escrever, Lima Barreto foi obrigado a abandonar definitivamente os estudos acadêmicos. Após a invalidez do pai, em decorrência de doença mental, Afonso Henriques assumiu o papel de chefe de família, aos 21 anos, vendo-se obrigado a tomar conta dos três irmãos mais novos. Conseguiu um emprego como funcionário no Ministério da Guerra, um posto inferior ao do herói de seu romance, um ganha-pão indesejado, que lhe garantia – no entanto – modesta segurança financeira e tempo para escrever, pois ele trabalhava, como o Major Quaresma, diariamente das 10 às 15 horas, passando depois numa redação de jornal ou num dos cafés, pontos de encontro da intelectualidade carioca.

Acompanhado do pai, dos irmãos e do velho criado Manuel Oliveira, o jovem funcionário público mudou-se para o subúrbio de Todos os Santos, na Zona Norte do Rio, onde vivia e ainda vive a população menos favorecida da cidade. “O subúrbio é o refúgio dos infelizes”: a frase do personagem de um de seus romances poderia se aplicar ao próprio autor. Todos os dias pegava o trem de subúrbio até a estação Dom Pedro II, hoje Central do Brasil, seguindo a pé o resto do caminho até a sua repartição numa dependência do hoje Museu Histórico Nacional. Achava por vezes deprimente voltar à noite para o seu bairro, confrontar-se com problemas domésticos, comer apressadamente um prato requentado, para enfim poder se dedicar aos queridos livros, muitos dos quais também faziam parte da biblioteca de Policarpo. Voltava, algumas vezes, para casa mais tarde de propósito, para não ter que aturar o que interpretava como o olhar de superioridade dos burgueses de subúrbio, mais bem vestidos do que ele. No entanto, dificilmente conseguia escapar dos constantes gritos de seu pai ensandecido.

Com sua obra, Lima Barreto prestou homenagem às pessoas humildes e até às mais abastadas do subúrbio – aquela fauna humana que satirizou com tanto carinho – com que ele não deixava de se sentir solidário, embora elas mal reconhecessem seu talento literário e não pertencessem ao seu público leitor. Seu personagem Ricardo Coração dos Outros teve mais sorte neste sentido, pois chegou pelo menos a ouvir uma lavadeira negra cantar suas rimas e melodias. O abismo entre personagens literários e leitores, entre o ambiente popular ficcional e o público real de classe média alta – fenômeno típico da literatura latino-americana engajada, geralmente qualificado como heterogeneidade cultural – também caracteriza a obra de Lima Barreto. As pessoas que ganharam vida e voz em sua obra pertenciam àquele “mar de analfabetos”, ao qual o poeta elitista Olavo Bilac – parnasiano e patrioteiro, embora de certa popularidade, e até hoje autor escolar – se referia com desprezo.

Não é à toa que o cantor popular de Lima Barreto, com o nome eloqüente de Ricardo Coração dos Outros, critica Bilac, acusando-o de não entender nada do gênero sentimental e popular da modinha.

O funcionalismo público não era apenas uma tortura para o nosso escritor. Pelo menos nos primeiros anos de carreira, este jovem com talento para escrita, de sólida cultura geral e de mentalidade versátil, cumpriu as tarefas burocráticas sem decepcionar seus superiores, apesar da sua caligrafia imperfeita. De certa forma, soube conciliar as responsabilidades familiares e profissionais com a vida boêmia de literato. Enquanto exerceu sua função de funcionário público, sempre se sentiu obrigado a assegurar uma certa lealdade ao Exército e ao governo.

Lima Barreto oscilava entre o descomprometimento da boemia e o convencionalismo dos escritores acadêmicos. Voltou-se contra a institucionalidade cultural da Belle Époque, que encarava a literatura sobretudo como ornamento e decoração, como o “sorriso da sociedade”, conforme formulou Afrânio Peixoto, um dos mais famosos escritores em moda na época e hoje praticamente esquecido: literatura como a cereja em cima do bolo a ser degustado apenas por uma elite. Lima Barreto, por sua vez, condenava a literatura predominante como literatura da classe dominante. Apesar de não fazer jus a alguns escritores contemporâneos, ignorados por ele – como Euclides da Cunha, descobridor literário do sertão brasileiro –, no conjunto Lima Barreto não deixava de ter razão. Nas duas primeira décadas do século XX, durante o Pré-Modernismo, isto é, entre a publicação das duas últimas grandes obras de Machado de Assis e a Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922, a literatura brasileira produziu bastante epigonismo, exercícios academicistas, vocabulário rebuscado e sintaxe preciosa, ornamentações lingüísticas e brincadeiras formais, ou seja, arte como representação e espelho de elites narcisistas. As elites usavam e abusavam da cultura, da literatura e das artes para manifestar diferenças sociais, para simbolizar o status, como instrumentos da segregação social. Na visão de Lima Barreto, porém, a literatura devia unir as pessoas, as classes, as nações, devendo falar em primeiro lugar da cidade, do país, da vida das camada mais humildes, mas também da classe média que formava grande parte do público leitor. Os intelectuais mais influentes da República Velha, ao contrário, voltavam seu olhar para Europa como se fossem expatriados, como se tivessem vergonha de seu próprio país, que eles ainda pretendiam equiparar ao Velho Continente o mais rápido possível. “Só a Europa nos interessava. Era a Terra Prometida dos nossos sonhos” – confessaria posteriormente o ensaísta Paulo Prado, barão do café e mecenas dos modernistas.

Ao denunciar o mero culto ao belo como tentativa de encobrir a pobreza e as injustiças sociais, Lima Barreto não professou a estética do feio, o realismo socialista – que nem sequer existia –, a estética do choque ou a atitude de épater le bourgeois típica das vanguardas iconoclastas, inclusive do nascente Modernismo. Na verdade, apenas se manteve fiel ao modelo do romance realista e naturalista do final do século XIX, cuidando de desenvolvê-lo. Conseguiu resgatar as tradições cômicas, carnavalescas e picarescas da cultura popular, associando-as – por um lado – ao austero J’accuse de um Zola e – por outro – a uma visão neo-romântica e elegíaca da natureza, da cidade e do ser humano. Ampliou o uso literário da linguagem coloquial, principalmente no discurso direto dos personagens do povo, cujo registro é diferenciado conforme a posição social e o caráter de cada um. Se o narrador emprega um estilo correto e lhano, de acordo com a norma culta da época, também tende a ser despretensioso e até descontraído, incluindo vez por outra elementos lexicais ou sintáticos da língua falada de pessoas cultas. Em muitos trechos, o autor fez uso do discurso indireto livre, aproximando o narrador letrado da linguagem de seus personagens, inclusive do povo, sem condescendências nem distanciamentos, e criando linguagens intermediárias entre a fala popular e a escrita culta, o discurso direto e o discurso do narrador. Tanto a sua atitude antipurista e antiacadêmica no estilo, em nível estético, quanto a sua vontade de descobrir seu próprio país o ligam ao nascente Modernismo. Das três tradições culturais do Brasil, que deixam transparecer três diferentes posturas diante da realidade – a séria, a cômico-desrespeitosa e a lírica -, a mais evidente em Lima Barreto, especialmente em Policarpo Quaresma, é a cômico-desrespeitosa, ou irreverente-galhofeira.

Ao mencionado romance de temática jornalística, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, seguiu-se uma série de outros romances e contos predominantemente caricaturais e em parte comerciais, como – por exemplo – Numa e a Ninfa (1915), romance-chave sobre um político ambicioso instigado pela mulher ao carreirismo. Lima Barreto abordou diversas vezes a discriminação dos negros e mulatos, como no romance póstumo Clara dos Anjos, a história de uma negra da classe baixa, vítima de sedução. Em 1919, finalmente foi publicado o romance dramático Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), escrito num período anterior e ainda bastante lido hoje: um livro contemplativo, composto de maneira solta e repleto de uma ironia carinhosa pela cidade e pela nação. É a história de um carioca que personifica a aliança utópica entre a aristocracia do período imperial e a população simples, decididas a se unirem contra a burguesia gananciosa, carreirista e sem cultura, que ascendera ao poder com a República. Além disso, Lima Barreto escreveu uma série de contos satíricos mais extensos, como Aventuras do Dr. Bogóloff, sobre as experiências de um simpático impostor e malandro russo no Brasil, e Os Bruzundangas, descrição à maneira do Século das Luzes de um povo exótico, por trás do qual não é difícil identificar seus conterrâneos. O diário romanceado e fragmentário O Cemitério dos Vivos, publicado postumamente, é um impressionante testemunho de seu último internamento (1919) no Hospício Nacional dos Alienados, que não deixa de lembrar Dostoievski. Fora nesta clínica psiquiátrica, a mais famosa do país na época, situada na hoje Avenida Pasteur, que Policarpo ficara internado por motivos semelhantes, um fato sugestivo que mostra como o autor viria a “imitar” seu personagem.

Lima Barreto não seria privado apenas de projeção social, mas também de alegrias na vida particular. As pesquisas de seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa não revelaram indícios de qualquer felicidade amorosa. Assim como o herói Policarpo Quaresma, o escritor não dedicava seu erotismo às mulheres mas sim a determinados valores e metas. Ele mesmo chegou a admitir que se havia casado com a literatura. Amigos e conhecidos o descreviam como um homem tímido e reservado, mas, depois de estabelecida uma certa familiaridade, até afetuoso e caloroso, raramente irritado ou colérico, a não ser sob efeito do álcool; ou seja, no fundo, um temperamento sincero, solidário, corajoso, muito sensível, tendendo a se ofender com facilidade. Negava-se a agir de maneira estratégica ou oportunista, comportando-se com arrogância somente diante de pessoas arrogantes. Lima Barreto era um sofredor contumaz: sofria com sua própria situação e com o país, que ele, crítico do patriotismo, amava mais do que os patriotas oficiais, autonomeados. Mal atingira a idade madura, este homem de vulto, bem apessoado, já estava exausto e acabado. Teve que se aposentar como funcionário público aos 38 anos, sem nunca ter sido promovido, morrendo três anos depois. Assim como o herói Policarpo Quaresma, teve um triste fim, sendo morto pela pátria, não a tiros, mas por uma longa série de desgostos e mágoas.

Foi encontrado no leito de morte com um exemplar da Revue des Deux Mondes na mão, um gesto simbólico de sua persistente crença na força humanizadora e comunicativa que a literatura exerce, transpondo fronteiras nacionais. O nobre bairro de Botafogo, que se recusou a abrir as portas para ele em vida – bem como para o cantor popular Ricardo Coração dos Outros –, teve que recebê-lo morto. Assim como o pai, falecido dois dias depois de sua morte, Lima Barreto foi enterrado no cemitério São João Batista, onde tradicionalmente são sepultados os “imortais” da Academia de Letras. Seu túmulo fica a poucos passos da Rua Real Grandeza, onde a nobre e sensata Olga – talvez a mais simpática de suas personagens femininas – morava, num suntuoso casarão, na companhia do pai inculto mas generoso e do marido sem caráter. Ela, que fez tudo para salvar o padrinho Policarpo, com certeza também teria tentado salvar seu criador Lima Barreto. Este, contudo, jamais encontrou uma mulher como ela.

3. Um patriota da triste figura

Lima Barreto atingiu o ápice de sua criatividade em 1911, um período em que ainda não tinha capitulado diante da cachaça, ainda se importava com sua imagem pública, cuidava do seu vestuário e burilava os seus textos. Quase todas as suas obras posteriores foram concebidas e em grande parte escritas neste período. O romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em série no folhetim do Jornal do Commercio, mal foi levado em consideração pela crítica, recebendo, porém, aprovação unânime em 1915-16, ao ser lançado como livro.

Oscilando entre o cômico e o sério, o título nomeia o protagonista do romance com um espirituoso trocadilho, oxímoro ou paradoxo: “Policarpo”, o que frutifica diversas vezes, se contrapõe ao sobrenome “Quaresma”, do latim “quadragesima”, período de 40 dias entre quarta-feira de Cinzas e domingo de Páscoa, ou seja, o período da Paixão, que confere de princípio uma certa conotação religiosa ao romance. Além disso, o historiador francês Ernest Renan, uma das grandes admirações de Lima Barreto, faz menção a um certo Policarpo de Smyrna, bispo na Ásia Menor no início do Cristianismo. “Quaresma”, por sua vez, também designa diversas espécies de arbustos ornamentais, que dão uma flor geralmente violeta, no início da quaresma.

O romance narra a história tragicômica de um excêntrico funcionário público do Arsenal de Guerra, humanista convicto, no fundo quase pacifista, que dedica toda a sua vida à “grandeza e emancipação da Pátria”. O perfil do protagonista remete a uma geração de intelectuais brasileiros íntegros, cultos e idealistas, de Alexandre Rodrigues Ferreira até Antonio Callado, passando – entre outros - por Gonçalves Dias, Couto de Magalhães, Euclides da Cunha, Cândido Rondon, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Nelson Werneck Sodré, Darcy Ribeiro, só para mencionar alguns poucos, dos quais quatro eram militares e não por acaso. No início do livro, o herói de 50 anos de idade já tinha dedicado três décadas de sua vida à paixão patriótica e a uma investigação científica bastante romantizada de seu país, conduzida com espírito enciclopédico e o auxílio de uma biblioteca brasilianista. Após o amadurecimento das leituras, chegava a hora de colocar em prática os conhecimentos adquiridos e seus planos de combate ao atraso, à pobreza e à dependência econômica do Brasil. Alterando um ditado de Marx: Policarpo havia estudado e interpretado a realidade brasileira, impunha-se agora o desafio de transformá-la.

Tenta viabilizar seus planos de reforma em três âmbitos sociais: cultura, economia e política. Analogamente, o enredo do romance é estruturado em três partes e três ambientes. Primeiro, Policarpo atua como pesquisador de folclore e reformador cultural nos subúrbios pequeno-burgueses do Rio de Janeiro, em sua repartição pública no Centro da cidade e até no Congresso, de onde ele planeja atingir todo o país. Na segunda parte, administra uma fazenda-modelo em Curuzu, município fictício nas imediações do Rio, cujo nome remete à Guerra do Paraguai. Na terceira parte, assume a função de oficial na guerra civil e tenta implementar suas reformas políticas durante a repressão do levante da Marinha na Baía da Guanabara. Como um Dom Quixote do patriotismo, sempre fracassa por tentar aplicar mecanicamente à realidade as doutrinas alienadoras que aprendeu nos livros.

Já nas primeiras páginas, Policarpo Quaresma resgata o tema da mediação literária como alheamento da realidade, podendo ser lido como livro sobre a leitura equivocada, como livro sobre os livros. De início, o instrumento utilizado pelo herói é uma biblioteca histórico-literária. Ao perceber, posteriormente, sua relativa inutilidade, começa a reunir um acervo mais pragmático de obras agronômicas e militares e, apesar dos livros irem perdendo a função, continua sendo um leitor voraz até o fim da vida. A prioridade da leitura e o sedentarismo o distinguem dos verdadeiros estudiosos do Brasil, que não eram somente leitores mas sobretudo viajantes e escritores. Policarpo, tão rico em talentos e em curiosidade, não pode se dar ao luxo de viajar. Quase não produz escritos, a não ser ofícios na sua repartição, assim como não chega a ter filhos. Apesar da vocação didática, ridicularizada por seus colegas, não se torna professor, de forma que sua atuação – discreta e silenciosa – permanece vã e estéril.

Policarpo até faz alguns esforços para, de certa maneira, ser autor, ciente de que não pode prescindir da comunicação escrita para servir à pátria; afinal, agir também significa escrever. Sua primeira tentativa de intervir na vida social, portanto, coincide com o primeiro escrito, uma petição ao Congresso. Entre os textos que vem a escrever depois, o de maior significado político é uma reflexão sobre a reforma da agricultura, que – apesar de ser provavelmente mais informativa e útil do que sua alienada petição – também não é levada em conta por ninguém. Por fim, seu último escrito, uma carta de protesto contra execuções arbitrárias, ocasiona sua própria morte, por ironia do destino.

Além da evidente alusão a Dom Quixote, de Cervantes, o romance se refere à tradição do bovarismo, um conceito bastante corrente do ensaísmo cultural da época, cunhado a partir de Madame Bovary, de Flaubert, pelo filósofo francês Jules de Gaultier através da obra Le Bovarysme. Outra referência é o Cândido, de Voltaire, cujo protagonista é levado por leituras alienadoras a construir uma visão de mundo ilusória e otimista demais, decepcionando-se por fim com o amargo choque da realidade, sem que o narrador tenha a intenção de nos dar uma lição de cinismo. O que Cervantes, Flaubert e Voltaire têm em comum é a maneira ao mesmo tempo crítica e compreensiva de encarar a perigosa e cega crença humanitária nos livros. Numa mistura de orgulho e autocrítica, Lima Barreto se dizia adepto do bovarismo, ao mesmo tempo que amava Dom Quixote e Cândido, livros imprescindíveis de sua biblioteca particular. O Major Quaresma tem até seu Sancho Pança: assim como o escudeiro espanhol, Ricardo Coração dos Outros é um semiburlesco imitador e sóbrio crítico e antípoda de seu senhor, no fundo quase um amigo, apesar da distância social.

Como em Cervantes, o ponto de vista da narrativa é primordialmente satírico e paródico. A sociedade, caracterizada com um grau variável de exagero, é avaliada segundo suas próprias afirmações e exigências e condenada por seus equívocos, sua falsidade e incoerência. A maneira caricatural de caracterizar os personagens através da repetição mecânica de comportamentos remete à definição do cômico formulada por Bergson em seu famoso ensaio sobre o riso: du mécanique plaqué sur du vivant. Os personagens cômicos reagem de maneira inflexível, automática e insensível às diferentes situações de uma realidade em constante transformação, recorrendo aos padrões discursivos e comportamentais a que estão acostumados, sem perceber o absurdo de sua inadequação. Quaresma não cansa de elogiar a fertilidade do solo brasileiro, antes mesmo de tê-la comprovado; o General Albernaz não pára de se gabar das batalhas da Guerra do Paraguai, das quais nem chegou a participar; o Contra-Almirante Caldas vive lamentando nunca ter recebido condecorações, embora jamais tenha comandado um navio. Dependendo do personagem ou da situação enfocada, o teor cômico oscila entre o humor compreensivo, a ironia denunciadora ou o sarcasmo amargo. Graças a uma certa capacidade de aprendizado, Quaresma vai se tornando, no decorrrer do enredo, cada vez menos risível. O senso de justiça parece levar o autor a romper a caracterização exclusivamente satírica dele e de outros personagens, quebrando diversas vezes a distância requerida pela sátira. Esta, afinal, tem como condição vital a parcialidade, ou seja, a não-ponderação da totalidade de aspectos de um caráter ou de uma situação por parte daquele que ri. É preciso ser um pouco injusto para ser um bom satírico.

4. Glória e decadência de uma época fundadora

Não é à toa que Policarpo escolhe a fase imediatamente posterior à proclamação da República para colocar seus estudos a serviço da pátria. O corrupto Império acabara de ser derrubado por um golpe militar apoiado pelos influentes produtores de café de São Paulo e aclamado pela maioria das pessoas cultas e letradas. No entanto, ao contrário do esperado, os militares não voltaram aos quartéis imediatamente, mas somente cinco anos depois. O romance se passa nos primeiros anos da República Velha, entre 1889 e 1894, durante governos militares marcados por constantes crises e agitações. Na primeira parte do livro, ainda são vagas as alusões históricas, que vêm a se tornar mais nítidas na segunda e factualmente identificáveis só na terceira.

Logo depois de 1889, o clima era de euforia e otimismo, pois o Brasil parecia estar renascendo e inaugurando uma nova era. Idealistas, negociantes e carreiristas passaram a ver uma chance de reorganizar ou simplesmente explorar o Estado e a sociedade como bem entendessem. Em fevereiro de 1891, o Congresso Constituinte promulgou a nova Constituição dos Estados Unidos do Brasil e convocou o primeiro Congresso da era republicana, ao qual Policarpo enviaria sua petição por uma nova língua nacional. Assim como a França revolucionária, cem anos antes, o Brasil estava passando por uma séria crise econômica e financeira, tendo que se defender também de revoltas tachadas de contra-revolucionárias.

A maior parte da opinião pública esperava uma solução para os desmandos do império e exigia reformas democráticas, a consolidação de um Estado de direito, maiores perspectivas de carreira para a classe média, medidas de descentralização, mais eficiência na administração pública e maior dinamismo no comércio. Os republicanos radicais, sobretudo os nacionalistas pequeno-burgueses, se autodenominavam “jacobinos” – sendo a referência aos precursores franceses um equívoco histórico até compreensível –, chamavam-se entre si de “cidadãos”, além de terem conseguido declarar o dia 14 de julho feriado nacional, dia da Tomada da Bastilha em 1789.

Foi nessa época que Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira, também de 1789, passou a ser homenageado a posteriori como herói nacional. Assim, não é por acaso que o Policarpo preso no fim do livro se lembra dos inconfidentes que estiveram no mesmo cárcere havia um século. As constantes referências à Guerra do Paraguai, aparentemente uma mera nostalgia de veteranos excêntricos, também faziam parte deste clima de euforia e da tentativa de resgatar as tradições nacionais. Apesar de não significar propriamente a gênese do Exército brasileiro, aquela guerra já remota representava o seu batismo de fogo e o primeiro momento de glória militar da nação, ao qual o Exército devia sua reputação e a legitimação de sua atual participação política.

A proclamação da República possibilitou uma série de avanços jurídicos e econômicos e o governo militar tomou algumas medidas em favor das camadas desprivilegiadas da população, como o estabelecimento de um limite de preços e aluguéis. Contudo, não houve uma ruptura sociopolítica significativa. A República herdara certos vícios do Império, entre os quais o coronelismo, ou seja, a hegemonia de líderes locais, sobretudo latifundiários, que praticavam o clientelismo com a conivência de autoridades estaduais e federais e conseguiam controlar um ou mais municípios através de intrigas, violência e fraudes eleitorais, combatendo todos os que não se enquadrassem nesta estrutura. Um dos instrumentos de poder mais apreciados pelo coronelismo é a parcialidade com que se cumprem regulamentos e leis, segundo o princípio: “para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. Ao invés de aplicar a lei a todos, indiscriminadamente, a Justiça e a administração pública são usadas como instrumentos de poder, para punir e rebaixar uns e garantir privilégios de outros. Quando Policarpo percebe que seus planos de reforma rural estão para fracassar, um acontecimento lhe dá esperança de criar uma base política para implementar suas idéias.

No dia 6 de setembro de 1893, na véspera da comemoração dos 71 anos de independência do país, eclode a Revolta da Armada no Forte de Santa Cruz, na barra da Baía da Guanabara. Com este acontecimento, reacende-se uma antiga rivalidade entre a Marinha – tradicionalmente conservadora, comandada por uma elite da classe alta, contrária ou indiferente à República – e o Exército, com seus oficiais recrutados da classe média, adeptos do republicanismo. Simultaneamente a esta revolta, mas independente dela de início, houve no Rio Grande do Sul um levante contra o governo federal, em defesa de maior autonomia regional. Os líderes de ambos os movimentos – representantes de diferentes setores das elites, menos interessados num programa político do que em poder e prestígio – não hesitaram em se aliar, assumindo uma difusa posição monarquista. Em março de 1894, os oficiais da Marinha capitularam e abandonaram suas posições, fugindo para os navios de guerra portugueses. A revanche dos vencedores, que maltrataram, deportaram e mandaram matar diversos rebeldes presos, afetou sobretudo inocentes, pois – assim como a população – a maioria dos soldados, recrutada à força por ambas as partes, mal sabia qual era o motivo da guerra civil.

O que decerto também inspirou o escritor foram analogias entre a revolta da Marinha de 1893-94, que compõe o pano de fundo histórico da terceira parte do romance, e o clima político dos anos de 1909-11, período em que Lima Barreto concebeu e escreveu Policarpo Quaresma. Pela primeira vez na história do Brasil, em 1909-10, houve uma eleição que não foi inteiramente negociada de antemão entre as elites políticas – acontecimento que mobilizou a opinião pública de forma inédita. Os dois candidatos à presidência eram o Marechal Hermes da Fonseca, um militar autoritário, não necessariamente ditatorial, que fora ministro da Guerra do governo anterior, e o jurista liberal e homem de letras Rui Barbosa, uma celebridade nacional e internacional. Em sua campanha eleitoral, norteada por princípios civilistas, Rui Barbosa defendia sobretudo o afastamento do Exército da política. Este foi o motivo de Lima Barreto apoiá-lo, apesar de não morrer de amores por ele, pois o considerava representante de uma retórica vazia e elitista. Uma das denúncias da Campanha Civilista era intervenção repressora da polícia militar na chamada “Primavera de Sangue”, em 1909, que culminara com a morte de dois estudantes. O processo contra os responsáveis acabou se transformando num acerto de contas público com o Exército, e, ao que parece, a atuação do jurado Lima Barreto foi decisiva para a condenação do tenente responsável pelos desmandos. Os adeptos de Rui Barbosa alertavam contra o perigo de um retrocesso da República para o estado ditatorial de 1893-94 – uma preocupação não infundada, mas decerto exagerada do ponto de vista da atual pesquisa histórica.

Numa das suas primeiras medidas, mesmo antes de tomar posse, o presidente eleito Hermes da Fonseca pareceu se revelar herdeiro político do ditador Floriano Peixoto, ordenando um massacre. Em novembro de 1909, eclodira a Revolta da Chibata dentro da Armada. Os rebeldes voltaram os navios contra o Rio, como em 1893-94, mas desta vez os marinheiros comandados pelo “Almirante Negro” João Cândido – assim denominado por causa de sua cor e de suas qualidades de liderança – apontaram os canhões diretamente contra a cidade. Não pretendiam derrubar o governo, mas apenas protestar contra as deploráveis condições do serviço a bordo, contra a comida deteriorada e sobretudo contra os castigos físicos e a humilhante punição com a “chibata”. Após o Congresso e o governo garantirem que cumpririam as reivindicações e não puniriam os responsáveis pelo motim, os revoltosos se entregaram. Todavia, as autoridades não cumpriram sua palavra, punindo-os de forma tão bárbara quanto aos marinheiros traídos por seus oficiais dezesseis anos antes. Desta forma, Lima Barreto transformou seu romance histórico, o que era compreensível a qualquer leitor da época, num comentário implícito sobre acontecimentos bastante recentes, quase contemporâneos. Inseriu tais eventos numa tradição funesta, a do massacre usado como meio de dominação, punição e intimidação – justamente num país que fora um dos primeiros a abolir a pena de morte, ainda no século XIX, no tempo do Império.

A época aparentemente fundadora da República é apresentada como uma época de decadência, de expectativas frustradas, o que coloca Policarpo Quaresma em constraste com a “ficção fundadora [fundacional]” apontada por Doris Sommer como importante temática na literatura das Américas.

5. Em busca de uma cultura nacional

Como autêntico idealista, Policarpo começa suas reformas pela superestrutura, falando-se em termos marxistas. No século XIX, época clássica da formação dos Estados nacionais, a situação do Brasil era diferente da de países como Itália e Alemanha. Não se tratava de criar um Estado para a nação, mas sim uma nação para o Estado herdado dos colonizadores. A elite letrada fora convocada a contribuir para este processo. Já que a alta cultura e suas instituições tinham sido importadas da Europa, restavam dois âmbitos em que o país podia se diferenciar do colonizador e legitimar o que no século XX se denominaria identidade nacional: a natureza tropical e a cultura indígena, de preferência a de um passado longínquo. O Museu Nacional, fundado logo depois da Independência e sediado desde 1892 no Solar da Quinta da Boa Vista, a moradia do Imperador – não muito distante da casa de Policarpo, em São Cristóvão –, ilustra esta concepção, reunindo em seu acervo coleções de etnologia e ciências naturais.

Policarpo também se deixa fascinar pela natureza e pelos indígenas, embora sua concepção de nação seja mais abrangente. Ele percebe que a nação – como formação social artificial, ou seja, como “comunidade imaginada”, conforme formulou Benedict Anderson, lembrando que seus membros não se conhecem pessoalmente – requer consciência dos elementos culturais comuns, isto é, consciência de uma cultura nacional. Para o pesquisador Policarpo, assim como para os nacionalistas europeus, aquilo que mais profundamente unia o Brasil era a música, a poesia popular, a dança, a língua, a literatura, as receitas culinárias, os rituais de recepção e, sobretudo, a imagem que se fazia da própria história. Tanto o protagonista como o narrador suspeitam que a nação e as tradições não passam de invenções. Neste sentido, o livro de Lima Barreto pode ser considerado uma ilustração das teses de Eric Hobsbawm sobre o assunto. Como as nações européias, o Brasil tem que começar a restaurar edifícios, construir monumentos, fundar museus, estudar e reavivar o folclore, colocar a historiografia e as ciências humanas a serviço da cultura nacional, projetando-a num passado longínquo, a fim de atribuir-lhe ancestralidade, dignidade e irreversibilidade. As nações não apenas investigam a cultura nacional, mas também a constroem, ao compilar fragmentos de tradições passadas e regionais e elegê-los como símbolos nacionais.

A busca de Policarpo por autenticidade e genuinidade, semelhante à dos nacionalistas europeus dos séculos XIX e XX, acaba se tornando uma obsessão purista, que no Brasil – diante da origem cultural multiétnica – ainda é mais absurda do que no Velho Mundo. A compreensão da originalidade de uma cultura nacional, no seu caráter primordial e singular, leva Policarpo a um método eliminatório: genuinamente brasileiro seria apenas aquilo que não contém nenhuma influência estrangeira. À medida que ele vai descobrindo que os fenômenos culturais considerados tipicamente brasileiros são parcial ou inteiramente europeus ou africanos, inclusive a tão apreciada modinha, aquilo que ele considera autenticamente brasileiro vai se reduzindo cada vez mais. Então, ele se vê obrigado a se distanciar do presente e da cultura urbana, que lhe parece contaminada por influências estrangeiras, e vai penetrando cada vez mais no passado e no interior do país, a fim de se ver livre dos influxos africanos e europeus.

Primeiro, ele localiza o Brasil puro, sem misturas, na época imperial; depois, no fim do período colonial; e, posteriormente, no início da colonização. Por fim, resta-lhe considerar genuinamente brasileira apenas a cultura tupi-guarani. Este absurdo é ocasionado pelo método de buscar a essência de uma cultura em sua origem autóctone, eliminando todas as influências posteriores como impurezas. Policarpo realmente merece ser apelidado por seus colegas de Ubirajara, protagonista do romance homônimo de José de Alencar, ambientado na época pré-colonial, numa sociedade bem mais fictícia do que a de suas demais obras, impossível de ser enquadrada em qualquer realidade espacial e temporal. Mistura cultural e étnica, bem como  intercâmbio transnacional existiram desde sempre, sobretudo no Brasil. Desta forma, o enredo do romance desmonta os conceitos puristas e essencialistas de genuinidade nacional e identidade cultural. A pureza de uma cultura é um fantasma e a busca desta pureza só pode levar à loucura e à casa de loucos.

Desde a época dos descobrimentos, havia – na literatura européia e, posteriormente, na literatura do Novo Mundo – uma disputa entre duas imagens contraditórias dos indígenas: o bom selvagem e o canibal monstruoso, ambos uma projeção mítica do Velho Mundo e expressão das visões de paraíso e inferno. Se, para Policarpo, os tupis-guaranis representavam o ideal humano e a essência do brasileiro, para uma parte da opinião pública e para os defensores do progresso técnico e econômico, eles não passavam de bárbaros antropófagos, desprovidos do status posteriormente reabilitado pelos modernistas. Isto explica o tratamento caricatural que a imprensa faz de Quaresma como “açougueiro de Santa Cruz”, um epíteto que se refere ao primeiro nome do Brasil e ao subúrbio carioca, na parte oeste do município, onde se localizava o matadouro na época. O resgate do passado indígena, sobretudo da cultura e da língua tupi-guaranis, se insere numa tradição brasileira, com traços retrógrados e passadistas, mas também progressistas e emancipatórios, existente desde o nativismo, passando pelo patriotismo dos cronistas e poetas do século XVIII, pelo romantismo indianista, até modernistas como Mário e Oswald de Andrade. Com a publicação do Manifesto Antropofágico, de 1928, Oswald esboçou uma cultura tropical, igualitária, matriarcal e vanguardista, a ser construída através da incorporação “canibalesca” da parte mais valiosa da cultura européia e do cultivo de tradições indígenas. A reavaliação da herança indígena culminou em um dito que certamente teria agradado ao Major Quaresma, apesar do estrangeirismo: Tupi or not tupi, that´s the question.

A idéia de que a criação de uma nação implica uma língua própria não é tão absurda como soa de início. Desde o século XIX, é corrente entre os nacionalistas de todos os países a idéia de que a nação é uma comunidade lingüística e cultural, tendo, como tal, direito a um Estado próprio. Portanto, o raciocínio inverso é absolutamente lógico: um Estado nacional já existente tem direito à uma língua própria e, quando não existe no presente, tem que ser procurada no passado; basta ver o exemplo da Irlanda. Claro que Estados transnacionais sempre se voltaram contra este tipo de reivindicação, seja o Império Otomano, seja a Monarquia Austro-Húngara, à qual a personagem Olga se refere, ao mencionar a luta dos checos por uma língua nacional. Talvez se possa ver um núcleo racional no nacionalismo lingüístico de Policarpo: a reivindicação de abrasileirar o português literário, uma meta traçada por muitos escritores desde o Romantismo, inclusive por Lima Barreto, e seguida com maior ou menor radicalismo pelos modernistas, por Guimarães Rosa e outros.

6. Reformas na zona rural

Policarpo defende e pratica um nacionalismo econômico. Assim como os políticos positivistas da época, ele reivindica medidas protecionistas para a indústria brasileira e só compra produtos nacionais, se possível. Mas atribui um valor ainda maior ao desenvolvimento da agricultura como alicerce de uma pátria forte, próspera e socialmente justa.

Após constatar o fracasso e a inutilidade de suas reformas no âmbito da cultura, Policarpo muda para o campo, para cuidar da saúde e também para montar uma fazenda que possa servir de modelo para uma reforma regional e nacional da agricultura. Sem jamais perder de vista a “grandeza e emancipação da pátria” como pressuposto e meta, ele quer provar que o Brasil – ao seu ver o país mais fértil do mundo – tem condições de alimentar toda a população, preocupação compreensível numa época em que o país, apesar de ter apenas uns 15 milhões de habitantes, gastava mais de um quinto de suas divisas para importar alimentos. Apesar de não ter a mesma obsessão brasílica de seu padrinho, a afilhada Olga também tem interesse em aumentar a produção agrícola e melhorar as condições de vida no campo. É com grande compaixão que ela começa a se informar por que existe tanta pobreza e miséria na roça, não só em regiões longínquas mas também nas imediações da grande cidade. Sua conclusão parcial é a de que a vigente distribuição da propriedade do solo e a política do governo não incentivam o desenvolvimento de iniciativas próprias. Diferentemente de Quaresma, ela se vê impossibilitada de agir e de intervir numa realidade tão lastimável, devido à sua condição de mulher.

O seu padrinho, porém, em cada uma das suas iniciativas, se vê frustrado, ainda que esteja disposto a mudar, a adequar, até certo ponto, as suas opiniões ilusórias à realidade, caindo, porém, logo depois, em outras ilusões. Resta perguntar se ele é o único “culpado” das suas ilusões ou se aqueles “realistas”, que não as partilham, prestam melhores serviços ao país do que ele. Como resultado de todo um aprendizado, Policarpo descobre que – além de novos livros especializados para a sua biblioteca – precisa de aparelhos de medição meteorológica, maquinaria agrícola e pesticidas. No entanto, todo esse instrumental não adianta muito, pois ele não sabe utilizá-lo adequadamente, tendo também que admitir que o solo brasileiro não é tão fértil como ele pensava. Além disso, ele percebe que certas doenças e pragas, como a saúva, por exemplo, dificilmente podem ser combatidas por um só agricultor, exigindo a cooperação dos agricultores e o esforço organizado da ciência e do Estado. As saúvas são um leitmotiv da literatura brasileira, remetendo por exemplo a um dito recorrente em Macunaíma: “Muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são”. Policarpo, porém, faz progressos e adota atitudes sensatas. Ao se opor às queimadas, por exemplo, mostra que dispõe de conhecimentos ou intuições ecológicas. Ao contrário dos acadêmicos pedantes, constantemente caricaturados pelo autor, não tem vergonha de aprender com o povo, com seu criado negro Anastácio, no caso. Todavia, em se tratando de saúvas, este também não consegue ajudá-lo.

O que também dificulta o desenvolvimento da fazenda-modelo e da agricultura como um todo são certas estruturas sociopolíticas, como o coronelismo e a hegemonia do latifúndio, ligada a essa estrutura clientelista do poder. Com uma mão-de-obra praticamente gratuita e o excesso de terra cultivável, não há motivo para aumentar a produtividade. Um processo de modernização subsidiado pelo governo e incentivado pela demanda estrangeira só se dá com produtos de exportação, como o café, por exemplo. Um outro obstáculo é o papel monopolista do atravessador, que encarece os produtos agrícolas no mercado interno, impede a expansão da produção, bloqueia a concorrência e atrasa o desenvolvimento capitalista da zona rural. Se até Policarpo fracassa como pequeno agricultor – embora seja bem informado e proprietário das terras que cultiva, dispondo de certo capital e de um know-how constantemente ampliado –, o que será então dos pequenos lavradores, moradores, meeiros e jornaleiros, que não têm terra própria para morar nem para lavrar e plantar?

Nesta parte do romance, Lima Barreto ridiculariza os clichês românticos e arcádicos, mas também contemporâneos, do aconchego patriarcal, do pitoresto nostálgico, do bucolismo inocente da população rural, propagados naquela época sobretudo pelos prosadores Coelho Neto e Afonso Arinos, e pelo poeta popular Catulo da Paixão Cearense, ao qual remonta o personagem de Ricardo Coração dos Outros. Se o campo, no plano socioeconômico, é pobre e até miserável, também é decepcionante no plano estético, ficando muito aquém das imagens literárias, aparecendo freqüentemente como entediante, desolado, desertado e até feio e repulsivo. Só em poucos momentos a paisagem toca o observador pelo silêncio e pela graça, sobretudo a cachoeira de Carico, descrita como locus amoenus na acepção da poética clássica.

7. Desenvolvimento por meios ditatoriais?

O plano de Policarpo para renovar a nação requer um Estado forte, acima dos interesses particulares e de classe das oligarquias, dos carreiristas e oportunistas. Só assim seria possível realizar as reformas necessárias e encarregar os melhores peritos do país com funções governamentais, seguindo a concepção de Augusto Comte. Nosso patriota une a fascinação romântica pelo índio à crença moderna, positivista e republicana no progresso. Desta forma, ele não hesita em apoiar a “ditadura desenvolvimentista” – como se diria mais tarde – do marechal Floriano Peixoto, um conhecido do major Quaresma de outros tempos, sem procurar. no entanto, tirar proveito pessoal deste contato.

O limite entre patriotismo tradicional e nacionalismo moderno acaba se diluindo na recém-proclamada República, cuja meta é consolidar o Estado nacional que ainda não existia durante o Império, um regime no qual os escravos e a maioria dos índios não tinham direitos de cidadão. Embora mais patriota do que nacionalista, Policarpo apóia os militares representantes de um nacionalismo agressivo e excludente, ligados, entretanto, a uma doutrina positivista humanitária e aos modelos franceses. Ao apoiá-los, Policarpo endossa involuntariamente o nacionalismo fanático, o republicanismo autoritário, o culto ao Estado e as violações dos direitos humanos e do cidadão.

A intenção de Policarpo de se tornar soldado na juventude e o absurdo fato de seus planos de reforma o obrigarem a virar oficial, sem nunca ter pegado numa arma, se explicam pela íntima ligação entre patriotismo, nacionalismo, República e Exército existente no Brasil daquela época. As Forças Armadas se consideravam porta-voz da nação e achavam que a melhor forma de servi-la era recorrer às armas. Apesar do baixo contingente de aproximadamente 20 mil soldados registrado em 1890, o Exército – mais do que a Marinha – era uma das poucas instituições que conferia vulto ao Estado, garantia o contato entre a capital e regiões distantes, através da construção de telégrafos, por exemplo, e mantinha a unidade territorial desse país de dimensões continentais, tão grande quanto a Europa. A primeira Constituição republicana conferiu ao Exército a função de árbitro entre os três poderes constitucionais e de guardião da segurança externa e interna, permitindo-lhe preencher em parte a função do imperador, qualificada como poder moderador.

Após duas tentativas fracassadas de reforma, nosso herói volta a ter uma amarga decepção. Justamente o regime que inscreveu o lema “Ordem e Progresso” na bandeira nacional e prometeu abrir chances de carreira para a classe média acaba colocando incompetentes em posições de liderança. Mas isso ainda é relativamente inofensivo. Generais e almirantes que se enfeitavam com condecorações da Guerra do Paraguai, na melhor tradição do miles gloriosus da comédia romana, são obrigados a pedir conselhos a jovens oficiais, para compensar sua incompetência. Um deles, o Tenente Fontes acaba ganhando um destaque notável. Sua integridade, presença de espírito e competência militar, sua formação positivista superficial, a mentalidade pequeno-burguesa, a ambição autoritária de realizar reformas republicanas, bem como a disposição fanática de morrer e de matar pela pátria são características do tenentismo, um movimento de reforma política iniciado na década de 20 por oficiais de posição hierárquica inferior, comparáveis aos Jovens Turcos de Atatürk e responsáveis pela ascensão de Getúlio Vargas ao poder, em 1930. Era um movimento antioligárquico e autoritário, que correspondia aos interesses da classe média não-abastada, prevendo a melhora das condições de vida do povo, mas sem a sua participação. Se os oficiais são riducularizados, os adeptos civis do regime, como o escriturário do Tesouro Genelício ou o médico Armando Borges, por exemplo, são apresentados como incompetentes, pedantes e altamente ambiciosos, caracterizados, portanto, de forma ainda mais negativa e caricatural do que os militares.

O chefe de Estado Floriano Peixoto é uma verdadeira decepção. Com sua inexpressividade e dissimulação, ele funciona como uma perfeita superfície de projeção para as mais fantasiosas expectativas de seus conterrâneos e seguidores. Apesar da representação caricatural, Lima Barreto apreendeu traços essenciais da personalidade histórica do “Marechal de Ferro”, aquele governante provinciano, bonachão, acessível, cruel e absolutamente impassível, não muito distante da esfinge meio banal que viu nele Euclides da Cunha. O fato de ele instrumentalizar as visões positivistas de seus adeptos militares e civis, sem acreditar nelas, e o de desprezar os camponeses nacionais são bastante verossímeis. No entanto, graças a um certo sangue-frio, ele teve o mérito de reprimir duas revoltas que não eram nem um pouco progressistas. Com o personagem do marechal e a descrição do clima de terror, Lima Barreto antecipa aspectos do gênero latino-americano do romance de ditador, como O Senhor Presidente, de Asturias, Eu, O Supremo, de Roa Bastos, ou O Outono do Patriarca, de García Márquez.

O narrador certamente ironiza os padrões idealizadores de Policarpo, inspirados no monarca pré-absolutista Henrique IV e em seu ministro Sully ou em Turgot, ministro iluminista da França pré-revolucionária. Por outro lado, ele também os adota, pois estes três estadistas, profundamente respeitados até hoje, evocam certos valores, como conciliação e tolerância, e certas conquistas políticas e sociais, como reformas da agricultura e eficiência administrativa. Alheio ao oportunismo típico dos renegados e promulgador do Edito de Nantes em favor dos huguenotes, este rei, originalmente protestante, para quem Paris valia uma missa, deve sua popularidade sobretudo à máxima de que cada francês tivesse um frango na panela aos domingos, ditado que devia agradar a Lima Barreto e ao seu herói patriótico.

8. Sobre a dialética da humanidade, nacionalidade e bestialidade

Guerras e guerras civis exercem um papel fundamental na constituição das nações, sendo idealizadas pelos nacionalistas justamente por este motivo. Vistas de perto, no entanto, as guerras, além de devastarem nações, são quase sempre decepcionantes, pouco heróicas, degradantes, assustadoras ou cruéis. As literaturas de todos os tempos e de todas as culturas têm, assim como as artes e as religiões, um importante papel na criação de ilusões belicistas, na heroicização de combates e combatentes, na glorificação e transfiguração dos mortos em heróis e mártires. Mas, se os literatos são cúmplices dos guerreiros, também se redimem, em parte, por desmascarar a guerra como seqüência de massacres sem sentido e causa de sofrimentos sem fim. Estas duas tendências já existem em Homero. Na Idade Moderna, o nacionalismo instigou enormemente as guerras, democratizando-as, emocionalizando-as, acirrando-as. Até mesmo Policarpo, cujo caráter humanitário e pacifista destoa de suas idéias fixas de guerra e pátria, acaba se entregando a uma bestialidade arcaica avessa ao seu entusiasmo pelo progresso. Numa emocionante carta à irmã, confessa que a guerra – uma barbárie permitida em todas as civilizações – passou a inquietá-lo depois que ele aderiu à luta, não só por ser um sacrifício vão mas também por incentivar e até requerer a brutalidade e crueldade, um lado de si mesmo que as pessoas costumam ignorar. Afinal, um soldado cordial e humano seria um contra-senso. O nacionalismo não inventou os confrontos armados, mas, ao mobilizar nações inteiras para este propósito, tornou a guerra passional, perigosa e total. Será que a nação tem o direito de exigir sacrifício humano como os deuses antigos?

O desenvolvimento do enredo, sobretudo na terceira parte do romance, ilustra o potencial bárbaro de um patriotismo fanático colocado a serviço do Estado nacional. Ao mostrar que os idealistas podem se tornar tão perigosos quanto os soberanos e seus bajuladores, Lima Barreto assume uma posição pessimista e crítica em relação às concepções iluministas da História. Além disso, expressa a preocupação de que posturas humanizadoras e progressistas possam se transformar em ódio, violência e desumanidade, sobretudo em épocas de nacionalismo desenfreado e de endeusamento do Estado. Despojadas de sua aura mítica, todas as épocas – inclusive o passado recente – remetem à noção hegeliana de que a história é um matadouro que raramente propicia a felicidade humana. O dramaturgo Franz Grillparzer, patriota dinástico da fase tardia do Império multicultural e multinacional dos Habsburgos, parece ter pressentido as duas Guerras Mundiais, ao resumir da seguinte forma a face obscura da “dialética do Iluminismo”: “A trajetória da cultura moderna vai da humanidade até a bestialidade, passando pela nacionalidade”.

Para combater o nacionalismo, Lima Barreto teve que questionar as imagens errôneas que o Brasil fazia de si mesmo. Ele leva ad absurdum os clichês e mitos nacionalistas e os desmascara um a um: a maravilhosa fertilidade do solo, o profundo arraigamento da cultura popular, a pacífica harmonia e serenidade do povo ou a integridade dos governantes. Por fim, restam apenas indagações sobre a essência do Brasil, sua história e sua cultura. Um dos mitos mais perigosos é o do patriotismo. No fundo, os patriotas grandiloqüentes de plantão não passam de traidores da pátria, pois a usam para a sua própria autopromoção e enriquecimento. Lima Barreto não argumenta de fora, a partir de um ideal abstrato e cosmopolita de humanidade, mas sim a partir das pretensões do próprio patriotismo. Teme uma perspectiva intrínseca, considerando os interesses da maioria da população, atitude que se poderia chamar de patriotismo alternativo, à medida que condena a sociedade de classes e o Estado de não-direito por instrumentalizarem o patriotismo e o nacionalismo em favor do interesse das elites. Esboça uma utopia ex negativo, um patriotismo social, com consciência histórica e respeito pela cidadania, ancorado na cultura própria e aberto a influências estrangeiras, ou seja, um patriotismo compatível que se auto-supera e se neutraliza, tornando-se compatível com o cosmopolitismo. Além disso, a desmontagem de posições puristas e essencialistas de cultura nacional implica o reconhecimento da mestiçagem no Brasil, não apenas como resultado das origens do país, mas como processo permanente, devido também à abertura do Brasil em relação ao mundo, que, por sua vez, naturalmente, também é mestiço.

Graças à sua boa índole, divergente do discurso humanizador vazio dos positivistas e do oportunismo dos vira-casacas, Policarpo desmascara o regime e deixa de ser conivente com ele, redimindo-se de boa parte de sua culpa através de seu martírio. Ao contrário de Dom Quixote, ele é altamente incoerente, sendo levado por sua bondade e benevolência a reiteradas contradições entre convicção e comportamento, comendo, por exemplo, pão francês, comprando maquinaria norte-americana para sua fazenda, mantendo relações de compadrio com um italiano ou citando um viajante inglês em Lisboa como testemunha da qualidade da modinha “genuinamente brasileira”.

A formação afetiva e as qualidades morais do Major Quaresma e de outros personagens também se devem à literatura e à poesia. Os leitores entusiastas são menos ridicularizados pelo narrador do que os inimigos dos livros, com todo o seu realismo e pragmatismo. O partidário do governo, Dr. Borges, por exemplo, que costuma pegar no sono enquanto lê livros de qualidade, procura zombar da coragem civil de sua mulher, que tenta salvar a vida do padrinho, qualificando sua atitude de teatral e alienada: “Estás no teatro?” A essa pergunta retórica e irônica, que pressupõe uma divisão nítida entre vida e arte, a romântica mas sensata Olga, aliada do excêntrico e íntegro Policarpo, responde com seriedade: “Se é só no teatro que há grandes coisas, estou”. Ela defende as artes como esfera da humanidade e integridade, rejeitando a pequenez e a pusilanimidade, o oportunismo e a traição. Apesar da necessária crítica, não daria para imaginar mais bela reabilitação do bovarismo do que esta - a esperança de que algo dos sonhos generosos de uma vida melhor de que falam as artes possa virar realidade. Quando a fantasia de inspiração estética se choca com a realidade, Lima Barreto parece nos dizer, alterando um ditado de Hegel: “O azar é da realidade”. Pois a ridicularização das quimeras literárias não implica em absoluto a contestação da literatura de um modo geral. Por mais que a literatice patriótica seja satirizada, Policarpo e Olga não chegam a presenciar nenhuma queima de livros, ao contrário do excêntrico cavaleiro espanhol.

Oscilando entre seriedade e humor, sátira e nostalgia, este romance é uma declaração de amor às pessoas simples da cidade e do campo, ao Rio de Janeiro, ao Brasil, à humanidade. O desenlace é triste, quase trágico, mas não de todo pessimista. No fim do romance, dois amigos do herói tão cômico quanto nobre – uma mulher burguesa e um artista popular, dois seres, portanto, até certo ponto marginalizados, ao mesmo tempo íntegros, benevolentes, descritos pelo narrador apenas com uma ponta de ironia – encontram-se num parque, no Campo de Sant’Ana, perto do Quartel General, onde a humanidade, a natureza, a arquitetura e o céu parecem harmonizar: Olga, a moça de origem italiana, e Ricardo Coração dos Outros, plebeu, poeta e cantor sertanejo. Embora não formem um casal, ambos representam a esperança, dentro de um contexto de transformação histórica e de uma possível humanização da natureza e da sociedade:

Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, as casas, as igrejas; viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do campo... Tinha havido grandes e inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.

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Berthold Zilly é professor da Universidade Livre de Berlim. Este artigo, originalmente intitulado “Uma crítica a visões puristas e essencialistas da cultura nacional: Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto”, baseia-se no posfácio da tradução alemã: Das traurige Ende des Policarpo Quaresma. Tradução, cronologia, glossário e posfácio de Berthold Zilly. Zürich: Ammann, 2001. Em 2002 saiu uma nova edição no círculo de livros Büchergilde e, em 2003, uma edição em livro de bolso na Berliner Taschenbuch Verlag

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Bibliografia

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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