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Gramsci e os modelos intelectuais no século XX

Giulio Ferroni - Março 2007
Tradução: Letizia Zini Antunes & Adriana Iozzi
 

Este ensaio faz parte de Gramsci e il Novecento, obra publicada em 1999 na Itália e não traduzida entre nós. Trata-se da compilação dos anais do seminário de mesmo nome realizado em Cagliari em 1997, por ocasião do sexagésimo aniversário da morte do pensador italiano. Para uma visão global dos ensaios apresentados naquele seminário, recolhidos no livro mencionado e aqui traduzidos, o leitor deve partir da introdução escrita por Renato Zangheri.

1. A reflexão de Gramsci sobre os intelectuais, sua história e sua função, constituiu por muito tempo um dos pontos de referência centrais do debate cultural italiano, sustentado por toda uma série de variantes e de ramificações, com nuanças que vão desde as diretrizes de política cultural mais determinadas e “oficiais” até as elucubrações acadêmicas mais debilitadas e auto-referenciais sobre o papel do intelectual nesse ou naquele contexto histórico, nesse ou naquele centro geográfico, etc. Entre os anos 60 e 70, mas com recaídas e retomadas que ainda estão em curso, muitas energias intelectuais jovens foram gastas para discutir sobre os intelectuais, para reconstruir comportamentos e funções de diversos grupos intelectuais, para resgatar a experiência da cultura do passado sob o signo das iniciativas, das elaborações, da consciência e da falsa consciência dos intelectuais, de sua organização em grupos, de suas relações com o poder, de sua ação nas instituições, etc. Inúmeras teses, inúmeros estudos, inúmeras pesquisas tiveram como alvo os intelectuais! Chegou-se até a acreditar que o conceito de intelectual fosse a chave para reescrever toda a história da cultura, para reexaminá-la à luz de uma verdade representada pelas suas relações e funções, pelo sistema de relacionamentos em que seus sujeitos/protagonistas estavam inseridos; e todos nós nos acostumamos a prestar atenção e a privilegiar essas funções, chegando, em muitos casos, a considerar o termo intelectual mais autêntico e abrangente do que os termos tradicionais de escritor, poeta, filósofo, cientista, etc.

É óbvio que dessa discussão derivaram também contribuições críticas e historiográficas relevantes: a pesquisa sobre os intelectuais permitiu esclarecer as situações concretas da história da cultura, reconstruir de maneira nova o sentido de muitas escolhas e de muitos conflitos, relacionando toda forma textual a projetos de consciência de si, a instâncias contraditórias de classes e grupos sociais, numa representação variada de relacionamentos com o mundo. No conjunto, porém, muitos discursos sobre o intelectual permaneceram abstratos, veleidosos, auto-referenciais: o resultado disso foi uma divulgação inerte, de má qualidade, entre instâncias mais ou menos revolucionárias (apelos aos intelectuais para que negassem seu papel e seu afastamento da sociedade, com enfrentamentos acirrados e até mesmo violentos sobre como pôr em prática essa negação) e uma atuação acadêmica medíocre (análises pedantes das diferentes maneiras de sentir o “papel” dos intelectuais, revelação de contradições e de consciências infelizes, discussões e contestações dos debates das revistas, de algumas querelles que, hoje, não nos parecem mais tão importantes).

Um olhar sumário revela, em todo caso, que essa divulgação de debates e pesquisas sobre o intelectual esgotou sua vitalidade e está se afastando de nós como um momento cultural superado. Entretanto, sobrevive ainda, especialmente nos debates jornalísticos, na repetição maçante de reportagens sobre as ambições dos intelectuais, sobre intelectuais de direita e de esquerda, sobre traições e hegemonias, vícios e virtudes, sobre assinar ou não assinar manifestos, sobre calar-se ou falar por ocasião de acontecimentos traumáticos, etc. Atualmente, falar de intelectuais significa, na maioria das vezes, reportar-se a fórmulas vazias, girar em torno de esquemas preconcebidos. No melhor dos casos, chega-se a reflexões sobre o “fim dos intelectuais” ou a apelos para o resgate de uma função crítica da cultura, cada dia mais ameaçada pelos impérios da mídia ou pela globalização da economia. E, apesar dos muitos livros com defesas e propostas que não carecem de interesse (como os de Said e Maldonado, publicados recentemente) [1] e da constante repetição de debates jornalísticos, devemos reconhecer que o tema do intelectual não está na ordem do dia e que, de fato, perdeu o lugar central que teve em um período relevante do século XX.

Na realidade, pode ficar a impressão de que grande parte dos usos feitos, nos anos 60 e 70, da noção de intelectual a partir do modelo gramsciano tenha sido limitada por uma dose relevante de abstração, por uma série de a prioris indefinidos. Essa noção foi identificada em termos estáticos e envolvida em discussões sobre papéis, funções, contradições, justamente no momento em que as figuras e as funções dos intelectuais transformavam-se radicalmente (essa transformação, aliás, agia retrospectivamente sobre a própria maneira de definir o trabalho dos intelectuais do passado, sobre as pesquisas que estavam sendo realizadas em torno do tema dos intelectuais). Hoje todos nós podemos perceber, de maneira mais ou menos confusa, que o intelectual (se ainda podemos chamá-lo assim) é algo totalmente diferente dos intelectuais tradicionais ou orgânicos de que fala Gramsci. E é urgente voltar a Gramsci e debruçar-se sobre o modelo de análise gramsciana a fim de extrair dele instrumentos de análise para uma pesquisa e uma reflexão radicais sobre a transformação do intelectual, sobre as várias mudanças pelas quais passaram os intelectuais ao longo do século XX.

Tratar-se-ia, em suma, de rediscutir as páginas de Gramsci sobre os intelectuais (tendo ao centro o Caderno de 1932, Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a história dos intelectuais [*]), de acompanhar sua atenção tão rigorosa voltada para o “conjunto do sistema de relações” em que as atividades dos intelectuais “encontram-se no quadro geral das relações sociais”, não tanto e não somente para revelar contradições e falsas consciências, nem para defender escolhas políticas ou novas formas de “organicidade”, mas para detectar as mudanças ocorridas na própria natureza das atividades intelectuais, as novas relações que elas instituíram com o conjunto social, com a totalidade do mercado e da comunicação. Gramsci pode ser um grande modelo não para a aplicação literal de suas análises (que, aliás, dizem respeito a sociedades, relações, horizontes culturais e históricos dos quais estamos radicalmente distantes), mas para a definição cada vez mais necessária daquilo que os intelectuais são hoje, daquilo que eles se tornaram, daquilo que eles ainda podem fazer.

É necessário, porém, evidenciar que não se deve prescindir do caráter “aberto” da escrita ensaística de Gramsci, do movimento dramático da escrita e do pensamento dos Cadernos, os quais, na própria maneira de proceder, desmentem qualquer sistematicidade preconcebida. De resto, aponta-se como uma das razões da grandeza do pensamento de Gramsci essa sua abertura, essa inquietação que o sustenta e que o impede de estabelecer posições absolutas e definitivas. À semelhança de muitas experiências essenciais da modernidade, a de Gramsci desenvolve-se no âmbito de um desafio contínuo contra a insuficiência e os limites da argumentação, contra o caráter incontrolável e indeterminado da realidade. Esse desafio adquire, em sua obra, um caráter muito particular devido à limitação exterior que pesa sobre sua escrita e sobre seu pensamento, devido à condição de reclusão, à impossibilidade de atuar no mundo e à insuficiência de material bibliográfico que o preso tinha à sua disposição. Os Cadernos são percorridos, em toda a sua extensão, por uma luta contra o limite: apresentam a atuação de um pensamento que aspira à totalidade, uma visão política e histórica que busca o controle total sobre os múltiplos aspectos da realidade e do pensamento e visa reconduzir o inteiro horizonte da experiência, estrutura e superestrutura, à unidade coerente que, por si só, parece garantir a possibilidade de uma intervenção no mundo capaz de transformá-lo, acompanhando positivamente as tendências históricas. Entretanto, além de a ação ser impossível e o pensamento estar aprisionado, essa busca da totalidade, em seu próprio desenvolvimento, depara-se com a resistência do particular, com a articulação complexa e estratificada das formas da realidade social e cultural, com os nexos e as múltiplas contradições que a constituem e a marcam. Pensamento e escrita movem-se na conquista e verificação constantes de certezas, de pontos alcançados, que, porém, devem ser sempre redefinidos, enriquecidos, combinados de maneira diferente e, às vezes, até mesmo deslocados para novas direções: a forma textual dos Cadernos, seu próprio corpo físico, seu estatuto filológico revelam o percurso dramático e, ao mesmo tempo, a conquista que Gramsci faz da fragmentação, do não-acabamento, de um projeto que não pode, em momento algum, alcançar uma realização definitiva. Nesse sentido, mereceriam especial atenção todas as passagens em que ele esboça seus diferentes projetos de pesquisa, indicando as perspectivas metodológicas e a maneira com que pretende construir seus trabalhos.

Sobre os diversos temas que estão no centro de suas reflexões, Gramsci tem em mente livros bem definidos, construídos organicamente, com uma estrutura acabada e articulada que responde a exigências de coerência e rigor científico: os Cadernos acumulam possíveis fragmentos desses livros, referências bibliográficas, núcleos geradores e anotações marginais, mostram seu crescimento constante, seu ajustar-se, modificar-se. Nas condições em que Gramsci se encontra, esses livros não podem realizar-se, mas, paradoxalmente, é dessa impossibilidade de realização que seu pensamento adquire força e originalidade, sua abertura peculiar, e se coloca como o sentido de um mundo em pleno movimento. Uma filosofia da práxis afirma-se e desenvolve-se em um contexto que nega qualquer intervenção na realidade: a unidade e a totalidade da experiência não podem ser alcançadas, tampouco transcritas.

Mas no interior dessa condição contraditória, na qual o sujeito, com coragem surpreendente, obstina-se a procurar o modelo da práxis, a compreender, num nexo unitário, o mundo social e cultural, vai se delineando uma forma de pensamento político e de análise da realidade que se subtrai ao dogmatismo monolítico do marxismo oficial, desvincula-se dos modelos de que parte, formulando temas e problemas que impõem confrontos novos com o caráter particular, irredutível e incontrolável da realidade. Por isso, pode parecer realmente incongruente a operação, realizada desde a primeira publicação dos Cadernos, de extrair do pensamento de Gramsci diretrizes imediatas de ação política ou visões globais explicativas da sociedade, da história, da vida moral e cultural. A atenção dada a esse pensamento, o reconhecimento de sua grandeza não deveriam colocar-se em um horizonte ideológico predeterminado, em um esquema histórico-político absolutizante, mas sob o signo da abertura, da riqueza de seu próprio caráter fragmentário e inacabado. Por isso, no tocante à temática dos intelectuais, não se pode identificar um esquema absoluto, generalizante, uma forma politically correct de reconstrução das funções do trabalho intelectual, uma instância para a construção do mal-afamado “intelectual orgânico”, mas pode-se encontrar um horizonte problemático, uma interrogação inquieta e rigorosa, uma atenção voltada para a particularidade das situações e relações concretas. Daqui deveria partir, daqui deveria iniciar o novo empenho teórico para o qual, atualmente, parece faltar a necessária tensão dramática, mas do qual não se pode abrir mão quando se quer compreender o sentido das transformações radicais que afetaram a condição intelectual neste século.

2. Quando se olha, retrospectivamente, para o debate sobre os intelectuais e os comportamentos daqueles que chamamos intelectuais no pós-guerra e, em particular, nos anos sessenta e setenta, é fácil verificar que na esquerda, para além das posições oficiais, houve um entrelaçamento vário e contraditório entre uma instância subjetiva, representada, em primeiro lugar, pelo modelo de Sartre, e uma instância objetiva, que, justamente, foi relacionada com a noção gramsciana de “intelectual orgânico”. Essas instâncias, de maneiras diversas e convergentes, originavam-se de uma certa indefinição da própria noção de intelectual, de uma verificação insuficiente do sistema de relações ao qual o próprio Gramsci se referia: o intelectual de esquerda era uma espécie de a priori (numa perspectiva que, em primeiro lugar, mesmo quando proclamava a morte da literatura, era de tipo puramente literário), caracterizava-se fora de sua condição no universo do trabalho, da comunicação e da cultura; atribuía-se uma função e objetivos, submetia-se até mesmo à crítica e à autocrítica, identificando a si mesmo e a sua presença cultural ao curso da história, assumindo a tarefa de acelerar e antecipar um futuro predeterminado que não podia deixar de ter como ponto de chegada a revolução ou o advento de uma humanidade nova.

No caso do modelo sartriano (que agiu, muitas vezes, sem que houvesse uma influência direta dos textos de Sartre), o predomínio da literatura foi totalmente explícito: esse modelo apoiava-se em toda uma série de relações e atitudes propostas pela literatura, numa identificação imediata entre intelectual e escritor; fazia referência a responsabilidades e urgências vindas da literatura, de uma noção de literatura muito bem definida e difundida. Seu ponto de partida era a aspiração, típica do século XX, à afirmação da vida como “ato”: a palavra literária era considerada uma busca perpétua de ação, como um movimento incessante para fora de si, expansão da personalidade do escritor além dos limites do horizonte ideológico dado. Sartre via o autor como um ser em situação e uma superação contínua dessa mesma situação:

[...] l’auteur est en situation, comme tous les autres hommes. Mais ses écrits, comme tout projet humain, enferment à la fois, précisent et dépassent cette situation [2].

[...] Le spirituel [...] repose toujours sur une idéologie et les idéologies sont liberté quand elles se font, oppression quand elles sont faites: l’écrivain parvenu à la pleine conscience de lui-même ne se fera donc le conservateur d’aucun héros spirituel, il ne connaîtra plus le mouvement centrifuge par quoi certains de ses prédécesseurs détournaient leurs yeux du monde pour contempler au ciel des valeurs établies; il saura que son affaire n’est pas l’adoration du spirituel, mais la spiritualisation [3]. 

Nesse movimento incessante de conquista de um espaço vital que ultrapassa o espaço presente, nessa saída do “espírito” dado para afirmar um espírito sempre ulterior (a spiritualisation é isso), cada literatura parece ter de projetar-se em direção a uma outra literatura, mais concreta e vital, que se realizará em uma sociedade sem classes. De acordo com a ótica sartriana, a literatura coincide, na realidade, com uma subjetividade autêntica que, enquanto tal, deve estar num estado de revolução permanente. Por seu próprio modo de estar em situação, por seu próprio modo de viver o presente, ela designa seu futuro e o futuro do mundo, sempre novo e sempre aberto: la littérature est, par essence, la subjectivité d’une société en révolution permanent [4]. Na tensão voluntariosa do engagement sartriano percebe-se, então, como observou Julien Benda, a marca bem definida do vitalismo bergsoniano: e muitas encarnações de tipo “literário” do intelectual progressista e engajado, preocupado em mergulhar na onda vital da história, em estar dentro de seu caminho presumido, relacionam-se, em conclusão, com o subjetivismo exasperado e com o vitalismo das ideologias irracionais do começo do século XX (que na Itália, aliás, tiveram uma grande difusão e muitas manifestações relevantes). Mereceriam ser analisadas as diversas formas, nem sempre explícitas, que essa instância subjetiva, prevalentemente literária, assumiu, seja em relação direta à versão sartriana, seja em continuidade com várias outras tendências da literatura do começo do século XX.

De maneira diferente e convergente, o modelo gramsciano foi utilizado não tanto para o aprofundamento da natureza e das condições do trabalho intelectual no contexto das turbulentas modificações iniciadas nos anos cinqüenta, quanto para uma instância abstrata de identificação com as tendências da história (ou com aquelas que se consideravam como tais) e com o ponto de vista das classes populares e de seus organismos políticos. Aliás, aqui também agia subterraneamente (apesar dos apelos freqüentes à cientificidade do marxismo) o horizonte vitalista apontado por Benda. Um texto poético célebre como As cinzas de Gramsci, de Pier Paolo Pasolini, é dedicado precisamente à contradição entre essa instância de identificação (que pretende ser “objetiva” e histórica) e a resistência das “vísceras” burguesas e decadentes: o poeta parece refletir sobre sua própria impossibilidade de ser “intelectual orgânico”, sobre a continuidade insuperável que, apesar de tudo, continua a ligá-lo aos intelectuais “tradicionais”. Naqueles anos e nos sucessivos, por outro lado, entrelaçavam-se com as referências à noção de intelectual orgânico outras temáticas extraídas sempre de Gramsci, em decorrência da extensão da noção de intelectual a qualquer forma de trabalho nas instituições e de trabalho de mediação social (chegando-se à conhecida constatação de que, em definitivo, “todos os homens são intelectuais”), da nova abertura para as culturas populares e subalternas e às várias e contraditórias interpretações da categoria de “nacional-popular”, da atenção dedicada ao problema lingüístico na história dos intelectuais italianos e de seu relacionamento com o povo, etc.

No conjunto das posições abertas sobre essas problemáticas faltava, provavelmente, uma verdadeira correspondência com as condições e as perspectivas históricas com as quais Gramsci relacionava a figura do “intelectual orgânico”. Em primeiro lugar, permanecia totalmente indefinida a noção de “homem novo”, cujo advento os intelectuais orgânicos deveriam contribuir para realizar; e igualmente indefinido permanecia o papel pedagógico que lhes deveria ser atribuído. Mas o que se revelava realmente difícil de ser definido era, na verdade, a própria “organicidade”. Pode-se, inclusive, ter a impressão de que, apesar das inúmeras assertivas em contrário, o intelectual orgânico não pudesse alcançar nenhum status verificável, que sua figura e sua presença não tivessem nada a ver com uma elaboração direta por parte de seu grupo social, que não pudessem ser expressão da consciência desse grupo, mas se apoiassem justamente sobre o “autoposicionamento” que Gramsci indicara como caráter determinante dos intelectuais tradicionais.

Na realidade, na noção de intelectual orgânico e na noção de hegemonia, para além do uso político variado de que foram objeto e de que ainda são com intuito polêmico, devem ser reconhecidos alguns pontos da reflexão de Gramsci que conservam um interesse essencial exatamente porque somos, em parte, obrigados a afastar-nos deles: trata-se de noções decorrentes da visão totalizadora e organicista da sociedade e da cultura, dos horizontes ideológicos que o final do século XX parece ter posto em dúvida e radicalmente desmentido. Intelectual orgânico e hegemonia apóiam-se no pressuposto de uma organicidade do conjunto social e cultural, numa dialética que atribui à atividade cultural a tarefa de controle global desse conjunto (controle que permanece determinante, mesmo que não seja de tipo diretamente coercitivo e deva ser alcançado por meio do consenso).

A conquista da hegemonia é relacionada por Gramsci com a realidade efetiva dos intelectuais orgânicos e com a capacidade do grupo que aspira ao domínio de assimilar e conquistar os intelectuais tradicionais (“Uma das características mais marcantes de todo grupo que se desenvolve no sentido do domínio é sua luta pela assimilação e pela conquista ‘ideológica’ dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão for capaz de elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos”) [5]. Todos os processos desse tipo parecem ocorrer como realização e aceleração de um movimento histórico objetivo, de uma lógica implacável da história, dirigida para o “novo”, para um nível de produção mais adiantado, que comporta a definição de um novo tipo humano. A nova ordem e a nova cultura, por outro lado, são vistas como conseqüências do processo geral de modernização: o advento da classe operária verifica-se sob o signo da modernidade; sua hegemonia é concebida como atuação plena e confirmação do impulso de modernização e de racionalização que rege o capitalismo industrial, inserindo-se plenamente no desenvolvimento das forças produtivas e do fluxo da história em direção ao futuro. Toda a realidade é como um corpo destinado a mover-se em direção desse evento “novo”: e precisamente por ser concebida assim, como um corpo orgânico, requer, em cada setor, um processo de unificação, de “união” não apenas política, mas também moral e cultural.

Esta instância organicista unificadora não é obviamente algo abstrato e predeterminado, mas responde rigorosamente às necessidades projetivas e às urgências da política: apresenta-se como uma função essencial da política da “modernidade” (aliás, toda a reflexão gramsciana sobre Maquiavel pode ser lida nesta perspectiva) [6]. Impõe-se aqui uma tensão sistemática e totalizadora que pode atuar no sentido de que as atividades culturais específicas, com seus referenciais cognitivos que chamamos vulgarmente “conteúdos”, passem para o segundo plano, sejam subordinadas ao horizonte funcionalista, reduzidas a instrumentos do processo histórico-político mais geral e essencial (e não haverá motivo para escândalo caso se perceba que em muitas passagens do pensamento de Gramsci despontam laivos de certo vitalismo do início do século, e que nessa instância organicista e unificadora atuam também elementos consistentes do pensamento de Gentile).

Exatamente essas perspectivas da reflexão de Gramsci, das quais hoje sentimo-nos, possivelmente, mais distantes, foram retomadas, de maneira deformada, em visões funcionalistas e pragmáticas ou integralmente “políticas” do trabalho intelectual, em atitudes niilistas que tiveram boa aceitação nas décadas de sessenta e setenta, no hábito muito difundido de pôr entre parênteses os aspectos cognitivos da cultura e de centralizar a atenção sobre sua função de controle da consciência, de gestão dos instrumentos institucionais, de articulação dos poderes acadêmico-corporativos (e poderíamos dar vários exemplos no âmbito mais específico da literatura).

3. É também verdade, como já dissemos, que o pensamento autêntico de Gramsci não se fixa e não se fecha nessa dimensão funcional e gerencial: nele, verifica-se uma oscilação essencial entre a exigência organicista e a atenção apaixonada pela particularidade mais circunstanciada, pelos conteúdos culturais mais concretos e definidos. Dir-se-ia que, no interior da exigência de reconduzir toda a cultura ao domínio da nova classe, resiste e impõe-se a paixão mais disponível pelos objetos específicos, pelas situações, pelos dados, pelas experiências, pelas matérias, pelos próprios livros em seu caráter físico. A essa paixão liga-se a exigência de rigor, a seriedade da pesquisa, a reconstrução mais articulada das realidades históricas: a escrita fragmentária dos Cadernos é, de certa forma, a de um historiógrafo e pesquisador “impossível”; os Cadernos são também indicações para pesquisas futuras que não poderão ser realizadas, projeto de livros que não é possível escrever, plano para trabalhos pessoais que a prisão não permite levar até o fim, mas que Gramsci, mesmo se estivesse fora da prisão e mergulhado na atividade política, nunca teria tido nem o tempo nem a possibilidade de realizar.

O rigor e o cuidado pelo detalhe unem-se, em Gramsci, à denúncia da superficialidade, da empulhação, dos mal-entendidos e das aproximações culturais; e essa denúncia tem momentos de agressividade desenfreada, sustentada por uma ironia contundente, que chega a ser um verdadeiro exercício crítico-erudito. O crítico da cultura, quanto mais severa e rigorosa for sua reflexão, tanto mais sabe rir, com sarcasmo e deboche, das bobagens da direita e da esquerda. Sob esse ponto de vista seria necessário prestar mais atenção às páginas sobre o “lorianismo”, verdadeira doença infantil do modernismo, projeção adocicada e ingênua das perspectivas da modernidade [**]. Gramsci atribui-se a tarefa pedagógica de “criar aversão ‘instintiva’ pela desordem intelectual, associando-a ao ridículo”; está convencido de que “o bom senso, despertado por um oportuno peteleco, aniquila quase fulminantemente os efeitos do ópio intelectual”, devido à instauração de “uma indispensável ordem intelectual” [7]. A batalha contra o “ópio intelectual”, o empenho total em favor do bom senso e da “ordem” intelectual e moral e a tensão crítico-irônica constituem pontos de sustentação essenciais do método gramsciano; e acredito que, nas última décadas, a esquerda deveria ter realizado, e ainda hoje deveria realizar, com firme vigilância, a denúncia do “lorianismo” em todas as suas formas, das infinitas mistificações e da superficialidade de que se alimentou grande parte da cultura de nosso país, especialmente aquela que mais dominou e ocupou um lugar de destaque. Quantas palavras de ordem alternativas, quanto besteirol politiquês, quanta pretensão de maîtres à penser, quantas empulhações ardorosas, revolucionárias, impostas pela mídia, quantos postulados politically correct, quanta falta de bom senso e de rigor atrás de tantas ambiciosas elucubrações intelectuais!

Todavia, ao destacar a atualidade e a urgência do modelo “crítico” gramsciano, não se pode deixar de constatar que, na análise da condição intelectual presente, na tentativa extremamente arriscada de compreender o que são hoje os intelectuais, qual o espaço que há para eles, quais os lugares remanescentes de sua atuação, noções como as de organicidade e hegemonia perderam toda a relevância. Não apenas deixou de existir a instância organicista unificadora para a qual chamamos a atenção, como parece mesmo que desmoronou toda função mediadora de consciência e consenso e, portanto, toda possibilidade de relacionar o equilíbrio social à elaboração cultural. Parece até mesmo que tenha sido dado um passo além do percurso traçado por Zigmunt Bauman em seu livro sobre La decadenza degli intellettuali: da legislatori a interpreti (A decadência dos intelectuais: de legisladores a intérpretes) [8]; agora que estamos indo além do pós-moderno, o intelectual deixa-se exautorar inclusive da função residual de “intérprete”. Sua presença tende cada vez mais a justificar-se e a reconhecer-se em uma perspectiva de operacionalidade, eficiência, performance, funcionalidade, em relação às articulações do poder (que é algo bem diferente da gestão e da administração). O universo da mídia, os espaços do mercado e das instituições criam um jogo de aparências e de posições evanescentes, de perspectivas intelectuais dotadas de uma funcionalidade econômica direta. E tudo o que é cultura tende a ser reabsorvido naquilo que se costuma chamar “capital humano”. Sob a ideologia dos “recursos humanos” (apresentada sob um aspecto positivo com excessiva facilidade, na perspectiva da libertação ilusória do potencial humano), a inteligência é reduzida a pura função do mercado, realizando, assim, mas de maneira completamente inadequada, a afirmação de Gramsci segundo a qual todos os homens são intelectuais.

Nesse contexto cria-se toda uma série de interferências, de fusões, de sobreposições entre intelectuais que se podem considerar “tradicionais” e os que se apresentam como “novos”; o domínio da mídia ocasiona novas e múltiplas formas de “autoposicionamento”, com a ruptura persistente de toda continuidade e de qualquer possibilidade de reconhecimento. Desfazem-se hierarquias e modelos, anula-se qualquer confronto e choque com a realidade; o “autoposicionamento” acontece mediante o impacto, pela capacidade de ocupar espaço e destacar-se, de delinear-se como “imagem” que sabe fazer-se identificar e propor-se convenientemente no mercado (mesmo que se trate, geralmente, de um mercado da mera aparência). Deste modo, afirma-se, assenta-se, redefine-se em continuação uma variada elite intelectual, ligada à mídia ou à universidade, que adquire, às vezes, um aspecto dúplice, com uma bela sinergia entre o universo da mídia e o da academia. Ao lado dessa elite situa-se toda uma série de camadas intelectuais divididas, que estão ligadas a modelos particulares, entre as quais não há, geralmente, nenhuma comunicação, e que costumam permanecer fechadas no âmbito de perspectivas locais ou marginais. O conjunto articula-se em vários níveis, que incluem até um subproletariado cultural (o qual exerce muita influência entre jovens e adolescentes), e reage de várias maneiras, às vezes indicadas mas ainda não adequadamente definidas, à ação das novas tecnologias.

Esse olhar rápido e confuso sobre a situação atual pretende chamar a atenção para a urgência de uma reflexão nova e rigorosa sobre o que os intelectuais se tornaram (e até mesmo sobre a possibilidade de chamá-los ainda com esse nome), reflexão que deveria encontrar no pensamento de Gramsci o modelo metodológico, o impulso para a análise e a tensão para a síntese. Devido à natureza radicalmente mudada do nosso universo, já tão distante daquele em que Gramsci atuou e pensou, precisamos entender quais podem ser ainda as formas de resistência de uma razão “crítica”, quais os caminhos para escaparmos de uma mera submissão ao mercado, do jogo da imagem e do choque. É mais do que provável que os lugares nevrálgicos dessa situação venham a ser a escola e a mídia. De fato, uma vez que a mídia parece atribuir ao intelectual um prestígio efêmero e ilusório e a escola parece ter perdido todo prestígio, talvez seja possível perceber, justamente no interior desses dois universos, novas formas de intervenção intelectual que façam convergir a atenção para a especificidade mais determinada, a operacionalidade direta, com a preocupação pelo conjunto, pelas conexões problemáticas, pela perspectiva “crítica”. Quem sabe seja possível assistir, na mídia e na escola, ao surgimento de uma nova figura difundida de “intelectual ecológico e civil”, capaz de conjugar sua situação particular com a universalidade, de conduzir ações responsáveis pelo equilíbrio da natureza e da sociedade, pela salvação do mundo e pela troca justa entre sujeitos da aldeia global?

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Giulio Ferroni é professor de literatura italiana da Universidade La Sapienza, de Roma.

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Notas

[1] SAID, E. W. Dire la verità: gli intellettuali e il potere. Milano: Feltrinelli, 1995 (1994); MALDONADO, T. Che cos’è un intellettuale?: avventure e disavventure di un ruolo. Milano: Feltrinelli, 1995.

[*] Este caderno está reproduzido integralmente em A. Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999-2002, v. 2, p. 15-53.

[2] SARTRE, J.-P. Qu’est-ce que la littérature? Paris: Gallimard, 1965 (1948), p. 184.

[3] SARTRE, J.-P., op. cit., p. 193-4.

[4] Op. cit., p. 195.

[5] A. GRAMSCI. Quaderni del carcere. A cura di V. Gerratana. Torino: Einaudi, 1975 (daqui em diante Q), p. 1.517.

[6] É preciso observar, por outro lado, que na reflexão sobre Maquiavel o horizonte da política da “modernidade” dirige-se para uma assunção do “mito” e de sua realidade: precisamente nas notas sobre Maquiavel pode-se acompanhar a elaboração, em forma mítica, da célebre noção de partido como “príncipe moderno”; o primeiro grande teórico da política moderna e o grande modelo da organização política revolucionária apresentam-se para Gramsci sob a forma do mito. Na estratégia textual, na própria seqüência atormentada dessa reflexão, pode, aliás, ficar evidente que esse mito político age para Gramsci também como mito pessoal: e aqui está a grandeza e o sentido das notas sobre Maquiavel e do uso de Maquiavel nos Cadernos, sem querer ofender os já desgastados teóricos da “autonomia do político”, que nada entenderam nem de Maquiavel nem de Gramsci.

[**] O Caderno 28, sobre o conceito de lorianismo, está reproduzido integralmente em A. Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999-2002, v. 2, p. 257-71.

[7] Q, p. 2.331.

[8] É esse o título da tradução italiana (Torino: Bollati Boringhieri, 1992); mas o título original do libro (publicado em 1987) era: Legislators and Interpreters. On Modernity, Post-Modernity and Intellectuals.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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