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Che, o imaginário do sacrifício

José de Souza Martins - Outubro 2007
 

Os meses e anos seguintes àquele meio de tarde de 9 de outubro de 1967, quando Ernesto “Che” Guevara foi executado sumariamente por um tenente do exército boliviano, revelariam alguns dos vários mistérios que estavam contidos muito mais naquela morte do que naquela vida.

Naquele momento, ali na mata, na encosta dos Andes, no emblemático limite que separa a planície da montanha, a América branca da América indígena, e que separa também a América guarani da América quéchua, começaram várias agonias. A começar de seus algozes diretos, a maioria dos quais morreria de forma estranha e inesperada nos anos seguintes, como que executados pela espada de fogo de um vingador invisível.

A rajada de fuzil no corpo do Che rasgou o véu do templo de nossas certezas, do alto até embaixo, libertando os medos e as contradições do nosso imaginário político místico. Um novo testamento se abriu na memória e na história dos povos latino-americanos, no marco de um realismo mágico difuso e persistente. Era o incompreendido novíssimo testamento de uma nova práxis política, de uma comunhão de sangue entre a fé e a política, o misticismo de uma reprimida esperança, messiânica e milenarista.

A morte de Che desdisse muita coisa que ele não queria pessoal e conscientemente desdizer e disse muita coisa que ele não sabia estar dizendo. Che disse aos seus captores que valia mais vivo do que morto. Para o misticismo político latino-americano ele valia mais morto do que vivo. Porque só os mortos do sacrifício humano podem ressuscitar e entrar na eternidade das esperanças milenaristas tão próprias desta América sem rumo. “Saio da vida para entrar na história”, escreveu Getúlio Vargas, quando se encontrava no pórtico da morte.

São poucos os que têm a coragem moral e cívica de abandonar as conveniências mesquinhas do agora e enfrentar essa passagem tenebrosa, quando ela se impõe, para servir ao povo na imortalidade generosa do sempre: Getúlio, Che, Allende. Eles sabiam que iam morrer porque o que personificavam neste mundo estava morrendo. Pouco importa se deles discordamos ou com eles concordamos. No reino do sempre e da esperança não há fraturas, não é ele um mundo racional e lógico.

O milenarismo latino-americano se expressa no rústico de libertações assim, que abrem a partir do mundo dos mortos a porta imaginária das inversões e das conversões, da busca da esperança nos contrários do que a morte rompeu.

Quando o cadáver de Che Guevara chegou a La Higuera, para a autópsia e a injeção de formol que o preservaria, da pequena multidão fazia parte uma freira, de hábito branco, que aparece nas fotos, que ria o tempo todo, misturada com militares, jornalistas e agentes da CIA, testemunhou o jornalista inglês Richard Gott, enviado pelo Guardian. O riso da freira expressava a satisfação anticomunista de quem fora educada na religiosidade anacrônica de um mundo dividido entre o bem do capitalismo e o mal do comunismo. Mas aproximou-se do grupo, também, uma camponesa que gritava “Assassino!”, eco da propaganda militar na área. Ao ver o rosto do Che, silenciou e disse: “Meu Deus! Como ele era bonito!” Uma das fotos do corpo de Che, feitas na ocasião, foi difundida e interpretada como o retrato de um Jesus Cristo latino-americano. Os católicos progressistas se tornariam os principais apóstolos dessa ressurreição simbólica.

A morte de Che também consumou a ruptura interior da esquerda, isolou simbolicamente os partidos comunistas, esvaziou o seu apelo proletário para dotar o inconformismo social dos pobres de uma mística sacrificial que tem em Che o cordeiro da história. Inverteu o nosso imaginário de esquerda, fazendo da tradição popular e conservadora, comunitária, religiosa e anticapitalista, o cerne de um novo socialismo, crioulo e popular, tendente ao étnico invertido. Nele, mestiços, índios e negros invertem imaginariamente a pirâmide social iníqua e branca, num projeto social e político de meios tons políticos, meios tons sociais, meios tons religiosos, meios tons econômicos, meios tons raciais.

Na captura e morte de Che começou a sucumbir o marxismo mecanicista de Louis Althusser, viabilizado pela aventura intelectual de classe média de Régis Debray, um dos primeiros prisioneiros dos militares bolivianos. Místicos ambos, criaram e viabilizaram um marxismo tomista e departamentalizado, antimarxiano, ideologicamente útil às aventuras de classe média que se quer libertadora. A teoria do foco, de Debray, da guerrilha dos desgarrados da elite, que desencadeia a revolução dos pobres, também morreu na quebrada do Yuro.

A guerrilha de Che Guevara não se propunha a realização de uma revolução camponesa, a revolução dos pobres na Bolívia, como se supõe ainda hoje. Era apenas uma extensão geopolítica da Revolução Cubana, na perspectiva por ele proclamada de criar vários vietnãs e pôr em xeque o poderio americano. No fim, Che lamentava não ter se aproximado dos camponeses da área da luta. Era tarde. Eles temiam os guerrilheiros. Por medo ou prudência, os delatavam ao exército. Ou fugiam, abandonando as plantações e as casas. Mas a guerrilha não tinha neles a menor confiança, não os via como sujeitos da suposta revolução latino-americana.

Na tarde da véspera de sua prisão e antevéspera de sua morte, uma das últimas linhas do diário de Che é relativa a uma velha camponesa, que tinha uma filha prostrada e outra meio anã, a quem os guerrilheiros deram 50 pesos para que não os denunciasse ao exército, que já os cercara. Escreveu o Che que eram “poucas as esperanças de que cumpra (a palavra) apesar de suas promessas.” Na edição eletrônica do diário, o Centro de Estudos Che Guevara, de Cuba, esclarece que “a velha das cabras nunca foi delatora, nunca falou com os militares, não denunciou o Che. Chamava-se Epifania Cabrera e já faleceu. Foi-se para a montanha com as filhas, com medo das represálias do exército.” A revolução sem povo sucumbiu ao silêncio da quebrada do Yuro. Epifania partira.

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José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.



Fonte: O Estado de S. Paulo, 7 out. 2007.

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