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2008 e a herança de 2007

Tania Bacelar de Araújo - Fevereiro 2008
 

O ano que findou deixa sinalizações importantes para seu sucessor. A primeira é a nítida sensação, detectada nas pesquisas de opinião, de que o pior passou. De fato, muitos sinais indicam que o Brasil emerge de uma fase de grandes dificuldades e busca consolidar um novo momento.

Nele, mais importante que a clara aceleração do ritmo de crescimento da economia nacional são os impulsionadores dessa trajetória. O crescimento da produção foi acelerado não pela dinâmica do mercado externo empurrando as exportações, como ocorre há anos com as principais economias do continente asiático, mas pela expansão do mercado interno e pela retomada do investimento. Que bom! Num ambiente mundial onde paira a nuvem carregada da crise americana, o Brasil passou a depender menos do mercado externo para retomar seu dinamismo econômico e a ancorá-lo internamente. Fica, assim, menos vulnerável.

Mais importante ainda é o sinal claro de que o consumo das famílias é que puxa a demanda interna, e, entre elas, é o consumo das famílias dos estratos de menor renda que se coloca na vanguarda.

Respondem por essa nova dinâmica o significativo volume de transferência de renda jogado para a camada mais pobre da população do país, associado à persistente recuperação real do salário mínimo, ao aumento significativo do emprego formal de menor exigência de qualificação e à importante expansão do volume de crédito direto às pessoas físicas (que cresceu 20% entre 2006 e 2007), em um ambiente de preços sob controle, taxas de juros declinantes e prazos de financiamento amplamente alongados. Resultado: o consumo das famílias que já dava sinais de vitalidade em 2006 acelerou seu crescimento. E, surpreendentemente para muitos, as taxas de inadimplência continuam bem comportadas.

Uma herança de 2007 é que o Brasil parece despertar para a consciência de um de seus grandes potenciais de crescimento: a enorme demanda insatisfeita da base de sua pirâmide social. O que o indiano Prahalad defendia no seu livro A riqueza está na base da pirâmide passa a ser levado a sério pelos empreendedores do país. Acostumado a apostar suas fichas prioritariamente no consumo das elites, o empresariado descobre uma nova mina e aprende a ganhar muito com ela. Até o enorme mercado potencial de financiamento da casa própria para os que ganham até 5 ou mesmo até 3 salários mínimos passa a interessar aos bancos privados.

Consumista por cultura copiada dos mais ricos, e estimulada pela mídia, a classe média — especialmente a dos estratos mais baixos da pirâmide de rendimentos — entrou com disposição no mercado. As vendas internas de automóveis, produtos da linha branca e outros bens duráveis mais populares, móveis e utensílios domésticos, entre outros, passaram a ser carros-chefe da dinamização do comércio.

E fato novo: segundo a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE, o ritmo de vendas do comércio varejista é puxado pelos consumidores residentes nos estados do Norte e Nordeste do país. O Brasil parece, assim, descobrir outro de seus grandes potenciais adormecidos: suas ditas regiões mais pobres. O país revisita essas regiões, que deixam crescentemente de serem vistas apenas como territórios da miséria e dos currais eleitorais (como se esses atributos não fossem também marcas de grandes metrópoles), para revelarem seu potencial como consumidoras e, mais importante ainda, como locus interessante para abrigar novos investimentos.  

E isso num contexto de retomada dos investimentos. É que a expectativa de persistência do crescimento do consumo interno empurrou, em 2007, a ampliação da taxa de investimento, que cresceu a uma taxa acumulada superior a 12% ao longo do ano. Se o crescimento lubrificado pelo crédito tem seus limites, especialmente num ambiente em que continua a existir a possibilidade de o Copom voltar a elevar a taxa de juros, o ano de 2007  deixou um claro recado ao Brasil rico, moderno e cosmopolita: o dito Brasil pobre esconde potencialidades importantes.

Do ambiente de final do ano, outra sinalização deve ser retida. O debate sobre a CPMF, embora tratado como mera chance da oposição impor uma derrota ao Presidente, mostrou, mais uma vez, a importância de ampliar a discussão sobre a famosa “carga tributária” que a sociedade suporta.

O debate que não houve precisa ser feito, pois o sistema tributário perverso que fomos construindo é uma das peças-chave de máquina de gerar desigualdade no Brasil. Ele precisa ser dissecado e remontado para revelar novos potenciais adormecidos país afora. Seremos outro país, se em 2008 o fim da CPMF puder ser transformado no começo de uma nova estrutura de tributação que coloque o IVA no destino; onere mais os ricos que as classes médias; cobre mais impostos diretos que indiretos; retire mais dos que ganham mais e acumulam ou herdam mais riqueza que dos que produzem e consomem; e, finalmente, taxe adequadamente o ativo terra, impondo, inclusive, a progressividade à taxação da terra improdutiva.

Que as heranças de 2007 iluminem nossos caminhos em 2008. E que o Brasil consolide uma nova trajetória na qual a base da pirâmide social — ou seja, a maioria dos brasileiros — e as ditas regiões pobres possam revelar, de uma vez por todas, seu enorme potencial.

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Tania Bacelar de Araújo é economista.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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