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Por que a direita venceu na Itália

Pietro Ingrao - Maio 2008
Tradução: A. Veiga Fialho
 

“O que tem a dizer a L’Unità e o que pensa sobre a derrota?”. Começa assim esta entrevista com Pietro Ingrao sobre o day after, com um Ingrao que pede “luzes” ao entrevistador antes de iniciar. Na verdade, o velho líder tem idéias claras. Com efeito, logo que chegamos na sua casa, encontramos sobre a mesa jornais abertos e grifados, bem como uma folha com as observações que quer nos transmitir. Dizemos alguma coisa, mas só para dar-lhe um pretexto. E ele fala, depois da primeira pergunta. Sem se desviar, e em torno de três idéias fixas. A xenofobia, os erros de Veltroni e os da Esquerda Arco-Íris. Ouçamos.

Ingrao, por que o centro-esquerda perdeu Roma depois de 15 anos, e como foi possível que uma direita ex-missina [MSI, o antigo partido dos neofascistas] conquistasse o Campidoglio [a prefeitura de Roma]?

A meu ver, a razão de fundo foi a onda de medo e insegurança alimentada pela presença dos imigrantes no nosso país: e, portanto, antes de mais nada, uma onda xenófoba, que abriu o caminho para Alemanno [o prefeito eleito de Roma]. As pessoas votaram nele, esperando que expulse “os estrangeiros” da Itália. O limite político e de civilização desta atitude me parece evidente. Surge do provincianismo e do nacionalismo, até mesmo localista e leghista [Liga Norte], desta direita que grita: “Fora os estrangeiros criminosos e fora quem os deixou entrar!”. Esta me parece a fonte, a marca da vitória da direita.

O outro aspecto que me parece evidente é a fragmentação das forças de esquerda: quer na frente da Esquerda Arco-Íris [Refundação Comunista, Verdes, Partido dos Comunistas Italianos, Esquerda Democrática], quer na frente prodiana [Romano Prodi, o primeiro-ministro derrotado]. O sujeito que deveria derrotar esta direita reacionária se dividiu em muitos pedaços, entre brigas internas e partidinhos briguentos.

Walter Veltroni disse: somos o partido majoritário e disputaremos sozinhos. E, apesar disso, sua proposta não se definia como “unitária”?

Não foi assim: a ação dele não soube nem quis encontrar a ligação correta com o mundo articulado e plural da esquerda que devia apoiá-lo e com o qual devia fazer um acordo. Neste ponto, fracassou.

O Partido Democrático argumentou que um acordo com a Esquerda Arco-Íris seria pesado e impopular.

Mesmo assim, sozinho o PD não podia bastar: pela dimensão das forças que conseguia mobilizar e pela debilidade da sua ação unitária. No meu tempo, tínhamos a obsessão da unidade à esquerda, para fazer face à luta. Desta vez, ao contrário, não houve nenhuma ligação entre os moderados do Partido Democrático (é o que são) e as forças, mesmo que limitadas, da esquerda classista. E, no fim, deu-se uma confusa multiplicação de sujeitos, e Veltroni acentuou ainda mais a divergência. Até mesmo deixando entrever um acordo bipartidário com Berlusconi. Em resumo, faltou a construção forte e articulada do sujeito alternativo. Foi o que se viu de modo gritante em Roma, onde, com efeito, Rutelli [o candidado a prefeito pelo PD] não teve êxito sozinho: não conseguiu enfrentar a onda xenófoba, voltada para a expulsão dos “estrangeiros”, vistos por uma parte grande do povo romano como uma ameaça às próprias condições de vida.

Mas não houve também a insegurança ligada ao mal-estar econômico e às políticas de rigor fiscal do governo Prodi?

Sim, isso também pesou. Mas, mais do que políticas de rigor, prefiro dizer políticas de compressão da demanda e do salário. Padoa Schioppa [ministro das Finanças do governo Prodi] não era um embusteiro, e não me parece ter sido o rigor orçamentário o verdadeiro problema. Sem esquecer que o ponto crucial foi a xenofobia, deve-se reconhcer que não houve um terreno comum com os sindicatos sobre os salários. Tudo bem com o rigor, mas tinha de ser conquistada a adesão dos trabalhadores a esta política, com contrapesos adequados que não aconteceram. O que colocou em crise o eixo entre trabalho, saneamento financeiro e desenvolvimento. Uma aliança que, no entanto, era fundamental para o entendimento com a classe operária e com o trabalho assalariado. E deste modo Prodi viu-se sob o ataque da direita xenófoba, sem ter o apoio das forças clássicas do movimento operário. Na Itália, até os anos 1980, sempre houve um sujeito plural de esquerda, bem articulado na sua face política e na sindical. Esta relação desapareceu. Não se realizou, e talvez não tenha sido sequer tentado, um entendimento de verdade entre Prodi e o sindicato. E por esta brecha, sob o peso da xenofobia, a direita passou.

Além do PD, sua crítica abrange, pois, a Esquerda Arco-Íris. Onde ela errou? E qual é o déficit de identidade desta esquerda?

A esquerda se dividiu em muitas siglas, em brigas de grupo, em vez de buscar a necessária coesão para pressionar a ala moderada da coalizão. Resumindo: por um lado, os “moderados” de Veltroni e do PD flertaram com Berlusconi, por outro a esquerda radical se perdeu nas suas muitas ramificações, sem encontrar um claro ponto de equilíbrio programático e cultural.

Mas, então, por onde recomeçar depois de uma derrota destas dimensões?

Imagino que a partir da unidade em torno de um programa, diante de questões que hoje claramente estão inscritas num processo mundial que rompeu muitas barreiras. É o ciclo do capitalismo mundial depois de 1989 que ainda deve ser decifrado, com todas as conseqüências que dele decorreram: do colapso do Leste europeu, da globalização, até a guerra no Oriente Médio e hoje — temo — o provável retorno da recessão no mundo. São desdobramentos duros que hoje devemos enfrentar com clareza. É neste quadro sombrio que PD e Esquerda Arco-Íris devem reencontrar seu papel. E penso, antes de mais nada, na reconquista de uma proteção de classe para as camadas subalternas e destituídas; na urgência de repropor o tema da paz e da guerra, do qual ninguém mais fala. E, no entanto, como você sabe, a guerra continua em regiões cruciais do globo...

E quais caminhos e desdobramentos vê para o futuro do Partido Democrático?

Você me pergunta sobre o PD. Bem, o PD agora é uma força claramente centrista e moderada. Está certo; mas deveria evitar o flerte com Berlusconi, como a meu ver Veltroni tentou fazer. De todo modo, não creio hoje que esta força tenda a deslocar-se para a esquerda. Talvez seja mais realista agir para estabelecer uma relação ativa e fecunda com a esquerda radical, com consciência da nítida diferença que existe entre os dois sujeitos...

E, quanto à esquerda radical, ela não poderia começar de uma vez por todas a se definir como socialista?

Não me cabe dar conselhos desse tipo. Nem me interessa muito um discurso sobre nomes e siglas, e menos ainda julgar acontecimentos que conheço de modo limitado. No máximo, eu diria: cada qual no seu papel. Que a Esquerda Arco-Íris seja fiel à sua conotação de esquerda de classe. E o PD faça o seu papel “moderado”, mas em chave coerente, não de compromisso. E que, sobretudo, a esquerda em sentido amplo deixe de se dilacerar e reencontre um mínimo de unidade.

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Pietro Ingrao, nascido em 1915, é figura histórica do comunismo italiano. Dois dos seus livros estão disponíveis em português — As massas e o poder (Trad. Luiz Mário Gazzaneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980) e Crise e terceira via (Trad. Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1981) — e constituem, ainda hoje, momentos fundamentais da reflexão sobre democracia política e socialismo.



Fonte: L'Unità & Gramsci e o Brasil.

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