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Armênio Guedes

Gilvan Cavalcanti de Melo - Junho 2008
 

Reencontros, redescobrimentos. Muitos abraços, entrelaçamentos. Emocionante. Foi assim a festa dos 90 anos de Armênio Guedes, no último domingo, dia 8 de junho, aqui no Rio de Janeiro. O bairro das Laranjeiras transformou-se no centro de grande parte do país democrático, da esquerda desarmada. Era comum ouvir nomes tais como Marcos, Armando, Júlio. Eram seus nomes conhecidos na dura clandestinidade, do exílio no Chile e na França. [Ver também: Tio Júlio, Memória e política, O comissário cordial]

Foi o momento privilegiado de revisitar os grandes debates e os caminhos que a esquerda tomou, no combate à ditadura militar e no período da transição para a democracia.

Lá estiveram muitos atores políticos e culturais: os deputados federais Luiz Paulo Velloso e Fernando Gabeira, o ex-deputado Marcelo Cerqueira, o ex-senador Roberto Freire, o cineasta Zelito Viana, o poeta Ferreira Gullar, o filósofo Leandro Konder, os cientistas políticos Werneck Vianna, Carlos Nelson Coutinho, Martim Cesar Feijó, Raimundo Santos, Alberto Aggio, os jornalistas Wilson Figueiredo, Merval Pereira, Milton Temer e Sérgio Cabral, o secretário de saúde da cidade, Jacob Klingerman, os Vereadores Aspásia Camargo e Stepan Nercessian. Além de outras dezenas de velhos e novos amigos, que não teria espaço e memória para citar.

Por que tanta festa? É um reconhecimento tardio a quem pensou a questão democrática desde os idos de 1957-1958. É dele a idéia formulada na declaração de 1970 da Direção Estadual do PCB da então Guanabara:

Cabe aqui, finalmente, uma observação especial sobre a situação das esquerdas dentro da oposição. Para essas forças, a pior conseqüência da inflexão do movimento de massas foi o rápido incremento das posições radicais. Não foram poucos os grupos revolucionários pequeno-burgueses que não souberam recuar ante o avanço da contra-revolução, passando do radicalismo verbal às posições de desespero e aventura. Iniciaram essas correntes uma série de atos que se explicam, antes de tudo, pela sua incapacidade para enfrentar a tarefa de reestruturar o movimento de massas nas condições difíceis criadas pelo avanço da repressão fascista. Os assaltos a bancos, os golpes de mão e outras formas de ação postas em prática por pequenos grupos desligados das massas, enfim, o emprego indiscriminado da violência, embora compondo objetivamente o quadro da oposição, não deixam, apesar de seu suposto caráter revolucionário, de desservir à resistência e de dificultar a organização da frente única de massas contra a ditadura. Em uma palavra, enfraquecem a oposição.

Nada mais justo do que a homenagem àquele que, com análise da realidade concreta nos idos de 1970, previa o fim do regime militar não pela via das armas. Pelo contrário, sua visão tranqüila, serena, supunha “[...] a desagregação interna do Poder, sob o impacto do movimento de massas e depois de crises sucessivas, forçando uma parte do governo a facilitar a abertura democrática”.

A história lhe deu razão.

Conclusão: não é simples casualidade o entrelaçamento de tanta gente para abraçá-lo. Armênio sempre foi um agregador na luta pela democracia.

Finalizo, relembrando  a ironia de Graciliano Ramos, quando, em um bairro distante de Maceió, lá pelos anos de 1936, viu num muro pichado: “Índios, uni-vos!”. E pensou: aqui não tem índio e se houvesse não saberiam ler.

Hoje gostaria de ler nos muros modernos a palavra de ordem: “Democratas, uni-vos!”.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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