Memórias do Abrigo - A gata Gris

22/07/04

A gata Gris foi a gata mais interessante que conheci. Ela foi abandonada no abrigo com um bilhete que dizia assim:

"Esta gata se chama Gris e eu não posso ficar com ela, porque ela tem um problema no nariz. Tenha cuidado, ela é muito brava".

Era uma gata apaixonante. Toda peludinha, com três cores e dois olhos amarelinhos, lindos e vivos, que nos seguiam por toda parte.

Naquele mesmo dia, havíamos recebido uma ninhada com seis gatinhos abandonados em uma caixa de papelão. Eram muito pequenos e fracos.

Com esses filhotes, precisávamos dar comida na boquinha deles com uma seringa, mas eles continuavam pedindo pela mãe. Precisavam de carinho e calor de uma gatinha de verdade. Gatinhos novos são como os bebês humanos: gostam de ficar sempre agarrados com suas mamães.

Começamos a nos preocupar, pois eles não queriam comer direito e estavam ficando cada vez mais fracos. Foi quando me virei e vi a gata Gris me fitando com seus olhos vivos e curiosos. Fui me aproximando dela, peguei-a pelas patinhas dianteiras, deixando-a sentada e comecei a falar com ela:

"Gatinha, você é muito linda. Embora você não possa dar de mamar aos filhotinhos, dá para você me fazer um grande favor? Está vendo aquela ninhada ali? Eles são orfãos e precisam do calor de uma gatinha para que sobrevivam e se sintam protegidos. Caso isso não aconteça, temo pelo pior... Você poderia fazer isso por mim?

Curiosamente, ela soltou um miado com ternura, parecendo entender minha apreensão. Interpretei aquilo como um sim e a soltei.

Ela se espreguiçou com charme e muito dengo, como todo gato faz. E, para nossa total surpresa, foi caminhando lentamente em direção a ninhada.

A caixa estava meio úmida, já que os gatinhos haviam feito xixi. Ela pegou um gatinho pelo cangote como os bichanos fazem e o levou para o outro canto da sala, repetindo a mesma coisa com os outros cinco. Depois, deu aquele “banho de gato” em todos eles, lambendo-os com muito carinho.

Pegamos uma mamadeira e alimentamos cada um, sempre sob o olhar vigilante da gata Gris. Após todos estarem alimentados, deixei-os aos cuidados dela.

Um dia se passou e os gatinhos ficaram sempre quietos, nem miando de fome. Ficamos curiosos com isso e fomos ver o que estava acontecendo até imaginando o pior. Talvez não tivessem resistido e morrido, já que estavam tão fraquinhos.

Entramos silenciosamente e vimos que todos os gatinhos estavam mamando. Adivinhem em quem? Na gata Gris !!! Não é que ela estava dando de mamar aos gatinhos ? Que surpresa agradável. Mas de onde veio o leite dela? Só pudemos acreditar que aquilo havia acontecido porque ela queria ajudar, e seu instinto maternal foi mais forte que tudo, até fazendo acontecer aquele pequeno milagre de amamentar pequenos seres abandonados.

Os gatinhos cresceram fortes e saudáveis. Conseguimos arrumar novos lares para eles, o que deixou a gata Gris um pouco triste, ao ver seus “filhinhos” irem embora. Mas havia chegado outra ninhada e ela os adotou prontamente como tinha feito com os outros..

E aí, a história se repetiu...a gata Gris os adotou, amamentou e os tratou com muito carinho até crescerem e poderem ser doados...

E foram muitas e muitas ninhadas adotadas por ela durante toda a sua vida, até ela morrer bem velhinha, mas sempre muito carinhosa com todos os filhotinhos que ficassem perto dela..

Embora sendo uma gata, ela nos ensinou muito. Ensinou que se quisermos alguma coisa, podemos conseguir. Ensinou que fazer o bem é importante e que esse bem sempre retorna para nós. Aprendemos com ela como os gatos são sábios, como podem nos entender, mesmo não entendendo nossa língua, como são sensíveis e amáveis.

E nós agradecemos a Gata Gris por nos ter dado a chance conhecer e conviver com ela.

*Maria Elisa de Souza é presidente da Sociedade Juizforense
de Proteção aos Animais e atua há mais de 18 anos na área

Conteúdo Recomendado

Comentários

Ao postar comentários o internauta concorda com os termos de uso e responsabilidade do site.