Jussara Haddad Jussara Hadadd 08/05/2008

Faz de conta de gente grande

Ilustração: Laura Martins Ferreira / imagem de um casal de beijando Algo que acho completamente sem explicação é o encontro e o desencontro dos casais que se atraem nas mais diversas, engraçadas e estranhas situações.

É muito difícil encontrarmos casais constantes, daqueles que resolveram se unir e dividir o cotidiano, se darem bem em 100% dos seus gostos e desejos. Afinidade é algo bem questionável quando o assunto é um casal. O problema é que eles só descobrem isso bem mais tarde, quando já estão envolvidos até o pescoço e têm todo um leque de compromissos e pessoas agregadas às suas vidas.

"Longe de o amor proceder da natureza, é a regra e o freio de suas inclinações; é por meio dele que, excetuando-se o objeto amado, um sexo nada mais é para o outro" (*Rousseau).

Homens e mulheres se unem aos milhares movidos por um instinto inquietante de felicidade a dois, constituído pela sociedade a partir de não sei quando e que reza que os dois têm que combinar em número, gênero e grau. Fala sério! Como isso é possível entre universos tão grandiosos e distintos?

Cada um tem seus sonhos, fantasias, planos e desejos, então, como seria possível uma matemática onde os dois encontrassem sempre o mesmo resultado? Alguém poderia me ensinar esta mágica?

Tendo em vista que muitos casais têm enorme vontade de permanecerem juntos, sendo pela razão que for, por amor, paixão, posse... Alguns casais conseguem arrastar uma união por anos ou décadas a fio. Vivem entre tapas e beijos, mas vão levando. Bacana isso! Casais mascarados de seres realizados porque tem um ao outro.

Entretanto, isto não é o pior. O que me choca são os artifícios que homens e mulheres vem encontrando para sustentar suas relações. E o mais chocante ainda é descobrir que hoje em dia subterfúgios usados somente pelos casados, cansados de suas rotinas entediantes, acontecem também entre namorados, noivos e até entre amantes.

Finalmente a famosa expressão "Ninguém é de ninguém" foi admitida e bem aceita nos meios sociais.

Ninguém é de ninguém mesmo e embora com um bom preparo emocional, e experiência profissional que tenho para escutar os desabafos de amigas e clientes, às vezes, me assusto com relatos que saem com ar de naturalidade das bocas de pessoas que, no íntimo, estão dilaceradas de tanto sofrimento decorrente e recorrente de buscas e tentativas vazias, de um ser perfeito para compartilhar.

As questões do cotidiano conjugal refletem diretamente no comportamento sexual dos envolvidos, é obvio. Casais fingem realização sexual com seus parceiros fixos praticando superficialidades sobre a cama, enquanto o seu íntimo está bem longe dali. Coisa mais comum é um ou outro, ou os dois ao mesmo tempo estarem ali, na cama, apenas de corpo presente, enquanto suas mentes estão nos braços de outro alguém. Recebem carícias e dividem movimentos com o parceiro e fantasiam loucuras ocultas, com parceiros imagináveis, para atingirem o êxtase daquele momento.

Homens pensam em modelos sensuais e mulheres sonham com atores românticos e viris. Quantos casais não precisam complementar o que praticam no sexo com outros parceiros ou com os atualíssimos e admitidos acessórios eróticos? E mesmo assim, a tão esperada realização fica longe de ser alcançada.

Ele com amantes, ninfetas e garotas de programa ou quando seu caráter não permite tanto, em frente à TV, quando a mulher não está em casa, é claro (porque dividir com ela essas delícias, nem pensar), assistindo a filmes "pornôs" e se acabando na masturbação.

Ela com amantes, garotos de programa (sim, porque hoje em dia os direitos são iguais), e quando seu caráter e seu sentimento de culpa não permitem, se trancam em seus quartos com vibradores superpotentes e acessórios da melhor qualidade. Aliás, diga-se de passagem, já repararam que os sex shop tem cerca de 80% de sua linha de produtos dedicados às mulheres?

Eu costumo brincar dizendo que antigamente as prostitutas tinham a grande missão de salvar ou segurar casamentos. Hoje em dia, esta responsabilidade cabe aos vibradores. Estou brincando, calma!

Será que é mesmo impossível os casais encontrarem uma forma de se realizarem sexualmente? Por que eles simplesmente não conversam sinceramente e dizem um ao outro o que falta para se completarem?

Ilustração: Lívia Mattos / imagem de um casal namorando Porque mulheres têm vergonha de pedir ao parceiro que a penetre com mais força, que fale uns palavrões e umas besteiras, que aumente o tempo das carícias antes da penetração, que tome um "viagra" em homenagem a ela (coisa que certamente ele faria para impressionar numa aventura), que faça um sexo oral do jeito que ela gosta, que a ensaboe no chuveiro, que a possua como se a estivesse pagando para estar ali e tantas outras loucuras que elas pensam e que poderiam esquentar o sexo entre os dois, mas que elas não falam. Por quê?

Porque os homens, não pedem as suas mulheres que façam um sexo oral mais louco, um streep tease, que usem calcinhas fio dental, que façam mais ginástica para ficarem com o bumbum maior e mais durinho (como todo mundo sabe que eles adoram), que façam sexo anal com eles, que aprendam a contrair com força as suas vaginas (porque eles gostam muito disso), que façam amor de luz acesa, que aprendam da "dar uma rapidinha de manhã", sem se sentirem objeto sexual, que nunca mais queiram discutir a relação dentro do quarto que deveria ser um ambiente sagrado, somente para relaxamento e prazer dos dois. Por quê?

Por que não dizer à pessoa que ama o que vai buscar sem garantia de que vai encontrar o que quer, em outra pessoa?

Outro fato interessante é que as mulheres são mais receptivas às propostas dos parceiros. Os homens se sentem ofendidos quando elas querem algo a mais. Pior, se sentem ameaçados se sua mulher quer uma pimentinha a mais no sexo. Via de regra é assim, muito embora se diga o contrário.

Todos já sabemos, mas nunca aplicamos em nossas vidas: o dialogo seria uma solução eficaz, também, para este tipo de problema.

A humanidade insiste em usar ferramentas e armas de todos os calibres para resolver seus conflitos e se esquece da mais poderosa e eficaz de todas que é o entendimento através da palavra e do diálogo. Pensem nisto, por favor!

"Muito poucos dentre os homens e mulheres que tiveram uma educação convencional aprenderam a se sentir confortáveis em relação ao sexo e ao casamento. Sua educação lhes ensinou que insinceridade e mentira são virtudes e que o sexo é repugnante. Essa atitude tornou o casamento insatisfatório e a não-satisfação dos instintos resultou em crueldade mascarada de moralidade"(**Russel).

Considero as citações filosóficas, contidas no artigo deste mês, pertinentes e dignas de serem analisadas pelos queridos leitores, a quem agradeço mais uma vez o carinho com que sempre me acolhem.

*Rousseau, Jean Jacques - (1712 - 1778) - Filósofo Iluminista
*Russel, Bertrand - (1872 - 1970) - Filósofo Idealista Contemporâneo


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Jussara Hadadd é terapeuta holística,
especializada em sexualidade
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