Jussara Haddad Jussara Hadadd 11/07/2008

Nem tudo que reluz é ouro

Ilustração: Cledson Lopes Certo dia, conversando com um amigo, médico esteta, dividimos um impasse sobre a mulher gostosa de verdade. Foi um "bate boca" danado porque ele insistia em dizer que remodelava e reformava os corpos de suas clientes e elas ficavam mais gostosas.

Éramos cinco na mesa do almoço, Paulo, o esteta; Ricardo, o cirurgião plástico; Ibraim, clínico holístico; Carla, dentista reabilitadora e eu, terapeuta de mulheres. Turminha da pesada contando casos interessantes e comentando as pirações das cabeças femininas sobre a forma física e tantas outras coisas.

Em certo momento, a turma estava dividida, eu conversava com Carla e Ibraim, enquanto Paulo falava com Ricardo e... algo me chamou atenção na conversa deles.

- Rapaz, você viu a transformação da Suzana, aquela cliente que operou na clínica de Ipanema no mês passado? Fez lipo total, colocou 250 gramas em cada mama, reaproveitou parte da gordura do abdome e injetou nas nádegas. Voltou para uma revisão e eu fiquei de queixo caído, a mulher está um avião. Ah, se eu não fosse casado, não sei, não. Fiquei me imaginando, indo pro motel com aquela "gostosa".

- Opa, disse eu. Como assim, gostosa? Quem te garante que ela é gostosa?

- Como assim? perguntou o Paulo. Claro que é gostosa, um tremendo avião. Um traseiro de matar qualquer homem, cinturinha de pilão e tetas de invejar as norte americanas. Gostosa sim, e fui eu quem fiz.

Carla, enrubesceu, empalideceu, esfumaçou (soltou fumacinha pelas ventas) e contestou na mesma hora.

- Não é isso que faz uma mulher ser gostosa ou não. Quem garante que na hora "H", ela vai ser "isso tudo". Ela pode ser simplesmente tipo uma... boneca inflável, por exemplo. Assim... do tipo...paradona mesmo, sem graça, sem sal. Bonito de ver, mas horrível de sentir. (Para não dizer "comer"). Tipo doce de padaria. Carla estava toda descompensada, sem jeito, envergonhada. Ela também trabalhava na clínica e cuidava do sorriso das pessoas.

A clínica oferecia serviço completo. Eu cuidava da cabecinha delas, do relaxamento pré-cirúrgico com Reflexologia Podal e do emocional com os maravilhosos Florais de Bach ao aconselhamento. Afinal, é uma mudança e tanto, é vida nova, presume-se. Carla tinha razão, porque nas minhas sessões com estas clientes, recebia muitas queixas de como estava a vida sexual delas e constatava que o que menos faltava para tudo andar bem neste âmbito era um corpo perfeito.

Cabecinhas reprimidas e bloqueadas. Conceitos e pré-conceitos de todos os tipos. Tabus infinitos. Falta de informação e conhecimento do assunto à toda prova e é claro, que em decorrência de tanta alienação, a vagina delas era a última coisa a ser lembrada. Não tinha mesmo como ser gostosa.

Discussão pra lá, pontos de vista pra cá e a conversa foi longe. Os homens batendo em cima do palpável e as mulheres, é obvio, sustentando o essencial. E o que seria este essencial?

Coloquei meu ponto de vista afirmando que as mulheres, em decorrência de tanta confusão sobre o mito da insuficiência feminina instituído pelo patriarcado pós era de Cristo (absolutamente nada contra Jesus Cristo, sou apaixonada por ele), deixou de lado sua feminilidade, sua sensualidade, sua criatividade e sua intuição.

Tornou-se dependente da aprovação masculina e enfim, ficou reduzida a pó e proibida de sentir ou manifestar qualquer sensação de prazer ou de se preocupar com coisas mais íntimas. Servia ao seu senhor e pronto. E isso era o que ela aprendia com sua mãe que tinha sido instruída com sua avó e assim vai. A mulher viveu milênios sem se conhecer, sem se tocar, sem sentir prazer e obrigada a ignorar sua sexualidade, sua genitália e tudo mais que fizesse parte deste contexto.

Depois do movimento feminista, ela vem cheia de sede e de vontades. Toda revertida em seus valores pontua seus conceitos como a maioria dos homens e acredita no externo, no palpável, no visível e se mutila física e mentalmente. Ela quer trabalhar, enriquecer e adaptar seu corpo aos padrões da mídia custe o que custar não se preocupando em ser uma mulher de verdade.

Implícito a toda esta questão está o seu comportamento na cama e os cuidados que realmente são relevantes para o seu corpo. Sua vagina ficou esquecida e sujeita a problemas considerados corriqueiros, mas que na verdade são gravíssimos, como a dificuldade de sentir prazer com a penetração, a incontinência urinária e a queda de órgãos como o útero e a bexiga, que leva milhares de mulheres anualmente às cirurgias, as quais poderiam ser evitadas (classificadas como cirurgia de períneo), assim como a insatisfação sexual dela e do parceiro.

Voltando ao papo com a turminha da pesada, contei para eles como as mulheres ficam mais gostosas de verdade, cuidando do seu assoalho pélvico com os exercícios do Sahajôli/Pompoarismo e fazendo com que suas vaginas fiquem mais tonificadas e com poder de contrações mais fortes, aumentando infinitamente o prazer do casal. De como elas ficam mais liberadas, quando cuidam do seu emocional e se entregam aos seus parceiros de verdade sem se preocupar com o que está aparecendo de defeito no seu corpo na tal hora "H". Concluímos que o trabalho deles faz com elas fiquem apetitosas, mas de ficar gostosa mesmo quem cuida sou eu.

Os nomes citados acima foram alterados e qualquer semelhança com fatos reais será mera coincidência.


Clique aqui e mande sua sugestão sobre esta coluna

Jussara Hadadd é terapeuta holística,
especializada em sexualidade
Saiba mais, clicando aqui!

Comentários

Ao postar comentários o internauta concorda com os termos de uso e responsabilidade do site.

Arquivo

Ver mais...