Jussara Hadadd Jussara Hadadd 14/7/2010

Em terra de cego, quem tem um olho é rei

 

MulherEscamoteando oportunidades de felicidade de quem tem mais para oferecer que uma aparência fabricada para exposição em vitrines da vida, mulheres iludidas com a proposta de vida fácil, investem cada dia mais em beleza artificial e superficial, esquecendo-se que um dia, mais cedo ou mais tarde, todas, absolutamente todas, chegaremos ao pódio das despencadas, umas com conteúdo de vida e outras ocas como cascas de árvores velhas. Precisa explicar? Escrever mais? Vamos lá.

O que tem demais em construir um conjunto que nos faça inteiras com casca e recheio? O que nos impede de cuidar com a mesma intensidade do nosso interior, da nossa conduta, nossa evolução com comportamento edificante, tanto quanto estamos agora, cuidando de nossa aparência, somente para garantir um lugar ao sol, cujo reflexo é tão pequeno e efêmero quanto o movimento global inserido pela mídia em nossas vidas, incitando em nós o desejo cada dia maior de parecermos e somente isto, melhores umas que as outras. Ninguém deixa de ser bela, atraente e gostosa por cuidar de ser grande.

Quantos milhares de moedas, são gastos anualmente na indústria da beleza dedicada às mulheres que não diferente das de antigamente, ainda hoje, acreditam que a exposição de sua figura, lhes garantirá uma vida rica e plena de gozos, volúpia, ouro e tudo o mais que suas mãos possam pegar.

Meninas fantasiadas em tempo integral de mulher de cabaré - nada contra as mulheres de cabaré, mas cada qual no seu lugar, exageradas em adornos que comunicam sua disponibilidade. Mulheres mais velhas que se assumissem sua idade, seriam lindas jovens senhoras, apreciadas por homens de valor e talvez até por seus próprios homens, fantasiadas de garotinha, se expondo ao ridículo. Tudo bem, gosto não se discute, mas pode ser que se lamente. Enfeitam-se, mutilam-se, preenchem-se, despem-se de sua vergonha, princípios e valores, que um dia possam ter-lhes sido ensinados e vendem-se por nada, às vezes somente com o intuito de competir. Outras vezes, com a ilusão que um homem, rico ou pobre, bonito ou feio, bom ou mau, a fará rainha de sua vida e lhe poupará o trabalho de buscar a vida com suas próprias mãos. E acham que estão arrasando.

Enganam-se e imaginam não haverem de pagar preço algum por isso. Mesmo que humilhadas e diminuídas no quanto são desprezadas, abandonadas e traídas, em sua pouca inteligência não têm a capacidade de mensurar o valor dessa moeda chamada vida. Mulheres da atualidade, milhares delas, ainda acreditam na prostituição, assumida ou mascarada, como meio de sobrevivência, e vendem-se a preço de banana. A prostituição assumida e profissionalizada devassa menos.

Vendem seus sonhos de menina, sua poesia, sua arte, sua candura, sua sensualidade. Transformam-se em máquinas de prazer ou em alvos de assédio moral, tanto faz, contanto que possam ostentar o tão difícil e disputado e quase extinto troféu chamado homem. Investem seus rendimentos, ganhando bem ou mal – as que ganham mal, são as que gastam mais, em procedimentos superficiais de beleza que as deixam dentro de um padrão de mercado para somente exibirem seu triunfo, conquistado seja de que maneira for e para que fim servir.

Roubam namorados, desfazem noivados, dividem com as casadas entre duas ou mais amantes, não importa, desde que possam mostrar para o seu mundinho que ela o tem. O prazer está em contar para a outra, para a amiga, a manicure ou a prima, que ela tem um. E isso não tem nada a ver com sexo. Quem é que está pensando em sexo aqui? A última coisa que se procura aqui é o prazer que se pode ter com um homem interessante. O amor, então, passa só pelo viés da confusão.

Ah! E as que se julgam espertinhas e que tiram algum proveito disso por meio da denúncia de assédio sexual ou de comprovação de paternidade, não importando o nível do homem que ela enredou em sua trama de conquista, baseada em último caso no amor? Amor. Palavra proferida levianamente em meio à volúpia que esta circunstância propõe. "Eu te amo meu amor, casa comigo."

Em meio a tantos passos loucos em busca de vida supostamente fácil ou em busca de simplesmente mostrar que é capaz de conquistar um homem, que hoje em dia dizem estar tão difícil encontrar, cometem desatinos e acabam devoradas por cães bravios e seus restos mortais enterrados e incapazes, definitivamente, de atormentar outras vidas. Triste fim de um sonho que há muito já não era mais de menina. Ardis e cegas, ao mesmo tempo preparam seu mel e seu fel. Observo diariamente uma legião dessas moças. Teço meus pré-juízos sobre a aparência e o comportamento delas - desculpem-me, e, de um modo geral, sinto tanta pena. Fico pensando se essa ou aquela não vão parar na mandíbula de um cão qualquer. Raríssimas são as que agem dessa maneira e se divertem. Raras demais as que não engendram profundos conflitos.

Quantas famílias dissipadas, filhos relegados ao acaso, mulheres íntegras, belas, integrais, sofrendo em consequência da incoerência que envolve mulheres sem categoria alguma, dispostas a tudo, e homens receptivos a qualquer coisa que os façam esquecer suas responsabilidades, suas fraquezas, suas pobrezas e todo o descuido que tiveram com a própria vida.

Homens jovens e desorientados, influenciados por um mundo vazio que os faz provar masculinidade em atos impensados. Homens buscando mulheres que os remetam, por meio de fantasias, a um tempo que escorregou pelas mãos, muitas vezes por pura opção. Homens que negaram a suas mulheres juventude, alegria, amor, paixão, romance, beleza e tudo que há de bom na vida, e que agora, depois de perderem o respeito e admiração de quem os amava, se veem obrigados a exercerem seu poder, longe de ser fálico, mas somente econômico com quem deles não espera outra coisa. Ilusão barata. Ops! Quis dizer, cara demais. Homens que suscitam o surgimento e fomentam o aumento dessas "pobres moças" na sociedade. Só têm porque tem que quer.

Podemos viver a vida com tudo. Com leveza, com beleza, com muito sexo e muito prazer. Até com amores paralelos e sem compromisso, mas com responsabilidade, sem egoísmo e sem maldade e, acima de tudo, com muito cuidado para não nos ferirmos e não ferirmos o outro. Sem correr o risco de um aniquilamento físico, psicológico ou moral.

Meninas, deem-se ao respeito e, por favor, cuidem-se.



Jussara Hadadd é filósofa e terapeuta sexual feminina
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