Fretes na praça Motoristas de kombis apostam na clientela fixa para garantir o sustento e se manter na atividade ao longo dos anos

Ricardo Corrêa
Repórter
23/05/2006

Comprar móveis, vender objetos pesados ou difíceis de carregar seria ainda mais complicado se não existissem os fretes. Como levar um guarda-roupa do Linhares ao Bom Pastor, do Centro ao Barbosa Lage ou de São Pedro à Santa Terezinha se não houvesse, na cidade, pessoas com veículos especializados nessa atividade? Em pontos definidos, com uma freguesia fixa e contando com os apertos de última hora, os responsáveis por veículos de aluguel para fretes vão sobrevivendo, já há alguns anos, mesmo com as crises da economia. O segredo: a persistência.

Márcio Souza Mendes, por exemplo, já trabalha com fretes há 10 anos. De lá para cá, não viu queda no movimento, nem aumento. Ele chega no seu ponto, na Benjamin Constant, esquina com Rio Branco, às 8h. Lá, fica até 19h e passa a maior parte do tempo ali, parado, esperando. São em média dois fretes por dia, no máximo.

"É bastante relativo, tem semana que dá para fazer uns 10, 15 fretes", explica o motorista, que também relativiza o preço do serviço. Depende de uma série de fatores e pode custar, de R$ 20 até R$ 100, em média.

"O preço é definido pelo local, se é escada ou não, se tem ajudante ou não, o que tem que carregar, se é uma ou duas viagens, por isso varia muito", explica Márcio Souza, que lembra as dificuldades com os gastos de manutenção. "Tem sempre algum problema, estamos sempre trocando o motor, trocando peças. Esse é nosso maior gasto", conta Márcio, que não aconselha ninguém a entrar no ramo.

"Para quem já tem mais tempo, já tem freguesia, como eu, vale à pena. Fica mais fácil. mas para quem quer começar é um pouco complicado. Mas eu gosto do serviço e não pretendo sair. Vou aposentar aqui", diz o motorista.

Propaganda boca-a-boca

A melhor arma do negócio dos responsáveis por fretes é a propaganda boca-a-boca. Alguns até possuem cartões com seus contatos e, é através das pessoas que já utilizaram o serviço é que chegam novos clientes. Assim, quem já está há mais tempo na praça leva vantagem. Caso de Waldir. Ele já trabalha com fretes desde 1984 e está no mesmo ponto, na Benjamin com Rio Branco, todos os dias. Quando está cansado, decide folgar, e escolhe a segunda-feira.

"É o dia mais fraco. Quinta, sexta e sábado são os melhores dias", explica o motorista, que ressalta também os meses do ano em que o trabalho aumenta. "De outubro em diante começa a melhorar. É porque sai a primeira parcela do 13º salário e aí as pessoas começam a trocar os móveis, eletrodomésticos", conta o motorista.

Os estudantes são grandes clientes dos motoristas de kombis de frete. "É uma cidade com muitos estudantes, então chegamos a fazer três mudanças de estudantes por semana, em algumas épocas. Na época das férias diminui, mas logo que vem o vestibular melhora de novo. Uma viagem de mudança para esutdantes costuma ficar de 70 a 100 reais, dependendo do lugar", explica o motorista, ressaltando que, além da distância, a quantidade de mudança faz a diferença.

"Se for muita coisa e não tiver ajudante, aí precisamos arranjar o "chapa" como nós chamamos. Aí fica mais caro", explica. Ele não pensa em mudar de ramo. Acha que vale à pena e não reclama.

"Eu não trocaria por um emprego com carteira assinada não. Só se for por uns três salários ou mais. Por menos do que isso eu não troco", avisa.

Outra análise

Hélio, que prefere não dizer o sobrenome, nem aparecer, pensa diferente do colega. Ele também está na função há 22 anos e diz que as coisas pioraram muito nos últimos tempos. Por isso, ao contrário do amigo, aceitaria uma troca.

"Se abrisse alguma empresa e aparecesse um emprego por um salário que fosse eu deixava isso aqui. Sem problemas. E aí os poucos que sobrariam teriam mais condição de trabalhar", explica.

Na verdade é a concorrência que faz com que Hélio se desanime. Ele diz que, de 10 anos pra cá, aumentou muito o número de pessoas que fazem o trabalho, principalmente por causa do desemprego na indústria.

"Está muito difícil. Quase não dá para pagar as despesas. Quando dá um problema e precisa trocar o motor, por exemplo, costuma você perder todo o dinheiro que gastou na semana e ainda ficar devendo nessas lojas de peças. De dez anos para cá o ganho reduziu 70% ou mais", conta ele.

Enquanto não aparece outra coisa e ele precisa ficar na praça, no entanto, não corre do trabalho.

"Fazemos a mudança e ajudamos a carregar com todo o prazer também. Deus vai ajudando e nós vamos tocando a vida"

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