RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - A morte de Erasmo Carlos, 81, nesta terça-feira (22), foi atribuída pela equipe do hospital Barra D'Or, no Rio, a um "quadro de paniculite complicada por sepse de origem cutânea". O comunicado foi feito pela família e pela equipe do artista por meio das redes sociais do cantor, cujo velório será fechado à família e amigos íntimos.

Em um primeiro momento, a perda chegou a ser atribuída a uma síndrome edemigênica, acúmulo de líquidos que deixa edemas no corpo e que na verdade é apenas um dos sintomas de um quadro mais grave. A paniculite, por sua vez, é uma doença rara, caracterizada por uma inflamação da camada da gordura que se localiza abaixo da pele.

O médico Natan Chehter, geriatra membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, diz que os mecanismos que provocam a paniculite ainda são pouco compreendidos. "Os motivos, em geral, são relacionados a alguma doença autoimune ou à reação secundária como câncer, tuberculose ou doenças em que o sistema imune acaba reagindo de forma inadequada", afirma o geriatra.

A paniculite pode ser desencadeada por agressores externos como câncer ou tuberculose, mas também por reação dos próprios anticorpos da pessoa dada por problemas como doença de Crohn ou algumas vasculites. "A paniculite tem a ver com a desregulação do sistema imune. A gente sabe que se formam alguns nódulos na pele e que, a depender do subtipo de doença, pode gerar quadros mais sérios de infecção de pele", aponta Chehter.

A necrose dos tecidos leva ao surgimento de úlceras e lesões de pele e, como no quadro de Erasmo, pode evoluir para uma infecção generalizada, a chamada sepse, capaz de conduzir o paciente à falência de órgãos, entre outros sintomas. A doença que levou Erasmo à internação e pode ter provocado a sepse de origem cutânea, entretanto, não foi informada.

Recém-premiado com o Grammy Latino de melhor álbum de rock ou música alternativa em língua portuguesa de 2022 pelo disco "O Futuro Pertence à? Jovem Guarda", no último dia 17, Erasmo estava entre internações desde outubro.

No começo do mês, adiou dois shows nos EUA (um no dia 4 em Orlando, outro no dia 10 em Miami).

A nota da equipe médica divulgada após a morte do cantor afirma que ele estava desde o dia 2 internado por causa do quadro grave de paniculite.

A médica geriatra e intensivista Carla Núbia Nunes Borges, professora da Universidade Católica de Pernambuco, diz que a causa da paniculite tem sido associada a patologias autoimunes, mas também a traumas, cirurgias ou neoplasias. "Algumas causas são simples e outras são manifestações de doença grave. O quadro típico são caroços sensíveis e eritematosos [vermelhos] mais comuns em braços e pernas", diz ela.

A paniculite deriva ainda de lúpus eritematoso sistêmico (LES), doença inflamatória intestinal, poliarterite nodosa e de situações de infecção e lesões. Não existe prevenção direta e, segundo a docente, qualquer lesão com essas características deve ser investigada com biópsia para confirmação da inflamação subcutânea.

"O paciente deve procurar avaliação médica imediata para diagnóstico e tratamento. O tratamento se faz com avaliação do local acometido, baseado na condição clínica. Não há tratamento específico, e um arsenal de medicações pode ser usado para aliviar dor, inflamação e infecção", relata Borges.

Chehter, por sua vez, ressalta que o caso do cantor deriva de uma condição já agravada e que, de modo geral, quem busca alguma forma de prevenção precisa se concentrar na saúde. Os inchaços da síndrome edemigênica, por exemplo, que são bastante incômodos, são a etapa final, mas derivam de um quadro silencioso de doenças vasculares, cardíacas, hepáticas ou renais.

"Se você é diabético, cardíaco, obeso e fuma, tem o pacote completo. Tem que procurar o médico antes de ter sintomas. Tem gente que diz ?tenho diabete e colesterol alto e não sinto nada?, isso é porque a hora que ela sentir, já passou do ponto de tratar antes de ter problema", reforça o médico.