SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto a maioria estava de olho na TV, na torcida pela estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo do Qatar, o secretário estadual de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, lia na tarde de quinta-feira (24) "O Segredo da Mente Milionária", do autor canadense T. Harv Eker, que trata dos hábitos de pessoas bem-sucedidas. "Foi meu filho que trouxe. Ele disse para eu ler o livro, para que fosse minha Bíblia."

Horas antes, na mesma quinta, o governo da qual Gorinchteyn faz parte anunciou a volta da obrigatoriedade do uso de máscara no transporte público na cidade de São Paulo, a partir deste sábado (26) -foi recomendado que todos os municípios paulistas façam o mesmo.

O motivo da retomada das máscaras em ônibus é o aumento no número de internações de pessoas com Covid-19. Situação que, segundo ele, poderia ser outra se todos tivessem tomado todas as doses disponíveis de vacina contra o novo coronavírus.

A alta de casos, acredita, pode continuar por causa das festas emendadas até o fim do ano, com expectativa de aglomerações na Copa do Mundo -o vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, reuniu milhares de pessoas sem máscaras para ver o Brasil derrotar a Sérvia por 2 a 0-, no Natal e no Réveillon.

"Temos cenários que favorecem a perpetuação do vírus e criar obrigatoriedade em outros espaços não será algo acatado pela população, provocará mais desgaste", afirma, sobre a volta das máscaras em outros ambientes, como no comércio. "Portanto, é fundamental a consciência das pessoas de forma individual. São elas que vão se proteger, tanto a si, quanto aos seus familiares e àqueles que estão em seus ambientes de trabalho. Muitas pessoas perderam a sensação do risco, acham que já estão protegidas."

O infectologista de 54 anos, que se prepara para deixar o cargo em 31 de dezembro, com a derrota de Rodrigo Garcia (PSDB) nas eleições de outubro, afirma que tem contribuído como voluntário com sugestões para a saúde ao governo de transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e que manteve contato com o vice-governador eleito Geraldo Alckmin. Mas descarta acertar um cargo em Brasília.

PERGUNTA - Como o sr. vê a decisão da volta da máscara no transporte público de São Paulo?

JEAN GORINCHTEYN - Foi uma decisão importante. Veja, nos últimos 15 dias tivemos uma ocupação de 100% nas unidades de terapia intensiva e de 120% nas de enfermaria de pacientes com Covid-19 na rede estadual. Hoje há a circulação de duas subvariantes [da ômicron], a BQ.1 e a BA.5, que têm uma capacidade de transmissão muito maior. Se eu tenho a circulação de um vírus e pessoas que não estão devidamente vacinadas e evoluem para sintomas, elas podem provocar internações hospitalares, que felizmente hoje são muito menores que no início deste ano e na segunda onda [março e abril de 2021].

Entendemos que nem toda a população está vacinada. Temos dez milhões de pessoas, incluindo crianças, que já deveriam ter tomado a segunda dose, mas não fizeram. Existem também sete milhões que poderiam ter recebido a terceira. E, infelizmente, há apenas 38% [do público-alvo] com a quarta dose. Na vacinação infantil, 50% das crianças estão devidamente imunizadas.

P.- Faltaram campanhas para incentivar a vacinação?

JG- Mesmo em dias de 'D' ou 'V', quando havia campanhas, nunca tivemos procura vacinal. É necessário que a população entenda a necessidade de atualização do quadro de vacinas, mas não será com campanhas e, sim, com conscientização frequente, que deve ser feita principalmente pelos municípios, que precisam criar estratégias operacionais para trazer essas pessoas para serem devidamente imunizadas e protegidas.

P.- Na cidade de São Paulo a máscara foi tirada do transporte público em setembro passado e voltou pouco mais de dois meses depois. O sr. acha que a decisão anterior foi prematura?

JG- De maneira nenhuma. Temos sempre que olhar o cenário e é ele que vai definir nossas posições estratégicas. Aquele momento, sem variantes e com um comprometimento do sistema de saúde ainda muito pífio, permitia que fosse tomada a decisão. E nós nunca nos furtamos em dizer que poderíamos recuar em nossas medidas.

P.- Esse vaivém de medidas ainda vai longe?

JG- Hoje temos a necessidade de imunizar a população de forma adequada [para evitar apertos em medidas sanitárias]. Essa conscientização é fundamental para evitar isso. Já temos a menção da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] a autorização para vacinas bivalentes da Pfizer. É algo que já vislumbra cenários de vacinação para o ano que vem, assim como se faz a gripe e outras doenças respiratórias, aplicadas anualmente.

P.- O sr. acha que a sequência de festas, com Copa do Mundo, Natal e Réveillon, pode manter o número de casos em alta?

JG- É uma possibilidade. Temos cenários que favorecem a perpetuação do vírus e criar obrigatoriedade em outros espaços não será algo acatado pela população, provocará mais desgaste, Portanto, é fundamental a consciência das pessoas de forma individual. São elas que vão se proteger, tanto a si, quanto aos seus familiares e àqueles que estão em seus ambientes de trabalho. Muitas pessoas perderam a sensação do risco, acham que já estão protegidas.

P.- E qual a recomendação?

JG- Com essas aglomerações que acontecerão, pedimos para que tenham preocupação para o uso de máscaras em ambientes onde não é possível fazer distanciamento ou que não tenham uma adequada ventilação. Isso vai acontecer tanto no transporte público quanto em cenários como os de torcedores no vale do Anhangabaú. Retire a máscara para beber a sua cervejinha, comer o seu petisco, e retorne com ela. Isso diminui o risco de aquisição de novas cepas. E se não estiver devidamente protegido, evite essas aglomerações.

P.- Com o fim do governo em 31 de dezembro, o senhor volta a exercer apenas a medicina?

JG- Eu nunca saí da medicina, Foi um acordo que fiz com o João [Doria, ex-governador]. Aceitei o convite desde que pudesse ver meus pacientes no hospital e continuasse tendo meu consultório. Claro que o número de dias diminuiu sobremaneira, de quatro dias que atendia no consultório, hoje voltei a dois, mas nos dias mais caóticos era só um. Porém, eu tinha a necessidade de continuar atendendo. Nos momentos de caos, principalmente na segunda onda, eu precisava ir ao Einstein, entre uma reunião e outra no Palácio dos Bandeirantes, e me refrigerava, me acalmava. Via o que estava acontecendo lá e secundariamente iria ocorrer na rede pública.

P.- O futuro do sr. está em Brasília?

JG- Não. Já me foram feitos alguns convites, tanto na medicina quanto na vida política, e preciso pensar quais são as melhores estratégias. Talvez as coisas tendem a solidificar no próximo mês. O Alckmin ligou [depois da eleição] e questionou o que eu iria fazer, mas não tenho pretensões de sair de São Paulo, até porque perderia duas coisas importantes, o contato com a medicina e minha família.

Mas tenho ajudado [o governo de transição do presidente eleito Lula] de forma extraoficial com algumas questões de temas importantes, como judicialização de medicamentos ou melhorar a atenção básica da saúde em geral. Passei algumas propostas a interlocutores para ajudar.

P.- O Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo apontou recentemente que as unidades de saúde paulistas perderam 2.200 médicos. Como o governo federal pode resolver o problema?

JG- Uma das propostas que fiz a esse grupo de transição é para obrigar médicos formados em escolas públicas a trabalharem um ano em programas de saúde da família como forma de conseguirem pontos para residência. Eles têm o dever de dar uma retribuição à sociedade. Depois a ideia passaria para os formandos em universidades privadas.

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