NAZARÉ PAULISTA, SP (FOLHAPRESS) - Em quase todas as ruas de Nazaré Paulista, a cerca de 70 km de São Paulo, é possível ver postes e grades com placas de compra e venda de chácaras, terrenos e sítios. Os anúncios são acompanhados de outros que oferecem apoio jurídico para regularizar terras.

Na região, trabalhar na terra é uma escolha cotidiana contra o dinheiro da venda dos sítios, demanda liderada pelo setor imobiliário, que vê na busca por uma vida no campo uma oportunidade para condomínios. Para quem decide ficar, proteger a vegetação é uma tarefa ainda mais delicada.

Nazaré Paulista está às margens de Atibainha, represa que integra o sistema Cantareira junto com os reservatórios Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Paiva Castro. O conjunto é responsável pelo abastecimento de 7,2 milhões de pessoas na Grande São Paulo.

Dos 230 mil hectares de floresta do sistema, 100 mil são pastagens degradadas. A pequena propriedade predomina na região, e convencer famílias a substituir práticas convencionais por ecológicas é um desafio.

"Estamos restaurando de um lado, e desse outro o proprietário solta os animais", diz o engenheiro florestal Gustavo Brichi.

Ele é um dos técnicos do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, organização que trabalha com o projeto Semeando Água na restauração ecológica da vegetação e na conscientização de produtores na região de Nazaré Paulista.

"O nível da represa baixou, e os animais passam pela beiradinha e ficam ali do outro lado ou acessam pela estrada. Dá pra ver nitidamente as linhas de cultivo, mas só vingaram algumas espécies, porque os animais batiam a terra constantemente", afirma.

A ideia de semear água vem da restauração de matas ciliares, que aumentam a infiltração do solo e ajudam a regular a recarga dos reservatórios, "semeando" a água durante o ano.

A área indicada pelo engenheiro, em uma das margens de Atibainha, exibe uma paisagem que se repete na região: remanescentes de mata atlântica, gado, casebres, barracos, mansões e marinas.

Além de ocupações irregulares, o restauro ecológico -capaz de criar uma dinâmica de espécies vegetais e animais- enfrenta uma cadeia de produção ligada a modelos tradicionais. Mas quem decide mudar as práticas conta com o apoio dos técnicos do instituto para combinar os negócios com a restauração.

Essa mudança foi a única saída para Eloisa Pinheiros, 31, que administra o sítio Primavera com o marido, Israel Júnior, 30.

O terreno foi adquirido pelo avô em 1950, e a família produzia batata-doce, milho, pimentão e tomate. Natural de Nazaré Paulista, Eloisa estudou na escola estadual Clélia Barros, na cidade, graduou-se em finanças em 2013 e começou a carreira no mercado.

Em 2017, deixou o escritório e voltou a Nazaré, dedicando-se com Israel ao cultivo de flores. O modelo convencional, porém, com uso de agrotóxicos para fertilizar e proteger as plantas de pragas, ficou saturado.

"Eram três toneladas a cada 30 dias", diz Israel. "Com a produção muito alta de flor, vinha muita praga e doença, e nada dava efeito. Chegou uma hora que começamos a perder e então fomos buscar alternativas".

Hoje, o casal aduba o solo com microrganismos eficientes, também chamados de EMs, usa matéria orgânica de capinagem e maneja as pragas com um ambiente diverso que equilibra as espécies.

Os microrganismos eficientes podem ser obtidos a partir de fungos que crescem em arroz cozido e armazenado, e segundo Eloisa e Israel, são utilizados em menor quantidade.

A mudança na produção, apesar de ousada, deu resultados, encheu a agenda de pedidos até novembro do ano que vem e tem chamado a atenção de vizinhos. "Vem um aqui que acompanha a cada semana, já perguntou sobre os compostos e agora recomendamos os EMs para ele", diz Júnior.

Apesar de não ser a motivação inicial, as alternativas para lidar com a mudança climática e os riscos de escassez hídrica foram incorporados ao cotidiano do trabalho. "A gente diz que não tem planeta 'B'. É agora ou nunca", afirma Eloisa. Ela e Israel querem se lançar como o primeiro sistema agroflorestal que produz flores no Brasil.

Em outra propriedade, o engenheiro Eduardo Souza, o Duduka, 60, transformou o terreno que comprou nos anos 1990 em uma pousada para complementar a renda da aposentadoria.

Depois de ver nascentes dentro da sua propriedade secarem ao longo dos anos, aproximou-se do IPÊ e começou a participar do Semeando Água.

"Dentro do projeto vamos mapear a área para plantar café, dividir onde pode cultivar os produtos e onde se pode restaurar. Estamos analisando a criação de cogumelos nativos da região, em um estudo do instituto", diz ele,

A esposa de Duduka, Silvana Rodrigues, 48, comanda o restaurante da pousada e a receita do afogadão, que junta carne ensopada com batata, farofa e arroz.

"É um prato servido principalmente nas festas de São Gonçalo, aqui em Nazaré, e nas festas do Divino, em junho."

Transmitida por gerações, a receita adiciona tradição ao cardápio do restaurante, que deve ganhar pratos com ingredientes orgânicos e produzidos por outros parceiros da região -articulação que também faz parte do Semeando Água.

Remodelar negócios e juntar a preservação com renda é a tônica do projeto, que fez no ano passado a terceira renovação do contrato com a Petrobras, principal financiadora, até 2024, com R$ 4,91 milhões de investimento da empresa.

"O projeto tinha objetivo principal de aumentar a resiliência do Sistema Cantareira com um ponto sensível que é o abastecimento de água na região mais densamente povoada do Brasil", diz Gregório Maciel, gerente de responsabilidade social da petroleira.

"Era um projeto que começaria com restauro, e foi continuamente aprimorado para levantar as causas do desmatamento na área que depois seria restaurada. É onde entra o apoio às famílias e agricultores para fixá-los na terra, ou a área poderia ser vendida", afirma.

Segundo o coordenador do Semeando Água, Alexandre Uezu, o principal desafio é ganhar escala, porque há uma corrida pelas terras na região.

"Principalmente na questão hídrica, a gente precisa ter esse ganho relativamente rápido, justamente pela especulação imobiliária. Para isso, precisamos do engajamento dos proprietários e das instituições que atuam na região", afirma.

Mais do que o aumento em investimentos, segundo Alexandre e Gregório, o sucesso da restauração no Cantareira depende das escolhas da população, dos órgãos públicos e da sociedade civil.