SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os cinco andares da plateia do Theatro Municipal de São Paulo ficaram lotados de fiéis evangélicos na noite dessa segunda-feira (8) para receber a cantora e compositora gospel Rosania Rocha, 53, conhecida por sua liderança à frente da igreja Cidade de Refúgio.

Rosania é uma das poucas lideranças evangélicas que se assumem lésbica e que fizeram da inclusão da comunidade LGBTQIA+ o foco de sua igreja. A sede principal fica na avenida São João, centro da capital paulista.

Desde 2014, Rosania é casada com a também pastora Lanna Holder, 50, que assumiu a tarefa de dirigir o espetáculo da esposa.

"Ocupar este palco histórico é um marco na minha trajetória de 35 anos de carreira, mas também um marco de resistência da comunidade LGBTQIA+", diz Rosania, pouco antes da apresentação.

O show fez parte da programação do Mês do Orgulho, e aconteceu um dia depois da Parada LGBT+, que levou 36,8 mil pessoas à avenida Paulista no último domingo (7).

O concerto divulga o álbum "Ani-Hu" (2026), expressão em hebraico que significa "eu e ele em um só". O projeto é composto por sete faixas, incluindo "Salmos 121", "Isaías 6" e "João 6" --composições que adaptam os respectivos versículos.

Rosania explica que o nome "ani-hu" é inspirado nos escritos de Santa Gertrudes, uma teóloga e monja beneditina que viveu na Alemanha no século 13.

"Ani-hu é uma intimidade tão absoluta com o divino que gera uma espécie de 'osmose', onde o ser e Deus se tornam uma única existência", diz.

Antes de se mudar para São Paulo e fundar a igreja Cidade de Refúgio, a compositora viveu por 20 anos nos Estados Unidos, onde era casada com um homem.

Sua vida mudou em 2002, quando conheceu e se apaixonou pela pastora Lanna Holder. Rosania então decidiu se separar e voltar para o Brasil.

Lanna Holder, que também foi casada com um homem, era famosa no meio evangélico ao pregar a "cura gay" em cultos e eventos. Até que o amor por Rosania mudou radicalmente sua trajetória.

Holder conta ter sido criada em um ambiente onde a homossexualidade era algo "maligno". Continuar a vida como uma pastora abertamente lésbica "é uma forma de enfrentar o discurso religioso tradicional que afirma que 'o gay pode ser tudo, menos cristão'".

"Acho que esse show promove a ideia de que é perfeitamente possível ser gay e viver uma vida santificada se a pessoa decide trilhar a vida dentro dos princípios bíblicos", diz Holder, ao lado da esposa.

Rosania conta que recebeu convites para continuar a carreira como cantora "secular". "Eu decidi permanecer fiel a minha vocação na música gospel como uma mulher lésbica, mesmo enfrentando muitas portas fechadas no meio evangélico tradicional", diz.

No show, ela foi acompanhada por 14 músicos --alguns fazem parte de sua igreja. A direção musical é assinada pelo maestro Fábio Fagundes, com formação que passa por piano, canto lírico e canto popular.

Um dos pontos altos do concerto foi a apresentação da música "Promete e Cumpre", do repertório antigo de Rosania, que deixou o público de pé cantando o refrão por quase cinco minutos.

O show, que custou R$ 40, reuniu principalmente casais de gays e lésbicas que fazem parte da Cidade de Refúgio, embora a igreja não esteja oficialmente envolvida com o espetáculo. A denominação conta com 15 sedes no Brasil e uma em Lisboa.

Um dos fiéis mais animados na plateia do Theatro Municipal era o servidor público Davi Gouveia, 27, frequentador de uma sede da igreja em São José do Rio Preto (SP).

Criado em "berço evangélico", Davi conta ter se sentido "excluído" das igrejas frequentadas pela família.

"A igreja (Cidade de Refúgio) me ajudou a quebrar barreiras internas e externas. Passei a lidar melhor com o julgamento alheio, e hoje consigo olhar com amor para aqueles que me criticam. Acho que eles podem ter as mesmas dificuldades de autoaceitação que eu já tive", diz Gouveia, na saída do show.

A agricultora Mara Favoreto, 51, viajou de Londrina para assistir, ao lado da esposa, à estreia de Rosania Rocha no Theatro Municipal.

Ex-católica, Mara se tornou evangélica ao entrar para a igreja de Rosania e Lanna Holder há três anos.

"Eu vivia tentando buscar saídas para os meus desejos, achando que iria para o inferno. Algumas más interpretações históricas da Bíblia levaram à condenação da comunidade LGBT. Mas a mensagem de Jesus sempre foi de inclusão. Ser gay, por si só, não é pecado", diz.