Suspensão da vacina da dengue do Butantan cria incerteza sobre ritmo de imunização em massa
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A decisão de interromper o uso da vacina da dengue fabricada pelo Instituto Butantan criou incertezas sobre o ritmo do plano de imunização em massa contra a doença. O anúncio da suspensão foi feito nesta segunda (8) pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, após o registro de 42 casos de reações adversas severas e duas mortes.
Eder Gatti, diretor do PNI (Programa Nacional de Imunizações), disse durante o anúncio que não há dúvidas sobre a eficácia da vacina e que a medida foi tomada por precaução, para avaliar os casos com "sinais de alerta" após a aplicação de mais de 500 mil doses.
O ministério da Saúde enfatizou que os eventos são raros, correspondem a 0,008% das doses aplicadas, e que não está certo o vínculo entre o uso da vacina e as duas mortes.
A Butantan-DV é a principal aposta do SUS (Sistema Único de Saúde) para proteger a população em uma estratégia de longo prazo. Além de ser aplicada em dose única, existe a expectativa de ampliar o contrato, que prevê entrega de 3,9 milhões de doses até o fim de 2027, para cerca de 60 milhões de vacinas.
O cenário de vacinação em massa, porém, depende da conclusão da análise sobre possíveis reações adversas do imunizante. A Saúde afirma que não há prazo para apresentar os resultados, enquanto o Butantan reconhece que irá reavaliar o ritmo de produção das doses.
"O tempo é o tempo necessário para que se conclua a investigação. Por isso a gente não coloca um prazo. Vamos cobrar diariamente o que está acontecendo [na investigação]", afirmou Padilha.
"Quanto mais rápido estiver concluída a investigação, com definição sobre uso da vacina, melhor para nós", disse.
O salto na produção da Butantan-DV passa por parceria do Butantan com a empresa chinesa WuXi Vaccines. O uso das vacinas feitas no laboratório estrangeiro ainda depende de certificações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
A decisão de suspender temporariamente envolveu debate de órgãos ligados ao PNI, com participação da Anvisa, secretarias locais de saúde e especialistas.
Antes de tornar pública a interrupção, técnicos do SUS apontaram receio de que o anúncio se misturasse ao debate eleitoral ao alimentar interpretações de um eventual desentendimento entre as gestões do presidente Lula (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo e aliado do clã Bolsonaro.
Para afastar essa percepção, o comunicado à imprensa foi feito pelo ministro Padilha ao lado do presidente da Anvisa, Leandro Safatle, e do diretor do Butantan, Esper Kallás. O instituto paulista é vinculado ao governo de São Paulo.
Padilha afirmou que o Butantan continuará a pesquisa clínica que a Anvisa exige para autorizar a vacinação no público com 60 anos ou mais. Hoje a vacina tem registro do órgão regulador para o grupo de 12 a 59 anos.
O imunizante do Butantan foi aprovado pela Anvisa no fim de novembro de 2025. No mês seguinte, o Ministério da Saúde assinou a compra de R$ 367,9 milhões por 3,9 milhões de doses.
Agora, o SUS terá apenas a Qdenga para a imunização contra a dengue. Em 2024, o ministério comprou cerca de 10 milhões de doses, por R$ 1,3 bilhão, da farmacêutica Takeda, que tem sede no Japão e é destinada ao público de 4 a 60 anos.
Padilha afirma que cerca de 8 milhões de vacinas já foram entregues e que o SUS deve receber mais 9 milhões de doses em 2026 e no próximo ano. A vacina da Takeda é destinada ao público de 4 a 60 anos.
As vacinas da Takeda e do Butantan custaram cerca de R$ 95 ao SUS, mas o ministério vê duas grandes vantagens no modelo desenvolvido no laboratório paulista: a imunização se dá com a aplicação de uma dose, enquanto a concorrente exige duas vacinas, e a parceria com a WuXi promete alavancar a produção.
A busca pela imunização em massa ganhou maior prioridade no SUS após a explosão de casos da dengue em 2024, quando foram registradas 6.321 mortes ? em 2026, o ministério soma 177 mortes.
O número de 2024 se converteu em crise para o governo Lula (PT) e pressionou a então ministra Nísia Trindade. Em agosto daquele ano, ela afirmou que a principal aposta do SUS era a vacina do Butantan. "A vacina é uma estratégia que vamos continuar a utilizar, mas não é a principal estratégia para 2025. Pode ser que venha a ser para 2026, a depender do desenvolvimento da vacina do Butantan", disse à época.