SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Secretário e vice na gestão de João Doria (PSDB), o hoje governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), repete em seu programa promessas da eleição passada que não foram entregues na atual gestão.

Ampliação de linhas do metrô e obras em rodovias estão entre os planos não concretizados dos tucanos e que, em alguns casos, reaparecem de forma idêntica no programa de Rodrigo quatro anos depois.

Já outras ações não concluídas e que se tornaram uma dor de cabeça para a gestão, como o Rodoanel Norte e a ponte Santos-Guarujá, são ignoradas no plano atual. Como secretário de Governo, Rodrigo foi uma espécie de gerente de Doria, responsável pela execução dos principais programas.

Em sua campanha à reeleição, ele tenta se esquivar da rejeição ao antecessor e esconde o ex-governador, mas replica em seu plano de governo boa parte das propostas apresentadas em 2018 por Doria.

Com o PSDB à frente do Governo de São Paulo desde 1995 -com breves interrupções-, Rodrigo busca dar sequência à gestão anterior e traz poucas novidades. Melhorar a gestão das Santas Casas e ampliar o Programa de Escola Integral (PEI) são medidas que já haviam sido anunciadas por Doria.

A Folha de S.Paulo analisou as diretrizes dos planos de governo de Rodrigo e de Doria entregues ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e resgatou promessas do ex-governador.

Entre as novidades, Rodrigo se compromete a criar um departamento de proteção à mulher, à criança e a grupos vulneráveis -que irá coordenar as delegacias da Mulher, dos Idosos e da Diversidade. A secretaria de Habitação, por sua vez, será transformada em uma pasta que engloba Urbanismo.

Outra cartada é a promessa de devolver à população pobre a taxa estadual paga na compra de produtos -o impacto é de R$ 1,5 bilhão. Há ainda o cartão Bom Prato, de R$ 300, aos mais vulneráveis, mas a ideia não está no plano. Segundo a assessoria, a ação consta como "transferência de renda" e será detalhada.

Rodrigo está empatado tecnicamente com Tarcísio de Freitas (Republicanos) no segundo lugar. O tucano tem 19%, e o ex-ministro soma 22%, na última pesquisa Datafolha. Fernando Haddad (PT) lidera as intenções de votos com 36%.

Quando Doria renunciou ao governo, em março, para concorrer à Presidência da República, algo que não se concretizou, a Folha analisou o andamento de 50 das suas propostas. Ele deixou 12% concluídas, 16% em estágio avançado, 28% em andamento, 20% em fase inicial e 24% não realizadas.

"O programa propõe a implantação e a ampliação do sistema de transportes de passageiros de média capacidade (tecnologia VLT) em outras regiões metropolitanas do estado e o início da implantação do trem intercidades ligando São Paulo, Campinas e Americana", diz o programa de Doria.

"Vamos ainda viabilizar os projetos, licenças, contratações e iniciar as obras do trem intercidades", afirma o plano de Rodrigo, que fala em "fomentar a implantação de VLTs nas regiões metropolitanas".

Doria prometeu levar a linha 2-verde até Guarulhos, ampliar a linha 5-lilás e estender a linha 15-prata até Cidade Tiradentes. As ações não foram concluídas, e Rodrigo as reapresentou -com a diferença de que o governador promete a linha 15 só até Jacú-Pêssego.

"Para o próximo governo, os Contornos da Tamoios serão concluídos, com mais 34 km de novas pistas", diz o plano de Rodrigo a respeito de obra também prometida por Doria.

A mesma situação acontece com a despoluição do rio Tietê e a recuperação de estradas vicinais, projetos iniciados, mas não entregues pelo ex-governador e que são listados como metas de Rodrigo.

Por outro lado, promessas que se tornaram uma espécie de mico para Doria, por envolverem imbróglios e gerarem cobranças, foram esquecidas por Rodrigo. Um exemplo é a entrega do Rodoanel Norte, que deveria ter ocorrido até 2022 e agora é estimada para 2025. A obra é símbolo de corrupção nas gestões tucanas. A construção da ponte Santos-Guarujá, travada numa briga com o governo federal, é outro caso.

Concessões anunciadas por Doria, como de estações da CPTM, da hidrovia Tietê-Paraná e de presídios, tampouco são listadas, embora Rodrigo prometa melhorias. Doria havia feito compromisso para inauguração de 17 novos Baeps (Batalhões de Ações Especiais da Polícia Militar) e 40 novas Delegacias da Mulher 24 horas -a gestão entregou dez de cada uma delas. Rodrigo não propõe novas unidades.

Depois de Doria prometer que a Polícia Militar teria o melhor salário, o que só gerou desgaste com a categoria, Rodrigo propõe apenas "dar seguimento à valorização dos policiais".

O tucano recicla ainda projetos da eleição passada. Em áreas prioritárias, como educação, as promessas visam a dar sequência à ampliação do PEI e à manutenção do auxílio financeiro Bolsa Permanência.

Uma das principais apostas de Doria para a área, as unidades com PEI quase quintuplicaram desde 2019, passando de 417 para 2.050 em 2022. Um avanço que desencadeou na falta de vagas para milhares de alunos do 1º ano na capital, problema revelado pela Folha e que não ocorria havia anos.

Ainda na educação, o outro compromisso de Rodrigo é o que descreve como consolidar a nova carreira, projeto de lei sancionado por Doria e que reajustou o piso salarial dos educadores -a classe passa a integrar o regime de remuneração por subsídio, o que exclui a incorporação de gratificações e bônus.

Rodrigo, assim como fez Doria, também se compromete a implantar uma cultura digital em todas as escolas, incluindo aulas de robótica.

Na área de saúde, o governador elenca a implementação da telemedicina, uma promessa antiga de Doria, além de auxiliar as gestões das Santas Casas. Em nota, a assessoria do tucano diz que "não se trata de reciclagem de propostas" e que "não há repetição, mas evolução e consolidação de políticas públicas".

"Políticas públicas são uma continuidade com inovação e ampliação no atendimento às demandas da população. São Paulo chegou a este patamar de excelência na oferta de serviços públicos porque dá continuidade e inova naquilo que serve à população", afirma. "Prova maior é que os candidatos adversários também trazem esses mesmos projetos nos seus planos."

A assessoria diz que, no caso do PEI, "o governo atual cumpriu a promessa de ampliar e, como proposta, seguiremos a ampliação até a universalização", além de ressaltar que a oferta de ensino técnico para todos os estudantes do ensino médio é uma inovação do plano de Rodrigo.

Em relação à nova carreira, a assessoria diz que os professores podem aderir até 2024 e que a lei prevê etapas de regulamentação na próxima gestão. Telemedicina, apoio às Santas Casas e valorização das polícias são ações contínuas e permanentes, de acordo com a assessoria.