SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Soraya Thronicke (União Brasil-MS), 49, candidata a presidente da República, afirma se preocupar com a ameaça que Jair Bolsonaro (PL) representa para a democracia, mas considera um absurdo a estratégia do PT de usar esse tema para pregar o voto útil nesta reta final de campanha.

"O voto útil é mais uma forma de enganar a população. O primeiro turno existe justamente para que as pessoas possam escolher, e o Luiz [Inácio Lula da Silva] está causando medo naqueles que não gostam do Jair", diz.

Senadora eleita em 2018 como apoiadora de Bolsonaro, Soraya continua se classificando como anti-PT, mas se afastou do presidente e se tornou crítica dele. Com 2% de intenções de votos de acordo com a última pesquisa Datafolha, prefere não tratar do segundo turno.

Soraya foi lançada de última hora na disputa presidencial, após o presidente da União Brasil, deputado Luciano Bivar (PE), ter desistido de sua própria candidatura ao Planalto --resultado de uma aproximação com o PT que não vingou.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, ela diz que R$ 10 mil em dinheiro vivo é pouco. A quantia constou de declaração de bens de 2018. Na deste ano, a cifra saltou para R$ 250 mil em espécie. "Eu costumo ter. A gente sempre tem algum recurso em dinheiro para qualquer necessidade. Para pagar funcionário, alguma coisa assim. É absolutamente natural."

Soraya também falou sobre imposto único federal, machismo na política e violência de bolsonaristas.

PERGUNTA - Muitos especialistas apontam Bolsonaro como um risco para a democracia. A sra. concorda com esse diagnóstico?

SORAYA THRONICKE - Muitas declarações dele nos fazem acreditar que alguma coisa ele abalou, sim, dentro dos três Poderes, das instituições. Ele não é o conservador que diz ser. Estamos preocupados. O mundo lá fora também está olhando com olhos desconfiados. Certas alegações dele indicam que precisamos estar atentos.

Quais alegações e comentários?

S.T. - Ao longo desses três anos, são tantas coisas... O que eu tenho aqui para dizer é que me preocupa. Ele permite que seus apoiadores falem em fechar o Congresso. Alguns se manifestam sobre AI-5 [ato institucional da ditadura], sobre fechar o STF [Supremo Tribunal Federal]. E um grande líder deveria dizer o seguinte: "Não quero faixas sobre isso, porque causa instabilidade dentro do nosso país".

Esse mote da ameaça à democracia tem sido usado pelo PT para intensificar a campanha pelo voto útil em Lula. Como a sra. vê essa iniciativa?

S.T. - Acho um absurdo. O voto útil é mais uma forma de enganar a população. O primeiro turno existe justamente para que as pessoas possam escolher, e o Luiz está causando medo naqueles que não gostam do Jair. Isso é inadmissível.

A sra. hoje tem muitas divergências com Bolsonaro, mas foi apoiadora dele em 2018. O que mudou?

S.T. - Para mim e para o meu partido, nada mudou. Essa pergunta tem que ser feita para o candidato Jair. Porque achávamos que estávamos identificados dentro de uma bandeira. Estávamos no PSL, um partido de DNA liberal na economia. Nós levantamos a bandeira do combate à corrupção, do mercado liberal, de transparência. Eu permaneço no mesmo partido [a União Brasil resultou da fusão do DEM com o PSL]. Quem tem que responder por que abandonou os seus eleitores é ele, não eu.

Para ficar em um desses temas: em 2018, a sra. tinha motivos para acreditar que Bolsonaro era liberal na economia?

S.T. - As pessoas mudam. Eu mesma já fui muito mais radical dentro do liberalismo; hoje eu vejo que, em certas questões, a gente precisa flexibilizar, porque a realidade de liberdade econômica que se coloca em outro país não é a mesma que a nossa. E eu entendi que ele havia evoluído, que ele havia estudado, que ele havia compreendido.

Muita gente que deixou de ser bolsonarista se tornou alvo de militância nas redes sociais, mas não só nelas. Como tem sido a sua experiência?

S.T. - Eu nunca fui bolsonarista. Eu apoiei Bolsonaro. Eu fui anti-PT. Mas Bolsonaro não tem uma filosofia que eu tenha algum dia abraçado. A filosofia que eu abracei, e que Bolsonaro disse ter abraçado, é a de uma direita racional, consciente. A pauta econômica independe de questão ideológica. O Bolsonaro virou o bolsonarismo para aquelas pessoas que precisam de um mito, de um Messias. E não é isso que eu fui.

E sim, eles são muito violentos nas redes sociais, muito covardes na briga política. Não conseguem discutir de forma educada, urbana, democrática. A gente perde realmente a segurança, [mas] eu não vou deixar de falar. Não vão me amedrontar. Não vou deixar que gente desse tipo faça isso em nome da liberdade de expressão e em nome de Jesus.

No debate entre os presidenciáveis, chamou a atenção quando a sra. disse que sabia muita coisa sobre Bolsonaro. O que a sra. sabe?

S.T. - Um legislador legisla e fiscaliza. Cada questão que eu fiscalizo, eu mando para o órgão competente. Tem muita coisa tramitando no TCU [Tribunal de Contas da União], no Ministério Público. Então eu soltei um simples fato de bastidor, que não significa necessariamente um crime ou nada desse tipo. Tem coisas que a gente pode revelar, mas tem coisas que a gente tem que deixar para os órgãos.

Na declaração de bens da eleição de 2018, a sra. disse ter R$ 10 mil em dinheiro vivo, nada além disso. Agora, na declaração deste ano, são R$ 783 mil em bens, no total. O que explica o salto?

S.T. - Naquele momento, na correria do registro da candidatura [em 2018], o contador colocou apenas o que eu havia declarado em dinheiro vivo. O restante do meu patrimônio ele não colocou. Eu tentei retificar, mas não dá para fazer igual ao Imposto de Renda.

O valor [total] é praticamente o mesmo [em 2018 e 2022]. Mesmo que assim não fosse, só o salário do Senado já permite que eu tenha amealhado isso. Mas [o patrimônio] tem origem. Diferentemente de muita gente que compra em dinheiro vivo 51 imóveis. A gente vai ter que perguntar para essas pessoas: o que é isso?

Por que tem político com dinheiro vivo? R$ 10 mil é uma quantia grande. E, na prestação atual, a sra. declarou R$ 250 mil em dinheiro vivo.

S.T. - Agora são R$ 250 mil. É bastante. É o que eu tinha em dinheiro vivo no momento da declaração. E por que fiz isso? Faz mais de dois, três meses que estou fora de casa. A gente ajuda o meu sogro, sogra, familiares. Nós deixamos recursos ali em mãos para que eles pudessem utilizar numa emergência.

Então assim, declarei. É possível, não é proibido por lei. Sabia disso, né? R$ 10 mil é pouco, é permitido. Eu acho pouco. Mas eu costumo ter. A gente sempre tem algum recurso em dinheiro para qualquer necessidade. Para pagar funcionário, alguma coisa assim. É absolutamente natural; se não fosse, eu sequer declararia. Não há proibição, não há problema nenhum.

Mas eu precisei me ausentar por um longo tempo e deixei tudo pronto, se a minha família precisar. Para compras do dia a dia, para tudo isso. Porque a gente não tem condição sequer de fazer um Pix, porque não dá tempo.

O imposto único é uma das principais bandeiras de sua campanha. Pelas contas de vocês, seria possível manter a arrecadação atual?

S.T. - Os cálculos têm sido feitos há muito tempo, capitaneados pelo professor Marcos Cintra, que é meu vice. Ao longo desses 30 anos de estudo, o que foi possível deixar amadurecido para que isso passe no Congresso: [unificar] 11 tributos federais, apenas os federais. Nós excetuamos importação e exportação e o Imposto de Renda. Inclusive contribuição para o INSS [entraria].

Todos eles foram estudados a ponto de conseguir manter a mesma arrecadação. A proposta é simples, mas revolucionária. Qual foi a grande sacada? A arrecadação é X, só que quem paga esse X hoje é 70% da população. Os 30% sonegam, estão na ilegalidade ou na informalidade, tem lavagem de dinheiro, tem evasão de divisas.

O cálculo foi o seguinte: cobrar esses 11 tributos de 100% da população. Como? Digitalmente, pela movimentação financeira, com uma alíquota de 1,26%.

É um imposto que não é declaratório. É uma forma de cobrança moderna, que nada tem a ver com a CPMF, pelo amor de Deus. Marcos Cintra, quando era deputado federal, votou três vezes contra a prorrogação da CPMF. A única coisa que sobra da CPMF é a lição de que arrecadar pelo meio digital funciona.

Por que insistir numa proposta estudada há 30 anos e que não foi implementada por nenhum governo?

S.T. - Ela vem sendo estudada, mas nunca foi proposta da maneira [atual]. Lá atrás, a ideia era fazer um imposto nacional, com as três esferas. A gente propõe, de início, somente na esfera federal. Dentro desse pacote econômico, nós teremos duas propostas revolucionárias [além do imposto único].

Como eu disse, nessa substituição [de impostos] entra também a contribuição previdenciária. Então, o desconto na folha de pagamento do INSS, ele não haverá mais, porque vai ser bancado pelo imposto único. Só aí eu já desonero a folha de pagamento em, no mínimo, 7,5%.

E mais: iremos isentar todas as pessoas que ganham até 5 salários-mínimos do Imposto de Renda retido na fonte. O percentual de brasileiros que ganha até esse valor é 70% da população. Vai ser uma injeção na nossa economia.

Outro cerne do nosso pacote econômico é compensar dívida ativa dos empresários com geração de novos postos de trabalho. E começaremos nossa reforma na educação valorizando os professores: nenhum vai pagar Imposto de Renda.

Como tem sido a experiência da sra. como mulher na política?

S.T. - Eu não sou muito de mimimi nem de chororô. Tem muito homem que é. Eu não gosto de ver nada por uma vertente vitimista. Mas eu confesso que, muitas vezes, o machismo é velado. Os partidos têm que tomar conta disso e não permitir.

Eu presido a União Brasil Mulher e estou trabalhando para coibir dirigentes estaduais que combinam uma coisa com uma mulher e não cumprem. Outros partidos também estão sofrendo [para] proibir candidaturas laranjas.

[A mulher] tem que ter uma força maior [na política]. Para se impor, tem que estudar em dobro. Falei na tribuna que somos muito bem tratadas no Senado. Mas não nos dão relatorias de poder. Isso ainda é muito velado, e isso é machismo.

RAIO-X

Soraya Thronicke, 49

É senadora pela União Brasil de Mato Grosso do Sul e candidata a presidente da República. Nascida em Dourados (MS), é advogada formada em direito pela Unaes (atual Centro Universitário Anhanguera de Campo Grande). Ganhou notoriedade com as manifestações contra Dilma Rousseff (PT).

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