BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro Fábio Faria (Comunicações) lamentou nesta quarta-feira (21) o debate eleitoral de 2022 por, segundo ele, focar demais no comportamento do presidente Jair Bolsonaro (PL) em detrimento de discussões sobre programas para o país.

Segundo ele, a disputa deve ir ao segundo turno, o que contraria o discurso otimista do próprio presidente, que falou em vitória já em 2 de outubro.

"Nunca vi nenhuma possibilidade, em nenhum momento passou pela minha cabeça a possibilidade de a eleição ser [resolvida] no primeiro turno", afirmou ao responder sobre a tentativa de não deixar o PT vencer já na primeira etapa.

A declaração de Faria foi dada em participação no Spaces da Folha de S.Paulo no Twitter, espécie de programa de rádio veiculado na rede social.

Na conversa, que durou 1h28 e contou com a participação de 1,2 mil ouvintes, ele descartou haver uma nova medida em estudo no governo que funcionaria como uma "bala de prata" na economia para tentar a vitória na reta final.

O ministro criticou o clima de "salto alto" na campanha petista ao Palácio do Planalto.

Bolsonaro havia afirmado no último domingo (18) que, se não vencer já em 2 de outubro, seria porque "algo de anormal" teria acontecido. "Se nós não ganharmos no primeiro turno, algo de anormal aconteceu dentro do TSE", afirmou Bolsonaro em entrevista ao SBT em Londres, para onde viajou para acompanhar o funeral da rainha Elizabeth II.

Entre as vantagens da campanha na segunda etapa das eleições, estariam o maior tempo na televisão e o apoio de prefeitos que não podem mencionar apoio em Bolsonaro neste momento para não perderem votos, na avaliação do ministro.

Faria falou em diferentes momentos que o debate eleitoral tem se voltado a discursos do presidente em vez de serem analisados outros aspectos que o ministro julga mais relevantes.

"Isso é uma batalha perdida nossa. A gente está discutindo muito mais isso do que as coisas importantes que estão sendo feitas pelo país. Está ganhando o debate quem está indo para um nível raso", afirmou.

"Essa campanha está sendo decidida em comportamento, não em corrupção [ou] em quais são as entregas de cada pasta. A gente está tratando só das coisas que o Bolsonaro falou", disse.

O ministro usou como exemplo declarações de cunho machista dadas por Bolsonaro, dizendo que os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PDT) já se manifestaram também dessa forma e foram alvo de críticas mais leves por parte da imprensa e da opinião pública.

Faria também defendeu o presidente de críticas pelo coro do "imbrochável" no Sete de Setembro --afirmando que o mandatário quis dizer, no episódio, que era "resiliente" no cargo. "Levaram para um lado sexual", afirmou.

Apesar de lamentar o tom do debate, Faria afirmou que tem convicção que Bolsonaro vencerá as eleições.

Segundo ele, na última semana levantamentos no Nordeste teriam começado a indicar uma melhora para Bolsonaro devido ao pagamento da segunda parcela do Auxílio Brasil de R$ 600 --mesmo assim, ele reconhece que Lula tem vantagem na região e diz que o cenário se justifica, entre outros fatores, pelo fato de os estados terem governadores mais alinhados ao PT.

Perguntado se a fala do ministro Paulo Guedes (Economia) nesta quarta negando a fome de 33 milhões de pessoas atrapalha a campanha, Faria minimizou. "Não sei se politicamente isso é positivo ou negativo, mas ele internamente já contestava esse número. Isso é só questão de números que ele discorda", disse.

Faria afirmou que a estratégia na reta final da campanha vai continuar basicamente a mesma, de tentar comparar o governo atual com os anteriores.

A diferença agora, disse, é que a campanha deve focar o Sudeste pelo fato de a região ter tido mais eleitores de Bolsonaro em 2018 --e que podem ser mais facilmente reconquistados do que em outras regiões. "O Sudeste é o foco na reta de chegada mesmo", disse.

Segundo ele, Bolsonaro deve participar dos debates promovidos por SBT e Globo. "É uma oportunidade para ele falar fora da bolha, para pessoas que muitas vezes só veem notícias negativas", disse.

Ele aproveitou para criticar o ex-presidente Lula, rival de Bolsonaro na campanha, pelo fato de a campanha petista ter sinalizado que ele não vai ao debate promovido pelo SBT (um motivo seria que a emissora, do sogro do ministro, não seria confiável para Lula).

"Isso [a resistência à emissora] não é verdade. O Lula neste momento está no SBT dando entrevista para o [apresentador] Ratinho enquanto estamos dando entrevista aqui", afirmou. "Acho que a decisão é outra. É salto alto. Minha aposta pessoal é que de última hora ele vai, porque ele sabe o peso que tem uma cadeira vazia e, por ser o primeiro colocado, sabe que vai ser atacado sem estar presente", disse.

O programa da Folha está sendo veiculado de segunda a sexta-feira às 21h15 no Twitter e tem o comando dos jornalistas da sucursal de Brasília Thaísa Oliveira, Julianna Sofia e Ranier Bragon.

Da entrevista com Faria, participaram também a diretora da sucursal Camila Mattoso, o colunista Bruno Boghossian e a repórter Marianna Holanda.