SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Envolvidos com mais frequência em questionamentos sobre corrupção em debates e sabatinas, o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) têm evitado o tema em seus canais oficiais no YouTube.

Os dois candidatos à Presidência mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto dão maior destaque na plataforma a assuntos relacionados à economia, a exemplo do que fazem seus principais concorrentes, Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB).

É o que revela uma análise realizada pela Folha a partir das transcrições dos 606 vídeos publicados pelos principais postulantes ao Planalto nos seus canais oficiais durante o primeiro mês da campanha eleitoral.

Nas eleições de 2022, o YouTube ganhou especial importância, pois é usado pelas candidaturas também para testar conteúdos que poderão ser veiculados na televisão.

No geral, os candidatos não abordam assuntos tão diferentes, com clara preferência pela economia. O tema domina mais de 40% dos programas de Bolsonaro, Lula e Ciro, e cerca de 34% daqueles no canal de Tebet. Costumes, educação e segurança aparecem em um segundo patamar.

Em relação ao tempo dedicado, poucos temas diferenciam significativamente os candidatos. Personagem de destaque na CPI da Covid, Tebet é quem mais fala sobre saúde, por exemplo. Esse tópico ocupa 12% do conteúdo da senadora, o dobro em relação aos demais.

Assuntos frequentemente visitados por Bolsonaro em comícios e conversas com apoiadores, os costumes e a segurança ocupam, respectivamente, 18% e 12% de seus programas no YouTube. Os percentuais são bem próximos aos de Lula nessas duas áreas.

Além da corrupção, outros dois tópicos dividem os candidatos em lados diferentes. Ciro e Tebet também falam mais sobre questões sociais, como desigualdade e minorias, enquanto Lula e Bolsonaro deram mais importância aos eventos do último 7 de Setembro.

A análise individualizada das falas é que mostra as principais diferenças entre as campanhas. Na seara econômica, por exemplo, vídeos de Lula e Bolsonaro trazem trechos em que eles trocam farpas entre si e exaltam feitos de seus governos.

"No tempo do Lula, o gás custava menos de R$ 40. Com Bolsonaro, o preço do gás explodiu: quase R$ 120", afirma um programa do petista.

"Neste ano, a inflação brasileira vai terminar menor que nos Estados Unidos, na Alemanha e na Inglaterra [...] Você lembra alguma vez na história em que isso tenha ocorrido?", diz depoimento publicado no canal do atual presidente.

Ciro e Tebet, por sua vez, destacam promessas de campanha como a "lei antiganância" (que regularia juros de dívidas) e uma reforma tributária, respectivamente.

Quando o assunto é corrupção, Tebet e Ciro lembram casos que eclodiram durante os governos dos adversários.

"Eu vi um escândalo na compra de vacinas, como se a vida pudesse custar um dólar", diz a emedebista. "Chega de explorar a miséria para fins eleitorais dos corruptos de direita e de esquerda", afirma o pedetista.

Lula e Bolsonaro evitam menções ao tema. Nos raros trechos em que o fazem, tentam se defender de ataques e trocam acusações.

As campanhas de Ciro e Tebet são as que mais se valem de jingles e trechos de músicas, em pouco mais de 50% dos vídeos publicados. Lula usa esse recurso em 34% das peças, e Bolsonaro, em 28%.

Ciro Gomes é, com distância, o candidato que mais aposta em volume no YouTube. Em 31 dias de campanha, ele publicou um total de 331 vídeos com duração média de 55 minutos, elevada pela grande quantidade de transmissões ao vivo realizadas a partir da terceira semana de campanha.

No total, o pedetista publicou 271 horas de conteúdo falado. O canal de Lula soma 43 horas, e o de Tebet, 11. Bolsonaro foi quem menos se apoiou na plataforma, com apenas 4 horas de material.

Por outro lado, Bolsonaro tem ampla liderança no número de usuários alcançados, com 3,8 milhões de inscritos. Lula e Ciro aparecem próximos, com 583 mil e 511 mil, respectivamente, e Tebet tem somente 13,8 mil inscritos.

Os canais dos presidenciáveis contêm não apenas programas e clipes gravados para o horário eleitoral de rádio e televisão, mas também depoimentos de terceiros e trechos editados de entrevistas, debates e comícios, entre outros.

Na avaliação do cientista político Leonardo Barchini, pesquisador da Consultoria Arquimedes e do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) da FGV, a seleção de conteúdos para a plataforma é bem representativa em relação às intenções dos candidatos e suas equipes.

"O YouTube é muito importante, especialmente pela audiência aos fins de semana, nas Smart TVs e no recorte [do eleitorado] acima de dois salários mínimos. Ele faz parte do ecossistema digital de uma campanha e dialoga com as outras plataformas. O que muda é o formato e a linguagem, mas todas as redes seguem uma linha mestra da campanha", diz.

Sobre a economia como tema prioritário, Barchini afirma que, desde o início do período eleitoral, já havia unanimidade entre as cúpulas de que este seria o principal embate do pleito. Ele diz que o atual presidente precisou priorizar o assunto para conter ataques.

"Bolsonaro toma medidas mais eleitoreiras de última hora para tentar reverter as críticas. A economia no pós-pandemia de fato melhora, mas essa sensação demora a chegar ao cidadão. O Auxílio Brasil, mesmo com o aumento para R$ 600, não se traduziu em subida nas intenções de voto. Então, há uma obsessão em acelerar uma narrativa de que a economia já melhorou."

Quanto ao volume publicado por Ciro, o pesquisador vê relação com uma premissa central da campanha do pedetista. "Ele não tem a mesma exposição de Bolsonaro, enquanto presidente, nem de Lula, como líder nas pesquisas. E tem essa concepção de que ele vai convencer as pessoas por ser mais inteligente, falando mais e mostrando o programa dele."

Para a análise, foram selecionados todos os vídeos publicados pelos quatro candidatos numericamente mais bem posicionados na última pesquisa Datafolha, em seus canais oficiais no YouTube, durante o primeiro mês da campanha.

O material contém ao todo 329 horas de conteúdo falado, difundidas na plataforma entre os dias 16 de agosto, quando começou oficialmente o período eleitoral, e 15 de setembro.

A partir da transcrição dos vídeos, a Folha utilizou um modelo estatístico para categorizar os principais temas e calcular suas proporções em cada canal. O modelo leva em consideração o tempo de conteúdo disponível por candidato para equilibrar os cálculos comparativos.

As transcrições foram realizadas de forma automatizada. Estão incluídas as frases ditas por narradores, convidados e interlocutores -como em trechos de entrevistas e outros diálogos- e não apenas as declarações dos próprios candidatos.