Juiz de Fora - MG

Especialistas trazem à tona os problemas de insegurança em Juiz de Fora

O tráfico de drogas é apontado como um dos principais gargalos da cidade, acompanhado de roubos, estelionato e crimes contra o patrimônio

Nathália Carvalho
Repórter
16/8/2012
Insegurança

Para fechar a série de reportagem do Portal ACESSA.com, que tem como objetivo apurar possíveis falhas, problemas e apresentar propostas para diferentes segmentos que constituem a cidade, nesta quinta-feira, 16 de agosto, questões relacionadas à segurança e criminalidade serão tratadas e analisadas por autoridades e especialistas do setor.

De acordo com dados fornecidos pela Polícia Militar (PM), a cidade de Juiz de Fora possui uma taxa de homicídio de 7,02% para cada 100 mil habitantes. No primeiro semestre deste ano, houve uma redução de 13,33% nos casos, se comparado ao mesmo período do ano passado. No último levantamento realizado pelo Ministério da Saúde (MS), foi demonstrado que a taxa deste crime oscilou entre 9,4% e 12,2% entre 2000 e 2010, e que a cidade está na 145º posição brasileira em número de homicídios registrados.

Com relação à violência, o MS registrou mais de 100 atendimentos de crianças e adolescentes, entre 0 e 19 anos, o que representa uma taxa de 37,7% de violência física e 17,1% de violência sexual. Entre as mulheres, o órgão revelou que 359 casos de violência feminina foram contabilizados até junho deste ano, com uma taxa de 131,9%. Já em número de roubos à mão armada, houve redução, segundo a PM, de 36,25% nos estabelecimentos comerciais e 40% nas residências, também na comparação dos primeiros semestres de 2011 e 2012. Já o roubo à residência teve aumento de 25% e o furto de 19%.

Para o assessor de comunicação organizacional da PM, major Sebastião Perpétuo Justino, estes números retratam uma avaliação positiva da cidade. "Vemos com bons olhos o baixo índice de homicídio e as constantes reduções de casos de roubos e furtos. É possível afirmar que Juiz de Fora é uma das cidades mais seguras do país, quando comparamos as estatísticas com outros municípios do mesmo porte", afirma.

Porém, o cientista político e coordenador do Núcleo de Pesquisa sobre violência e políticas de controle sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), André Moysés Gaio, acredita que os números oficiais não são robustos e são incapazes de detalhar precisamente o que acontece nas cidades. "O resultado das investigações é ruim. Em São Paulo, por exemplo, o estado mais equipado para realizar investigações, leva apenas 2% dos homicidas ao júri por ausência de investigação correta", explica.

Justino explica que a Polícia Militar tem realizado constantes trabalhos de prevenção à criminalidade e ao tráfico de drogas na cidade. "O trabalho integrado com a Polícia Civil, as políticas de prevenção e combate ao tráfico de drogas, como o Região Segura, por exemplo, e o serviço de inteligência da polícia, vêm contribuindo para melhorar a segurança local." Além disso, ele comenta o trabalho realizado em parceria com a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), o Ambiente de Paz, que tem o objetivo de oferecer uma presença real da PM nas ruas da cidade paralelamente à realização de políticas públicas ligadas às questões de infraestrutura.

Principais problemas

"O nosso maior problema continua sendo o tráfico de drogas, que acaba gerando os demais, contudo, a nossa situação não é uma exceção no país. O tráfico vem acompanhado do arrombamento, estelionato e furto, os três maiores crimes registrados pela PM", aponta Justino. Em contrapartida, Gaio afirma que não existem dados que confirmem as relações entre os crimes e a droga, embora as autoridades lancem tal relação. "A droga continua sendo o representante do mal, mas isso é uma tentativa de repetição do fenômeno do Rio de Janeiro para outras cidades", rebate.

O cientista político entende que os principais crimes registrados em Juiz de Fora estão relacionados com as lesões corporais. "É uma questão secundária para as autoridades da região, mas é um fato preocupante. Os mais comuns são aqueles crimes contra o patrimônio, roubos e furtos", explica. Neste quesito, Gaio acredita que o gargalo da cidade estaria relacionado com a ausência de políticas preventivas criadas pelo município. "Espera-se a ação do Estado de Minas, mas os programas acabam concentrando-se na região metropolitana de Belo Horizonte. Não há prevenção sem a participação do município, segundo a visão contemporânea e sofisticada de quem pensa a política criminal." Ele comenta, ainda, que em suas pesquisas desenvolvidas a respeito da segurança em JF, há expectativa de que aumente o número de homicídios este ano. "Ainda não sabemos ao certo estes números, mas é algo preocupante. Para se ter uma ideia, houve um acréscimo da circulação de armas de fogo. Um revólver calibre 38 sai por R$ 300. E não sabemos de onde vem esses materiais."

A opinião da PM é compartilhada, de certa forma, pelo membro do Conselho Municipal de Segurança Norte e presidente do Conselho Local de Saúde, Carlinhos Mendes. Ele, que é morador do bairro Benfica, acredita que o problema da dependência química é forte na cidade. "O usuário de drogas rouba e mata para poder conseguir o que quer. Temos que entender que esse não é um problema apenas da polícia, mas sim de toda a sociedade, que deve contribuir para a redução dos crimes, que pode ser feito através da participação nas associações de bairros e decisões do governo."

Já para o diretor regional do Sindicato dos Servidores de Polícia Civil (Sindpol), Marcelo Armstrong, o maior problema de Juiz de Fora é o déficit de policiais civis. Atualmente, a cidade conta com um corpo de 200 profissionais, em um total de nove mil em Minas Gerais, sendo que 30% estão afastados. "A PC do estado está sucateada, já venho denunciando isto há anos. Trabalhamos com um efetivo dos anos de 1990, isso não supre nada. O ideal era termos um policial para cada mil habitantes, ou seja, no mínimo 500 pessoas", argumenta.

Para ele, o problema em JF está gravíssimo e preocupante. Ele nota que os crimes vêm aumentando, apesar das estatísticas nem sempre comprovarem. "A sociedade é que sofre com essa situação. O bandido faz o crime porque sabe que não haverá punição. Como somos poucos, temos que selecionar quais crimes vamos investigar. Estamos lutando para a abertura de concurso público, pela reestruturação de carreira e aguardamos do governo uma posição com relação aos acordos e cumprimento da Lei Orgânica [que prevê aumento do efetivo da PC]". Armstrong acrescenta, ainda, que caso não haja negociação, uma possível greve não está descartada.

Iniciativas que amenizam

Para Gaio, são vários pontos que necessitam ser debatidos com relação aos problemas apresentados. "Faltam profissionais, equipamentos, instalações, tecnologia, mão de obra capacitada e combate à corrupção interna nas corporações. É um problema difícil de ser trabalhado", explica. Para ele, a situação é preocupante, especialmente quando se trata dos conflitos entre jovens, cujo início ocorre nas escolas e a orientação das autoridades é de esconder os números para evitar a estigmatização das instituições. "Falta investir massivamente em mediação de conflitos", argumenta.

Armstrong concorda com a afirmação e acredita que o investimento continua sendo a principal saída para a amenização dos problemas. "A Polícia Civil só atua quando a PM falha. Mas, como não temos o número suficiente de profissionais, nem sempre conseguimos atender a demanda." Já Justino acredita que a solução do problema não esteja relacionada apenas ao número de profissionais. "Deve haver um trabalho integrado entre as polícias visto que a redução do crime está ligada à estratégia policial eficiente, ao acompanhamento e ao monitoramento dos alvos. Não é o número de pessoas que trabalham e sim, a qualidade desse policiamento", afirma.

Carlinhos também chama a atenção para o trabalho policial. "Os esforços da PM têm surtido efeito na Zona Norte, por exemplo, mas não é o suficiente. Precisamos de mais viaturas e policiais durante a noite, quando fica mais perigoso, e principalmente, nas escolas. Aqui no bairro [Benfica], temos vários casos de assalto às escolas periféricas e os criminosos usam as crianças para realizar o tráfico, o que é um absurdo", aponta.

Dentre todos os problemas apontados, Gaio avalia que a solução esteja no desenvolvimento de políticas por parte do governo municipal. "O poder público não pode culpar o cidadão de ter sido assaltado ou furtado. A polícia avisa que temos que comprar alarmes, cercas elétricas, contratar seguranças, etc. Isso tudo reforça a sensação de insegurança e só serve para transferir a culpa dos problemas." O cientista afirma que realizou pesquisas que apontam a insegurança pública como o segundo maior problema da cidade, segundo os próprios juiz-foranos. "Agora, quero saber: qual a resposta da administração pública para este problema?", questiona.

Os textos são revisados por Mariana Benicá

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