Terça-feira, 1 de setembro de 2020, atualizada às 14h20

Depressão infantil: como identificar e cuidar    

Priscilla Rezende Silva

Dados recentes da Organização Mundial de Saúde mostram que o índice de crianças entre 6 e 12 anos diagnosticadas com depressão subiu de 4,5% para 8% na última década. Apesar da doença já ser conhecida há bastante tempo, foi somente nos anos 1970 que a área médica reconheceu a depressão infantil - antes disso os casos eram considerados raríssimos e praticamente inexistentes - e passou-se a considera-la uma forma clínica diferente daquela presente em adultos.

Os sintomas conhecidos popularmente nos adultos são: humor deprimido; perda de interesse e prazer em fazer todas as atividades que outrora lhe eram prazerosas; diminuição da concentração assim como o cansaço muito marcante, mesmo que seja após ter feito o mínimo de esforço; alterações de sono, apetite e libido; baixa autoestima e confiança; ideias frequentes de culpa e desvalorização.

Nas crianças e adolescentes os sintomas podem ser um pouco diversos. Podemos observar nos adolescentes atitudes de isolamento, rebeldia, mudança de humor, perda ou ganho de peso, sono excessivo e tristeza, comportamentos que podem ser característicos da adolescência , o que leva os pais a confundirem o que seria uma fase ou de fato uma doença, portanto, devemos ficar atentos quando esses sinais são muito frequentes e duram mais que duas semanas. Enquanto nas crianças o que mais vemos na prática clínica são os seguintes sintomas: irritabilidade, agressividade, alterações de sono e apetite, baixa autoestima, medo, crises de choro sem justificativa, oscilações de humor, ansiedade, dores físicas, perda de interesse em atividades antes prazerosas, dificuldades na escola bem como eliminação involuntária de xixi e/ou cocô durante o sono, mesmo que já tenham deixado de usar fralda há um tempo.

As causas do quadro podem ser variadas: predisposição genética; traumas, como abuso sexual ou psicológico; problemas durante a gestação; problemas na relação com os pais; falta de afeto e cuidado; separação dos pais; problemas no ambiente escolar; bullying e estresse.

O diagnóstico é feito baseado no relato da família, pelo pediatra, que deve encaminhar a criança para um psiquiatra infantil, e o tratamento psicológico normalmente é o mais indicado (às vezes é indicado também para a família). Em alguns casos, estuda-se a necessidade e viabilidade do tratamento medicamentoso. É imprescindível que a família apoie e dê suporte para que essa criança possa se desenvolver da melhor forma possível, pois caso a depressão infantil não seja diagnosticada e/ou tratada, pode permanecer à espreita, acompanhando o paciente durante a adolescência e o quadro pode assumir formas diversas como isolamento, dificuldades de interação social, transtornos alimentares, abuso de drogas, ideações suicidas e nos casos mais graves, pode levar ao suicídio de fato.

Hoje a depressão infantil é considerada uma doença grave pelo retraimento social e suas repercussões. Os pequenos se escondem em seu próprio silêncio, o que muitos adultos confundem com uma inabilidade de expressar seus sentimentos e também se retraem dos laços afetivos e da surpresa da descoberta ao brincar, uma das principais atividades da infância. Temos que acolher o sofrimento que a criança nos mostra sem rotulá-la, de forma a poder ajudá-la com afeto e responsabilidade, sempre considerando cada criança como um sujeito único e particular.

Priscilla Rezende Silva, psicóloga clínica graduada pela UFJF, psicanalista formada pela Sociedade de estudos psicanalíticos de Juiz de Fora. Mestre em Psicologia pela UFJF, especialista em Saúde mental pela AVM, atuação em consultório particular com bebês, crianças adolescentes e adultos.

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