Juliano Nery Juliano Nery 25/4/2013

Os "bençoe"

IlustraçãoFoi quando fazia o trajeto fixo para Barbacena que tive notícia do grupo. O pessoal do trabalho não se cansava de falar deles, até porque parecia que eles estavam em todo lugar. Tanta onipresença fez com que meu motorista à época também fosse um deles. E foi inclusive um fiel representante da trupe, que ora trabalha comigo, foi quem deu a pauta, o amigo, Edinaldo Guilherme, quem me deu a ideia, em uma ocasião em que almoçamos juntos na semana passada: então, porque não falar dos "bençoe"? Eis aqui essa justa homenagem a um grupo de pessoas que trabalham em obras de construção pesada Brasil afora. E o mais interessante é o vértice dessa história...

Reza a lenda que durante as obras de duplicação e reforma da BR-040, no trecho correspondente ao distrito de Correia de Almeida, no município de Barbacena, um fenômeno muito interessante aconteceu com a força de trabalho. Necessitando de grande contingente de homens para dar cabo de um projeto que envolvia pavimentação, novo traçado e abertura de pista foram contratados muitos residentes do local, que fica às margens da rodovia, bem no ponto onde aconteceria a dita obra. Não fosse apenas o fato de que muitos eram conhecidos, boa parte também tinha relação de parentesco um com o outro.

Dessa forma, as relações que se estabeleciam na obra remetiam à árvore genealógica e afetiva do bairro. Portanto, não era difícil encontrar exemplos como o do motorista da van que levava a turma para as frentes de trabalho e que era primo do apontador do turno da manhã e que era tio do ajudante. Nem do operador de rolo compressor, que era irmão do encarregado de terraplanagem e que era filho do supervisor. Achou complexo de entender? – O que à primeira vista poderia parecer alvo de muita confusão para quem era de fora, rapidamente foi simplificado com a criação do epíteto "bençoe". Mas, por que diacho eles passaram a se chamar assim, você pode estar se perguntando?

Coisa simples de resolver. É só partirmos do viés do compadrio e das relações de parentesco entre os companheiros de trabalho, além da vertente religiosa bem aflorada. Batizados que eram, muitas vezes, era comum, ouvir algo do tipo "a benção, padrinho!", seguido, automaticamente, por um "Deus te abençoe, meu filho". Era tanta benção que não podia fechar em outra coisa. A coisa se amalgamou de tal forma, que para aqueles que não eram de Correia de Almeida, os de lá, tornaram-se, simplesmente, os "bençoe".

E com o fim das atividades na BR-040, os "bençoe" seguem espalhados pelas obras Brasil afora, esbanjando competência. Aquela mesma competência com a qual saíram de Correia de Almeida e ganharam o país.

Juliano Nery acredita que Minas Gerais é mais que um Estado. É um estado de espírito. Barbacena pode ser encontrada na latitude 21° 13' 33" S e longitude 43° 46' 26" O


Juliano Nery é jornalista, professor universitário e escritor. Graduado em Comunicação Social e Mestre na linha de pesquisa Sujeitos Sociais, é orgulhoso por ser pai do Gabriel e costuma colocar amor em tudo o que faz.


* Ilustração: Lucí Sallum

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