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    Artigo
    Além da alimentação

    13/11/2001

    Características atribuídas aos alimentos
    que ultrapassam seu valor nutricional

    É comum ouvirmos as pessoas comentarem sobre as características de certos alimentos capazes de ações no organismo que ultrapassariam seu valor nutricional. Um exemplo são os alimentos considerados altamente energéticos ou “fortes” (aqueles que dão “pique”), os afrodisíacos e ainda aqueles que tem efeito relaxante no organismo.

    Alguns suplementos usados por atletas após a atividade física têm sido incluídos, erroneamente, na categoria dos energéticos. Produtos como guaraná em pó e cápsulas de vitaminas também têm sido ingeridos com essa intenção, assim como sucos de frutas altamente calóricos, como o de açaí.

    Alimento energético, de acordo com os conceitos da nutrição, é todo aquele que fornece uma grande quantidade de energia ao organismo, podendo essa energia ser ingerida na forma de gordura ou carboidrato (açúcar). Cabem nessa definição óleos, gorduras, massas, doces, grãos (cereais como o milho, trigo, arroz, aveia etc), produtos de panificação, batatas etc. Uma pessoa que tem desgaste energético intenso, através da prática de atividade física prolongada ou de alta intensidade, necessita, após o exercício, de reposição imediata de energia, assim como de água e de alguns minerais.

    A melhor fonte de energia, após atividade física ou para o preparo para um novo desgaste físico, se constitui de alimentos energéticos ricos em carboidratos (por ser de mais rápida e fácil utilização pelo organismo) e pobres em gordura (energia mais difícil e de mais lenta utilização). Por isso, massas, sucos de frutas adoçados com açúcar ou mel, pães, entre outros são a melhor opção para quem busca uma rápida reposição de energia ou se prepara para uma atividade física mais intensa.

    Isso não significa que esses alimentos “dão pique”. Eles apenas fornecem grande quantidade de energia para ser gasta ou reposta. Quando há muita gordura associada ao carboidrato, como é o caso do chocolate, do abacate ou do açaí, o efeito já não é o mesmo, pois a gordura fornece uma energia mais difícil de ser utilizada (demora mais tempo no processo de digestão e absorção). Portanto, chocolate e suco de açaí, embora altamente energéticos, não darão o efeito que se espera no fornecimento de uma fonte de energia de rápida utilização para o organismo.

    Já o guaraná em pó, por seu alto conteúdo de cafeína, acelera a “queima” de reservas energéticas que temos no organismo e que ficam armazenadas no fígado, principalmente, e no músculo. Portanto, o guaraná em pó não fornece energia extra, apenas faz com que algumas de nossas reservas energéticas (na forma de glicogênio) sejam gastas mais rapidamente, gerando a sensação de “dar pique”. Justamente por isso, o guaraná em pó não deve ser usado indiscriminadamente e o uso contínuo pode trazer conseqüências à saúde.

    Quanto às cápsulas de vitaminas ou de aminoácidos, assim como suplementos em pó à base de albumina, não devem ser usados como repositores energéticos. Vitaminas e proteínas desempenham importantes funções no organismo, mas não devem ser entendidas como fontes de energia. As vitaminas não têm essa função e as proteínas devem ser utilizadas para suas outras funções, que não são, preferencialmente, o fornecimento de energia.

    Outra atribuição que se dá comumente a certos alimentos é a possibilidade de melhorar o humor, ou dar sensação de bem-estar, de relaxamento. Um exemplo disso é o uso de alguns tipos de carboidratos, como doces e chocolates, com essa intenção. Estudos mostram que esse efeito não se deve, como se costuma pensar, à liberação de serotonina, substância responsável por algumas sensações, como a de prazer.

    Na verdade, para haver aumento na síntese de serotonina seria necessário um consumo alto de certas proteínas, o que não se obtém com esses alimentos. Pesquisas sobre o assunto mostraram que as substâncias normalmente presentes nesses alimentos, como o chocolate, não têm efeito comprovado sobre a melhoria do humor ou a sensação de prazer ou bem-estar. Mas a ingestão de alimentos saborosos mostrou ter efeito sobre a melhora do humor, provavelmente devido à liberação de endorfinas.

    Resumindo, quando uma pessoa considera um alimento saboroso, o consumo do mesmo pode levar a melhora em seu humor e, conseqüentemente, a uma sensação de prazer ou bem-estar. Portanto, a forma com que a pessoa se relaciona com o alimento (por exemplo, considerá-lo saboroso) pode interferir na sensação de prazer ou bem-estar sentida a partir do consumo do mesmo.

    Quanto aos chamados alimentos afrodisíacos, a ciência já mostrou que não há nenhuma substância alimentar, até hoje identificada, que tenha efeito comprovado sobre a atividade sexual. Segundo estudiosos do assunto, o efeito afrodisíaco atribuído a alguns alimentos deve-se mais a valores culturais relacionados aos mesmos. Pessoas em diferentes partes do mundo associaram, ao longo do tempo, algumas características de alguns alimentos, como forma, cor, sabor, cheiro com as sensações relacionadas ao prazer sexual, convencionando chamá-los deafrodisíacos. É o caso das ostras, cujo cheiro tem sido associado ao “cheiro do sexo”, possivelmente relacionado ao cheiro de algumas secreções corporais.

    Sabe-se, entretanto, que o teor de sais minerais, relativamente alto em frutos do mar, pode ter sido a base da relação dos mesmos a melhora da atividade sexual, embora tal fato não se justifique. De fato, a atividade sexual gera uma certa perda de alguns minerais (liberados principalmente através do sêmen), o que uma boa alimentação normalmente supre, sem haver necessidade de nenhuma complementação especial. Portanto, o fato de se ingerir mais alimentos especialmente ricos em sais minerais não garante uma melhor performance sexual, pois muitos outros fatores estariam envolvidos nessa atividade, como fatores psicológicos, comportamentais, entre outros.

    Muitos estudiosos acreditam que fatores ambientais estariam supostamente envolvidos nos alimentos chamados afrodisíacos. Por exemplo, uma mesa posta com alimentos preparados de forma atraente, com cheiro agradável, com forma e cores agradáveis, poderia influenciar positivamente a atividade sexual através dos estímulos sensoriais, o que também pode ocorrer com vestuários e perfumes agradáveis.

    Mas, de fato, nada disto garante a performance sexual, como se acredita, embora não se possa negar o efeito da predisposição psicológica, o que ocorre quando se acredita realmente no efeito dos chamados afrodisíacos, sejam alimentos, perfumes ou qualquer outro produto. É bom lembrar que o sentimento é, certamente, o maior atrativo na atividade sexual. Como diz Isabel Allende, em seu livro Afrodite, “o único afrodisíaco realmente infalível é o amor”.

    Baseado nisso, observamos que a incorporação de certos valores aos alimentos deve-se mais a associações feitas a partir do ambiente em que vivemos e da nossa cultura. Muitas vezes, não é o valor nutricional o que mais importa, mas sim a forma com que nos relacionamos com o alimento, achando-o, por exemplo, atraente, “forte” ou saboroso. A partir daí, ampliamos seu significado para a nossa alimentação, adquirindo este um valor que vai além da sua composição nutricional.


    Cristina Garcia Lopes
    é nutricionista formada
    pela Universidade Federal de Viçosa.
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