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    Artigo
    Alimentos funcionais - Parte II
    ::: 30/08/2002

    Entre as propriedades normalmente atribuídas aos alimentos funcionais, tem sido muito citada a ação dos mesmos na prevenção das doenças cardíacas. A ocorrência das doenças cardíacas está muito relacionada, conforme muito estudos já provaram, a um alto consumo de gorduras saturadas (gordura de origem animal), que trazem consigo grande quantidade de colesterol.

    A elevação dos níveis sanguíneos de colesterol aumenta a probabilidade de desenvolvimento de doenças cardíacas. Uma alta concentração no sangue de HDL (o chamado “bom colesterol”) é um fator de proteção contra doenças cardíacas, enquanto uma elevação do LDL (o chamado “mau colesterol”) é um grande fator de risco para essas mesmas doenças.

    As moléculas de gordura são constituídas por substâncias chamadas “ácidos graxos”. O tipo de ácido graxo que forma a molécula de gordura determina o comportamento da mesma no organismo e, conseqüentemente, maior ou menor risco para a saúde.

    O consumo de alguns alimentos funcionais mostra benefícios potenciais para a prevenção e o tratamento de doenças cardiovasculares. Entre esses alimentos, podemos citar: soja, aveia, linhaça, alho, chá preto e verde, peixes, uvas, nozes e margarina enriquecida com éster estanol e éster esterol. O papel desses alimentos na prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares está relacionado à capacidade dos mesmos em reduzir os níveis de gordura no sangue, além de diminuir a formação de placas, varrendo os radicais livres e inibindo a agregação plaquetária.

    Proteína de soja
    A eficácia da proteína de soja na redução do risco de doença cardíaca coronariana tem sido confirmada através de diversos estudos. Embora ainda não se tenha certeza de quais componentes bioativos presentes na soja sejam os responsáveis por essa função, acredita-se que os aminoácidos, peptídeos, fibras e isoflavonas presentes na soja os responsáveis por esse papel protetor.

    Quanto às isoflavonas, seu efeito tem sido atribuído à similaridade estrutural com os estrógenos dos mamíferos, os quais são capazes de reduzir os níveis de LDL (mau colesterol) e aumentar os níveis de HDL (o bom colesterol). Porém, estudos mostraram que as isoflavonas isoladas não têm esse efeito protetor, o que sugere que a associação das mesmas com outros componentes presentes na soja é que daria o efeito esperado.

    O nível diário recomendado de consumo de proteína de soja para esse fim é de 25g/dia, o que corresponde a 6 colheres de sopa de leite de soja em pó ou 180g do grão cozido ou 190g da carne de soja preparada.

    Fibra de Aveia
    O efeito das fibras solúveis, como a fibra da aveia, na redução dos níveis de colesterol do sangue já é conhecido há bastante tempo. Esse efeito tem sido atribuído à capacidade da fibra de aveia em reduzir a absorção de colesterol ou de reduzir a absorção da gordura. Novos estudos demonstraram que a fibra da aveia tem também a capacidade de prevenir a constrição das artérias, um dos primeiros indícios de doença cardíaca, quando ingerida junto a uma refeição rica em gorduras.

    Linhaça
    A linhaça tem sido alvo de novos estudos no campo da prevenção de doenças cardíacas, uma vez que esta é uma fonte importante de dois elementos fundamentais na prevenção de tais doenças: o ácido a-linolênico, um ácido do tipo omega-3, e as lignanas, uma classe primária de fito-estrogênios. O teor do ácido a-linolênico na linhaça é maior do que em qualquer outra semente oleaginosa conhecida.

    Quanto às lignanas, sua ação tem sido mais relacionada à prevenção do câncer. Estudos recentes têm procurado demonstrar o efeito da fibra linhaça em reduzir os níveis de colesterol no sangue, o que parece ser superior ao efeito de outras fibras vegetais, como a do farelo de trigo e da semente de girassol. Em alguns países, como Nova Zelândia, Austrália e no Reino Unido, pão enriquecido com linhaça tem sido utilizado com essa intenção. Embora alguns estudos já tenham demonstrado esse efeito, ainda não se sabe, com certeza, quais os componentes presentes na linhaça que seriam os responsáveis por esse efeito.

    Alho
    Outro alimento comumente associado à redução dos níveis de colesterol é o alho, do qual ainda não se conseguiu comprovar o efeito cientificamente. Ao que parece, a forma de condução desses estudos, com a utilização do alho de forma diferente da consumida normalmente pelos indivíduos, dificulta a análise dos resultados. Assim, ainda não se pode afirmar que o efeito exista ou não, com base nos estudos conduzidos até então.

    Chás
    Os chás, verde ou preto, também têm sido alvo de pesquisas sobre a redução dos níveis de colesterol no sangue. Nos chás, encontram-se compostos fenólicos, flavandióis, flavonóides, ácidos fenólicos e flavonóis, os quais têm sido relacionados a um potencial efeito anticancerígeno. Recentemente, tem se procurado identificar efeitos desses mesmos compostos na proteção de doenças cardíacas, o que já foi demonstrado em algumas pesquisas.

    Um estudo mais recente descobriu que o chá também pode prevenir arteriosclerose da aorta, ou seja, evitar a formação de placas calcificadas na aorta. Os efeitos benéficos do consumo do chá sobre a saúde do coração podem ser causados por vários tipos de ação, incluindo a inibição da oxidação do LDL, o que ainda necessita de mais estudos para comprovação.

    Nozes
    Os benefícios da ingestão de nozes e castanhas para a saúde do coração têm sido estudados desde o início dos anos 90. Outros frutos secos também têm merecido atenção, como amêndoas, macadâmias, pistácios, pecãs e avelãs. O efeito estaria ligado a uma possível redução significativa no colesterol total e na fração LDL. Estudos clínicos comprovaram que o consumo de nozes traz um efeito protetor sobre o coração (redução do colesterol total e do LDL). Os mesmos estudos não encontraram mudanças nos teores de HDL (o “bom” colesterol) ou nos triglicérides, o que mostra que o consumo desses produtos tem efeito apenas sobre a redução do colesterol.

    Uvas e suco de uvas
    Sempre despertou interesse no meio científico o fato de que os franceses, embora consumam muita gordura, apresentem a menor taxa de incidência de doenças coronarianas entre os povos ocidentais. Estudando-se a relação entre o consumo de vinho e uma redução no risco de doenças cardíacas, pesquisadores encontraram uma correlação negativa entre o consumo de vinho e uma redução no risco de doenças cardiovasculares, em homens e mulheres de 18 países, ou seja, o maior consumo de vinho estava relacionado ao menor número de mortes por essas doenças.

    O efeito é atribuído, em parte, às altas concentrações de antioxidantes fenólicos presentes nas uvas, principalmente uvas vermelhas, e que são incorporados ao vinho durante o processo de beneficiamento. As uvas contêm diversos anti-oxidantes, como a catequina, epicatequina, revertrol e proantocianidinas. O efeito dessas substâncias se deve à varredura dos radicais livres, inibição da oxidação das gorduras e da agregação plaquetária, além do efeito de relaxamento dos vasos.

    Para quem prefere evitar o consumo de álcool, algumas pesquisas estão surgindo sobre os benefícios das uvas, de vários tipos, para a saúde cardíaca. O suco de uvas comercial é comprovadamente eficaz na inibição da oxidação do LDL, melhorando também a vasodilatação. Assim, o consumo de uvas vermelhas, roxas ou pretas, além do suco feito das mesmas, pode ser uma recomendação prática para a prevenção das doenças cardíacas coronarianas.

    Ácidos graxos N-3 de óleos de peixe
    A observação de que os esquimós da Groelândia, embora consumindo carne de peixes gordurosos em grande quantidade, apresentam baixos níveis de doenças cardíacas suscitou uma série de estudos sobre a relação entre o consumo de gordura de peixe e a incidência de doenças cardiovasculares.

    Peixes gordurosos (salmão, atum, cavala, sardinha e arenque) e seus óleos são as principais fontes de dois ácidos graxos n-3 (ou ômega 3): eicosapaentenóico e docosahaexenóico. Foi sugerido que a redução dos triglicérides é um dos maiores efeitos protetores do óleo de peixe. Os ácidos graxos presentes nesse óleo também reduzem a agregação plaquetária. O consumo moderado de peixe (1 ou 2 porções por semana) tem sido associado à redução da taxa de mortalidade devido a doenças coronarianas e infarto do miocárdio entre homens brancos. Embora ainda não existam resultados incontestáveis, diversos estudos apontam nessa direção, sendo necessário que novas pesquisas sejam realizadas para se confirmar tal afirmação.

    Até o momento, não se têm dados suficientes que comprovem que os ácidos graxos n-3, derivados de peixes, possam efetuar uma regressão nas doenças cardíacas já diagnosticadas, ou seja, o efeito seria basicamente o de prevenção. Assim sendo, o consenso atual é de que a ingestão de peixe gorduroso com moderação traz benefícios à saúde do coração. Ácidos graxos poli-insaturados do tipo ômega 3 são encontrados também no óleo de soja e no óleo de canola, sendo igualmente associados à redução do LDL.

    Ésteres de esterol e estanol vegetais
    Na década de 50 foi identificada, pela primeira vez, a capacidade dos esteróis vegetais (os quais são componentes naturais de gorduras e óleos vegetais) em reduzir o colesterol. Normalmente, o consumo dessas substâncias é maior entre os vegetarianos, estando, porém, deficiente em uma alimentação rica em gordura animal e pobre em gordura vegetal.

    A estrutura dos ésteres vegetais e estanóis é semelhante à do colesterol, o que permite que esses compostos concorram com o colesterol no momento em que este está sendo absorvido pelo sistema digestivo, dificultando, assim, a sua absorção. Nenhum efeito colateral foi encontrado, até o momento, relacionado ao consumo dessas substâncias.

    Margarina contendo ésteres de estanol foi lançada na Finlândia em 1995. Nesse mesmo ano, um estudo realizado naquele país demonstrou que essa margarina, com ésteres de estanol, pode levar a uma redução significativa no colesterol total e na fração LDL em pessoas com níveis baixos de colesterol. Mais tarde, outros estudos comprovaram a eficácia do produto também em pessoas com níveis elevados de colesterol.

    A FDA, órgão que controla os alimentos no mercado dos EUA, após avaliação de todos os estudos realizados, autorizou a afirmação, em produtos alimentícios, de que o consumo de éster de esterol/ éster de estanol pode reduzir o risco de desenvolvimento de doenças cardíacas coronarianas. Várias margarinas desse tipo existem hoje no mercado de muitos países do mundo, tendo chegado recentemente ao Brasil.

    Em conclusão, o efeito de muitos alimentos funcionais na prevenção das doenças cardíacas já está devidamente comprovado, embora ainda sejam necessários novos estudos para a definição das quantidades necessárias a serem consumidas e com que freqüência, para se obter o efeito esperado.

    Com o avanço das novas pesquisas na área dos alimentos funcionais, muitas pessoas poderão se beneficiar dos efeitos desses produtos para a sua saúde, prevenindo diversas doenças, entre elas as cardiovasculares, responsáveis por milhares de mortes diariamente em todo o mundo.

    Clique aqui para ler: Alimentos funcionais - Parte I - Efeito Antioxidante


    Cristina Garcia Lopes
    é nutricionista formada
    pela Universidade Federal de Viçosa.
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