• Assinantes
  • Saúde


    Artigo
    Natal Solidário
    ::: 16/12/2003

    Com a chegada do Natal, observa-se um crescente aumento nas campanhas de arrecadação de alimentos, com diversas propagandas estimulando as doações para um Natal sem fome. Com a implantação do programa governamental Fome Zero, nesse ano há uma tendência maior a se intensificarem as campanhas com esse objetivo.

    Aproveitando esse momento, ressaltamos a necessidade dessas campanhas, haja vista o número absurdo de pessoas famintas no país. Pelos últimos levantamentos feitos por entidades governamentais, estima-se um número de 53 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no país, embora tenhamos que pensar também em milhares de pessoas vivendo em sub-nutrição, ou seja, sem ter acesso a alimentos em quantidade suficiente para suas necessidades. A situação agrava-se no meio rural, onde a falta de uma política agrícola eficiente gera, a cada ano, milhares de pessoas vivendo sem condições mínimas de produzir o seu próprio alimento. Grave também é a situação das populações que vivem nos bolsões de miséria nas periferias dos grandes centros urbanos.

    Doações que salvam
    Embora saibamos que doação de alimentos não é a medida eficiente para combater a fome e a desnutrição no país, sabemos igualmente o quanto o sofrimento da fome pode ser aliviado pela solidariedade. O enfrentamento da fome e da miséria deve ser feito mediante a facilitação do acesso ao alimento e a condições de vida dignas, com trabalho, educação, moradia etc. Tal enfrentamento depende de uma ação governamental eficiente, onde a sociedade civil deve ter também o seu papel participativo.

    Em se tratando de doações, existem necessidades nutricionais que devem ser pensadas no momento da seleção de alimentos a serem doados. Pessoas que recebem benefícios de instituições filantrópicas, ONGs ou entidades governamentais, geralmente conseguem ter acesso a certos tipos de alimentos que, na maioria das vezes, não supre as suas necessidades nutricionais. Sendo a carência protéica a principal deficiência na alimentação das camadas mais pobres no país, o recebimento unicamente de produtos como farináceos (maisena, farinha de trigo ou de mandioca, fubá etc) e arroz são de excelente ajuda no alívio da fome, mas de valor limitado na redução das carências nutricionais.

    Por isso, as campanhas de doações deveriam prever, também, a arrecadação de alimentos como feijão e leite em pó, ainda que em menor quantidade do que outros alimentos, os quais são fontes de proteína e não têm um preço tão elevado quanto a carne e outras fontes de proteína animal. O leite em pó, embora mais caro que o feijão, rende aproximadamente oito vezes o seu peso, ou seja, 1kg de leite em pó daria o suficiente para atender a necessidade de uma criança pequena durante 15 dias.

    Problema: armazenamento
    Um outro grande problema quanto à doação de alimentos é a dificuldade de se armazenar alimentos perecíveis (como ovos, legumes e frutas) para distribuição a populações carentes. Em algumas cidades brasileiras já existem bancos de alimentos que trabalham centralizando as doações, selecionando e armazenando os alimentos até que sejam encaminhados para as entidades que distribuem aos necessitados. Em muitos desses bancos, geralmente gerenciados em sistema de parceria entre órgãos governamentais e a sociedade civil, já dispõem de condições estruturais para receberem doações também de alimentos perecíveis, os quais necessitam de local especial para armazenamento (câmara fria ou geladeiras) e maior rapidez na entrega ao beneficiado. De toda a forma, existe a possibilidade de doação desses produtos desde que entregues diretamente à família assistida ou à entidade que tenha esse fim.

    Alimentos como legumes e verduras costumam ser de difícil aquisição em periferias de centros urbanos, por não haver produção próxima e pelo fato de as vendas se limitarem às grandes redes de supermercado, com pouca oferta nos pequenos mercados e mercearias dos bairros periféricos. Esses alimentos são de fundamental importância para suprir determinadas carências que são alarmantes no país, como a deficiência da vitamina A, principal causa de cegueira no mundo.

    Assim, se você deseja doar alimentos nesse Natal, procure identificar alguma entidade beneficente ou alguma organização que tenha ação conhecida no combate à fome. Organizações como as Pastorais ou a Sociedade dos Vicentinos, entre outras, costumam realizar trabalhos até mesmo nos bolsões de miséria, onde os recursos quase nunca chegam, e onde existem miséria e fome em maior grau. Identificada a entidade, procure se informar sobre quem será atendido, se são grupos de risco, como idosos, crianças, gestantes etc, que são os grupos mais vulneráveis à fome e à desnutrição.

    Uma gestante mal alimentada, sofrendo de desnutrição, tem grandes possibilidades de gerar uma criança de baixo peso, com alto risco de morrer antes de completar um ano de vida. Boa parte das crianças com desnutrição grave no Brasil foram, provavelmente, bebês que nasceram com menos de 2,5kg, ou seja, nascidas de baixo peso.

    Os preferidos
    Os alimentos prioritários para o atendimento de qualquer tipo de beneficiado continuam sendo o arroz e o feijão, os quais são a base da nossa alimentação e, juntos, conseguem fornecer uma quantidade razoável de proteínas ao organismo humano. O óleo é importante no preparo desses alimentos, devendo também ser visto como prioridade, pois fornece calorias em grande quantidade em uma porção pequena (uma colher de sopa de óleo fornece 90 calorias), o que é importante quando a quantidade total de alimentos é limitada.

    Outros alimentos não perecíveis que são extremamente úteis, pensando na quantidade de calorias que fornecem, e devem ser incluídos nessas doações são: macarrão, fubá, canjiquinha, farinha de trigo ou de mandioca, açúcar e biscoitos, entre outros. Nos casos de atendimento aos grupos de risco acima citados, é bom sempre pensar em se incluir um pouco de leite em pó e, quando houver possibilidade de entrega mais rápida, ovos e legumes. Para esses últimos, é sempre bom observar se há condições de utilização antes que se tornem impróprios para o consumo. Enlatados como salsicha e sardinha podem ser de grande ajuda para esses beneficiados, pois são proteínas animais a um preço mais reduzido.

    Quero doar! O que fazer?
    Finalizando, sugerimos a quem que fazer doações e dispõe de poucos recursos, reunir um grupo de amigos e, arrecadando um pouco de recurso de cada um, somar um montante de alimentos que possa ser doado a uma entidade específica ou a algum grupo que trabalhe nos bolsões de miséria ou em áreas de grande carência. É importante que o doador (ou doadores) conheça o beneficiado ou o trabalho realizado com o mesmo, pois isso garante a continuidade e a eficiência do trabalho, evitando dispersão do recurso doado.

    Acima de tudo, devemos lembrar que não basta apenas saciar a fome, mas gerar condições de uma vida digna que possa transformar o homem em cidadão, o que é conseguido através de um trabalho continuado, com equipe técnica capacitada, que busque a reinserção social das famílias beneficiadas com essas doações. Assim sendo, conforme já dissemos, se você deseja fazer alguma doação espontânea, procure em sua cidade ou em seu bairro alguma entidade que faça um trabalho dessa natureza e exponha a sua solidariedade. E se você não dispõe de recursos financeiros para doar alimentos, pode doar parte do seu tempo na ajuda a pessoas em risco social, que convivem diariamente com o flagelo da fome e da desesperança.


    Cristina Garcia Lopes
    é nutricionista formada
    pela Universidade Federal de Viçosa.
    Saiba mais clicando aqui.

    Sobre quais temas (da área de nutrição) você quer ler novos artigos nesta seção? A nutricionista Cristina Lopes aguarda suas sugestões no e-mail nutricao@jfservice.com.br

    O melhor provedor de internet de
    Juiz de Fora

    ACESSA.com

    Banda larga na sua casa a partir de R$29,90

    Conheça nossos planos

    (32) 2101-2000

    Envie Sua Notícia

    Se você possui sugestões de pauta, flagrou algum fato curioso ou irregular, envie-nos um WhatsApp

    +55 32 99915-7720

    Comentários

    Ao postar comentários o internauta concorda com os termos de uso e responsabilidade do site.