Sábado, 5 de outubro de 2013, atualizada às 12h37

Envelhecer com qualidade é possível a partir da interação social

A ACESSA.com conversou com quatro mulheres que tiveram, ao longo de suas vidas, incontáveis momentos de felicidade, mas também de dor

Eduardo Maia
Repórter
ProIdoso

Em comemoração à Semana do Idoso, o portal ACESSA.com retrata a trajetória de quatro mulheres que tiveram, ao longo de suas vidas, incontáveis momentos de felicidade, mas também de dor. Algumas que passaram por dificuldades e não têm a menor vergonha de relatá-las, mostrando as fórmulas de superação. Pessoas que hoje, vivendo a "melhor idade", dedicam boa parte do tempo às atividades do Centro de Convivência do Idoso, em Juiz de Fora, e se mostram cada vez mais dispostas a buscar novos sentidos para a vida, mantendo sempre as boas recordações.

A primeira história é da aposentada Ivete Aparecida Maximiano, de 72 anos (foto abaixo). Técnica em Enfermagem, ela é mãe de dez filhos e avó de cinco netos, além de um bisneto. Começou a trabalhar aos sete anos, junto ao pai em uma fazenda em Juiz de Fora. "Capinava, candeava bois, ia no pasto pegar os bezerros, levantava às cinco horas da manhã. Tomava galope de vaca, enfiava por debaixo da cerca (risos). Fiquei lá uns seis anos e meus pais vieram para a cidade. Trabalhei muito em casa de família, depois fui para a fábrica de tecido, fiquei três anos", conta.

IveteIvete deixou a fábrica, casou-se aos 17 e durante 36 anos permaneceu ao lado do marido, que optou pela separação. Aos 50, ela resolveu fazer um curso de auxiliar de enfermagem. "Trabalhei em casas de família para fazer o meu curso. Fiz o auxiliar, mas não sabia ler nem escrever. Tirei o auxiliar e, junto, a oitava série. Depois que eu já estava trabalhando, o professor nos incentivou a fazer o técnico. Quem não tinha segundo grau, não tirava o técnico. O meu professor buscou no Coren - Conselho Regional de Enfermagem - uma forma para que eu pudesse fazer o técnico. Eles liberaram para que eu fizesse, desde que terminasse o segundo grau. Era difícil conciliar, estudar para as provas e atender os pacientes. Eu chegava a chorar, não tinha como deixar meus pacientes. Mas consegui."

Por 15 anos, Ivete dedicou-se ao ofício da enfermagem. Passou por três hospitais da cidade e se aposentou no ano passado. Hoje, divide o apartamento com a filha, mas diz que a deixará em breve, pois pretende se mudar para sua casa própria, no bairro Retiro. "Estou fazendo o meu barraco, porque ela vai se casar. Estou pedindo o material, as pessoas estão me ajudando. Minha aposentadoria é pequena, mas a gente vai caminhando", diz.

Amarilis: a paixão pelos desfiles de escolas de samba

Amarilis do Nascimento Oliveira, de 73 anos (primeira foto), nasceu em Juiz de Fora e há 50 mora no bairro São Benedito. Aposentada, ela trabalhou como lavadeira durante a vida toda. "Lavava muita roupa para fora. Passava muito aperto, meu marido não ajudava e eu não podia ficar encostada. Trabalhei por muitos anos, desde criança. Quando me aposentei, eu disse: 'agora eu só trabalho para mim, só quando eu quiser'. Tem dia que nem para mim eu trabalho (risos). Eu venho para o centro de manhã, vou em casa correndo, volto de tarde e fico o resto do dia."

Mãe de um único filho, tem dois netos e um bisneto. Amarilis concentra a sua disposição para as atividades do Pró-idoso, mas revela que sua paixão é pelos desfiles de blocos e escolas de samba no Carnaval. "Eu vestia de baiana nas escolas de samba e também no Pro-idoso. O dinheiro da passagem acabava, eu pegava ônibus, eu vinha a pé e subia a pé. Eu desfilei pela Castelo de Ouro, que já não existe mais, Partido Alto e Ladeira. Já desfilei em quatro ou cinco escolas num só carnaval. Eu saía do desfile de uma, ia para casa de táxi, trocava de roupa e voltava para a avenida", relembra.

A aposentada lembra, também, do período em que sofreu com um glaucoma - doença causada pela lesão do nervo óptico, relacionada a pressão ocular alta. Com a orientação que recebeu no Centro de Convivência, procurou um médico e passou pela cirurgia. "Fiquei praticamente cega. Ficava em casa chorando e não dormia. Ficava com a luz acesa a noite inteira, pois tinha medo de apagar, acordar e não estar enxergando. Consegui um médico que marcou os exames muito rápido e fiz a cirurgia. Eu fiquei no desespero, mas foi muito bom para a minha vida", relata.

Do Acre para Juiz de Fora

Edna de Morais Pinheiro, 73, também dedica boa parte do seu dia ao Centro de Convivência. A alegria e a descontração são as marcas da acreana, que se mudou para o Rio de Janeiro aos 10 anos e decidiu "viver a melhor idade em Juiz de Fora". "Moro sozinha aqui, meus filhos ficaram no Rio. Uma colega me indicou o Pro-idoso. Fiz a minha inscrição e comecei a frequentar. Logo no princípio, eu quis entrar na sinuca, pois sei jogar. Disseram que mulher não tinha vez. Agora não, mulheEdnar tem lugar no campeonato de sinuca. Isso tudo me preenche", diz.

A aposentada já atuou em diversas funções ao longo da vida, entre elas datilógrafa, secretária, modelista, estilista e costureira. Segundo ela, sua atenção é voltada para o presente. "Eu fiz tudo o que há de bom. Tudo o de ruim foi experiência. Eu tive uma vida boa, não tenho o que reclamar. Mas eu não gosto de comentar. O que passou, passou. Estou muito feliz vivendo o meu presente", afirma.

Mãe de três filhos e dois netos, Edna mantém o contato com família, que mora Rio de Janeiro, pelo telefone. "Temos contato direto, só não faço visita porque eles moram longe. Hoje temos o telefone e é tudo mais fácil". Quando perguntada o que acha da tecnologia para se aproximar, ela pondera. "Eu vejo o universo dos meus netos, da minha filha. É tudo virtual, é jogo. Desperdiçam um tempo que podem passear, por causa de uma máquina. Eu não quero isso para mim. Se for necessário, entro numa lan house. Mas para eu ficar presa, não."

Uma vida de dedicação

Dyrce

Uma história de felicidade e boas recordações é a da aposentada Dyrce de Oliveira Neves, 75. Casou-se aos 14 anos, e aos 15 já era mãe. Em seus 54 anos de matrimônio, disse ter vivido dias maravilhosos ao lado do marido e emociona-se ao recordar sua perda, falecido há seis anos. "Sinto muita saudades, fomos muito felizes."

Dyrce diz que o Pró-idoso permite a ela superar a dor da perda do marido, a partir da convivência diária com os colegas. "O centro me deu essa condição: de rir, de brincar, de fazer ginástica. Se não existisse, eu não sei o que seria de mim. A minha filha é muito companheira, muito amiga, mas não preenche todo o vazio, pois ela trabalha, tem os horários dela. Aqui eu tenho amigas, faço ginástica, viajo, isso preenche o vazio que seria minha vida. Assim eu sou feliz."

Mãe de quatro filhos e avó de cinco netos, Dyrce tem ainda duas bisnetas. A aposentada tirou a carteira de motorista já na terceira idade e agora faz aulas de informática. "Minha filha me deu um carro, eu dirijo por toda a cidade. Faço o curso de computação, pois é bom a gente saber de tudo um pouco. É bom usar o notebook, mas não vivo por conta, já que o meu dia é corrido. À noite, eu fico tão cansada, que eu não tenho insônia.

Centro de Convivência do Idoso

O Centro de Convivência do Idoso é um serviço oferecido pela Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS), executado pela Associação Municipal de Apoio Comunitário (Amac). Entre as atividades, estão a realização de ações que visam a garantir o envelhecimento saudável em Juiz de Fora, por meio de aulas de ginástica, dança, trabalhos manuais, teatro, jogos, yoga e aulas de informática. Criado em 17 de junho de 1988, o serviço atende mais de mil idosos por mês.

Além da sede localizada na rua Espírito Santo, 434, no Centro de Juiz Fora, possui unidades descentralizadas nos bairros São Benedito, Benfica, Bandeirantes, Ipiranga e Parque Guarani. Para mais informações, o telefone de contato é o (32) 3690-7365.

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