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    MV Bill Rapper veio discutir educação e cidadania em Juiz de Fora




    Fernanda Leonel
    Réporter
    23/10/2006

    Alex Pereira da Costa é filho de Mano Juca, bombeiro hidráulico e Dona Cristina, dona-de-casa. Passou fome, frio, dificuldades diversas e convive, até hoje, de perto com um retrato preto e branco da história do nosso país. De parte excluída, ele virou a voz que quem não tem voz na política e na realidade dos mais poderosos.

    Hoje, Alex, é Mv Bill: rapper ativo e compositor. O menino da Cidade de Deus já está no seu segundo livro e acaba de cair de vez na boca do povo depois do lançamento do documentário "Falcão, meninos do tráfico". O vídeo conta a dura realidade de crianças e adolescentes que, na carência da educação, viram sua vida permeada pelas drogas. E sua morte também.

    Com uma câmera na mão, o rapper recolheu depoimentos para contar a dura realidade das favelas brasileiras. Dos 17 meninos entrevistados durante os dois anos de produção, 16 morreram até a finalização do vídeo.

    Ícone da discussão da pobreza, da desigualdade, da realidade e da noção da cidadania, MV Bill faz a palestra de abertura do Congresso do CES, hoje, às 19h, no Cine-Theatro Central. "Estou feliz em poder falar, contar as minhas idéias, interferir na vida que quem aqui em Juiz de Fora quiser me ouvir".

    Confira a entrevista com o rapper, que fala sobre política, inclusão e favelas:

    ACESSA.com - Você já tinha publicado o livro "Cabeça de Porco" e agora transformou o "Falcão, meninos do tráfico em livro". Os seus raps são conhecidos por retratarem a realidade de uma maneira muito forte. Você teve a mesma liberdade para escrever que tinha para compor?
    Mv Bill - Na verdade, eu acho que nos livros eu tive muito mais liberdade que nos raps. Na música a gente ainda pensa na rádio, mesmo sabendo que o pobre não tem muito espaço. Mas pensa na rádio, nem que seja uma comunitária que passa a tocar aquele som, no videoclipe, a gente também pensa na emissora, que também não dá muito espaço, mas que talvez a gente consiga propagar as idéias por ela.

    Já no livro não. Escrever um livro para um cara como eu, é uma coisa muito despretensiosa. Eu sempre lembro da minha mãe quando eu falo isso. Ela sempre me apoiou quando eu falava que ia fazer música, mas achou que eu tava ficando doido quando falei que ia escrever um livro. No livro, os meus textos, é como se eu tivesse escrevendo um rap, só que sem rima. Eu sempre tento expor os meus sentimentos, as vezes até mostrando as minhas contradições, os meus medos.

    "Tem gente que a gente fala rap e eles já fecham o ouvido, porque acham que é música marginalizada, música de baixa qualidade"

    E escrevo do mesmo jeito, sem medo de chocar, de acharem o texo pesado demais. Eu gostei muito de fazer o livro, porque consigo atingir um público diferente, que talvez não iria a um show de rap. Tem gente que a gente fala rap e eles já fecham o ouvido, porque acham que é música marginalizada, música de baixa qualidade. Com o livro acho que o discurso chega em outro lugar.

    ACESSA.com - E a diferença de impacto entre o que você quer dizer contando, com o que você quer dizer cantando?
    Mv Bill - Acho que depende muito da região. A gente acabou de tocar em Salvador há umas duas semanas atrás, e que, o resultado que eu consegui ter naquele show, eu não consegui ter em muitas palestras, em muitos lugares que eu fui para fazer um bate-papo. A música atingiu eles diretamente.

    Mas também tem muitos lugares que as conversa são tão acaloradas que a gente realmente percebe que mudou a vida daquelas pessoas trocando idéias. Acho que as duas formas são boas, e trazem impactos diferentes que acordo com o gosto das pessoas. Uma não substitui a outra, só amplia os públicos. Elas devem existir.

    ACESSA.com - Como é que você vê o papel social da CUFA - Central Única de Favelas - no contexto da inclusão e desigualdade social?
    Mv Bill - A CUFA é o que me possibilita praticar o que a música só me deixa discursar. Não estou dizendo que o cara que faz música com o objetivo de discutir não tenha seu trabalho muito valorizado. O que eu faço não é por obrigação, tipo "o rapper tem que fazer alguma coisa pelo social". A CUFA é um oxigênio para gente continuar trabalhando, para que a gente tenha vontade em fazer mais e mais. É claro que dá tristeza também, porque ainda assim a gente perde pessoas e situações.

    "O Brasil é assim, uma população de memória curta infelizmente: para algumas coisas os fatos reais do vídeo foram passando, outras coisas entrando em pauta, sem que uma ação efetiva refletisse sobre o assunto"

    Você acha que conseguiu discutir educação e políticas de inclusão com o chocante documentário "Falcão?"
    Mv Bill - Essa é uma discussão que não deveria sair de pauta nunca no Brasil. Se a gente for ver, o desequilíbrio que a gente tem dentro da nossa população é uma coisa sem noção de se acreditar que é verdade.

    Eu fico feliz em saber que fiz um vídeo que ajudou a discutir isso [menção à Falcão, meninos do tráfico, exibido no Fantástico], mesmo depois de meses depois de ter sido lançado, ainda causa euforia, as pessoas comentam sobre ele, discutem o assunto.

    O Brasil é assim, uma população de memória curta infelizmente: para algumas coisas os fatos reais do vídeo foram passando, outras coisas entrando em pauta, sem que uma ação efetiva refletisse sobre o assunto. Mas tem coisas que foram muito boas. Um exemplo típico disso, sou eu, oito meses depois de tudo, estar aqui em Juiz de Fora, para falar sobre exatamente sobre cidadania. Porque estou aqui? Porque fiz o documentário e coloquei o assunto para ferver. Tem uma parte que levou o trabalho no "ôba-ôba" achando que era legal e uma espécie de carnaval, sem lembrar que aquilo alí não era ficção, mas um recorte da realidade.

    Estamos em ano eleitoral. Existem esperanças e planos para "ajudar" os governantes a enxergarem as necessidades dos mais pobres?
    Mv Bill - Preocupados com a Brasil a gente sempre está. Esse ano fez com a CUFA o que a gente fez em outras eleições. Promovemos discussão e debate com os candidatos e o povo da favela. Fizemos para prefeito no Rio, esse ano fizemos para governador com a CUFA do Ceará e do Mato Grosso e fizemos para presidente do primeiro turno, mas somente o Lula e o Alckmin toparam participar.

    "Nos reunimos com o ministro da educação, para falar que a gente não quer só dinheiro, mas queremos mostrar como é que se faz muita coisa com pouco dinheiro. Aí é que o ministro Haddad disse pra gente que falta inteligência nos ministérios para cuidar desse tipo de realidade"

    Fizemos uma carta com 17 ítens e entregamos para os dois. Essa foi a nossa forma de pedir e lembrar dos nossos direitos, independente de quem venha por aí. Eu gostaria mesmo, de verdade, que esse assunto seja prioridade de pauta de qualquer um. Esse é o nosso grande desejo: fazer com o próximo presidente trate da pobreza com prioridade, se ele quiser tratar o Brasil de forma séria.

    Nos reunimos com o ministro da educação, para falar que a gente não quer só dinheiro, mas queremos mostrar como é que se faz muita coisa com pouco dinheiro. Aí é que o ministro Haddad disse pra gente que falta inteligência nos ministérios para cuidar desse tipo de realidade. E que o papel das ONG é fundamental para resgatar a realidade do Brasil e os excluídos.

    ACESSA.com - O que você achou da nova legislação anti-drogas
    Mv Bill - Essa lei, aliás, quem inaugurou foi até uma vizinha minha a Tati Quebra Barraco, por benefício dessa lei. Mas eu acho que essa lei merece discussão. Da mesma forma que eu acho que o usuário de droga não deve ser tratado como traficante, aqui no Brasil a gente tem muita dificuldade de saber quem é esse usuário. Dependendo que quem estiver com a droga na mão, se ela estiver na mãe de um garoto de classe média, por exemplo, ele ´não é traficante: é usuário. Mas se aquela mesma quantidade de drogas estiver com um pretinho da favela, o cara já é traficante. Aí um precisa de cadeia, outro de clínica, outro precisa de porrada, outro precisa de medicamento. Com certeza eu acho que o usuário precisa de tratamento, merece discussão.

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