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    Roberto DaMatta Antropólogo fala de política, características da democracia brasileira e de como o carnaval pode ser classificado como a essência do brasileiro




    Fernanda Leonel
    Réporter
    20/11/2006

    Roberto DaMatta em entrevista coletiva para imprensa "Para nós, brasileiros, a festa é sinônimo de alegria, o trabalho é eufemismo de castigo, dureza, suor". Esta reflexão foi elaborada pelo antropólogo Roberto da Matta, um dos mais argutos observadores da sociedade brasileira, autor de algumas análises clássicas que procuram dar conta da complexidade de uma cultura multifacetada como a nossa.

    De passagem pela cidade, como convidado do "Projeto Tim Grandes Escritores da Funalfa", DaMatta reservou parte do seu tempo para discutir questões ligadas à brasilidade e aos retratos da nossa cultura e do Brasil.

    Na segunda parte da entrevista concedida ao portal ACESSA.com, um dos maiores nomes da antropologia fala de política e de suas particularidades com o Carnaval. Confira a íntegra da entrevista. (leia também a entrevista com o antropólogo sobre o racismo)

    ACESSA.com - Desde 1988, o Brasil atravessa o seu mais extenso, e talvez mais intenso, período de democracia política. Qual o balanço deste período? Tem sido o suficiente para alterar, ou pelo menos começar a alterar, algumas das mazelas históricas?

    DaMatta - Para falar de como a política faz parte da minha vida, eu tenho que falar um pouco de algumas coisas pessoais. Tudo que eu vou dizer é mais ou menos assim, e cabe a quem gosta de pensar e de fazer as inter relações.

    O meus primeiros interesses no estudo da antropologia, que, por falar do homem acaba falando de política, começou ainda aqui nessa cidade. Quando eu era garoto, vivi mais de uma década entre Juiz de Fora e Leopoldina e meu despertar para esses assuntos, se deu nessa cidade. Depois eu vivi minhas épocas de metrópole, que merecem conceituação.

    A época que vivi analisando São Paulo, me serviu para ter certeza que São Paulo é um "país curioso", e que o Rio de Janeiro é uma cidade aristocrática. Eu era um garoto excluído, porque eu vivia em Niterói. Mas a gente fazia as mesmas oposições dos garotos de Copacabana, apesar de nessa época, os garotos do Rio discriminarem quem vinha de São Gonçalo. Até as meninas, que não tinham nada a ver com posicionamento político, sabiam quem era do subúrbio, só pelo jeito do garoto pisar na praia (risos).

    "A política do Brasil é assim, tem pensamentos "mudernos", que querem nos fazer um país de primeiro mundo, mas na verdade, ainda estamos na dúvida entre o atraso, e o autoritarismo e também essa idéia de primeiro mundo e modernidade"

    Mas para reforçar meu posicionamento de vida pessoal com política, o que eu quero dizer com isso é que somos "mudernos", como diria o Sarney, mas que até hoje não encontramos direito o que queremos ser. A política do Brasil é assim, tem pensamentos "mudernos", que querem nos fazer um país de primeiro mundo, mas na verdade, ainda estamos na dúvida entre o atraso, e o autoritarismo e também essa idéia de primeiro mundo e modernidade.

    Essa indecisão faz parte de outra parte da cultura política do brasileiro: a indefinição da escolha. Eu não sei se brasileiro vota mal ou é mal informado não. Eu acho que é que eles têm dificuldade de se decidir. Condenam a política, mas na hora que vão as urnas escolhem políticos corruptos e vagabundos.

    Todo mundo sabe sacar uma vagabundagem daqui ou ali. O que as pessoas têm, é falta de coragem bastante parta mudar de verdade e falta de crença também. Acham que vai ser essa coisa bagunçada aí e pronto, aceitaram a política suja.

    "Os brasileiros condenam a política, mas na hora que vão as urnas escolhem políticos corruptos e vagabundos"

    As pessoas estão ficando acostumadas a só falar mal. E achar que está assim mesmo. O Brasil não vai pra frente assim. Quando o Delfim Neto fez a economia do Brasil ficar legal, todo brasileiro disse que foi milagre econômico, agora, quando ele elevou a inflação, que fez o Brasil cair na lama dos anos 80 que ele caiu, aí o cara era louco. A culpa é sempre da política, entende? Se há lixo na rua é um problema da prefeitura. E não há consciência para mudar as coisas.

    A mídia também tem sua culpa nisso. A mídia também é indefinida. Há uma verdadeira obsessão pelo governo e por tudo o que faz o governo, em contraste com o que ocorre na sociedade Essa visão reduz a sociedade ao governo. E como ninguém da elite pode gostar do Brasil, não se pode ler o governo a não ser de modo negativo.

    Não sei se o Brasil tem a imprensa que merece. Sei que tem a estrutura jornalística que merece: alguns jornais de peso muito alto, poucos jornais locais de prestígio, um estilo jornalístico que tem pendor para a denúncia e para o comentário contundente (como se o forte fosse o certo), uma clara hierarquia e uma certa despreocupação com a discussão ética. Mas isso não é algo isolado.

    Roberto DaMatta em 
entrevista coletiva para imprensa Sinto falta de uma revista de ensaios tipo New York Review of Books, que trata das coisas da vida, do mundo, das sociedades e da intelectualidade com mais calma, com mais distância, com mais precisão relativamente à pessoa que fala e sua posição, com mais tranqüilidade no que diz respeito ao tema e a quem fala do tema.

    E que fale menos de pessoas, porque eu estou cheio de colunismo social, e mais de livros, músicas, quadros, filmes e idéias. Mas que fale sobretudo de livros! Sem badalações e idiotias... Disso eu sinto falta.

    Ser alguém em um governo censurado ou presidente quando o PT é oposição é diferente, mas precisa da mesma força. Eu me sinto muito feliz por terem odiado o meu livro quando eu o lancei. Achavam que eu falava de coisas estranhas quando o Brasil estava em um holocausto da ditadura militar.

    Mas eu mostrei uma faceta que as pessoas não gostam de pensar, mas que eu acredito que possa ter contribuído para alguma mudança no Brasil. Eu usei da sociologia acadêmica para despir o cotidiano e falar de práticas comuns no Brasil. Isso era uma crítica dura a ditadura, que eu vou deixar para vocês, pessoas inteligentes, entenderem qual é.

    "O Brasil hoje vai bem. Mas o governo atual está se utilizando do mesmo erro dos eleitores para afundar ele em alguns aspectos"

    O Brasil hoje vai bem. Mas o governo atual está se utilizando do mesmo erro dos eleitores para afundar ele em alguns aspectos. Está com a indefinição. Não há pecado maior para a política do que a indefinição.

    O Lula não sabe direito se quer país desenvolvido. Porque se eu utilizar dos números dos meus amigos que eu não gosto muito, tenho que lembrar que ele quer que o Brasil ande para frente mas que não corta custeio e ainda quer retirar impostos. Como resolver esta equação complicada? Não sei. Ou melhor, até penso que sei, mas isso é assunto para 24 horas de conversa.

    ACESSA.com - O carnaval foi um dos seus objetos de estudos que mais caracterizaram toda a sua obra. De onde veio o interesse, qual o objetivo e em linhas gerais, quais foram as descobertas da brasilidade através dessa manifestação cultural?

    Eu não sou um estudioso do carnaval. Gosto sempre de lembrar isso para as pessoas. Como eu escrevi o livro "Carnavais, Malandros e Heróis", as pessoas tendem a achar que eu entendo muito desse tipo de assunto. Eu usei o carnaval como uma janela para tentar penetrar nessa coisa que é o Brasil que eu nem sei bem o que é.

    Roberto DaMatta em 
entrevista coletiva para imprensa Eu chamo de coisa, porque não gosto de tratar o Brasil como um objeto. Acho que ele é uma coisa que se constrói, e que constrói a gente também. Porque se a gente vai tratar de países, enquanto território, eles são facilmente definíveis. Mas esse não é o meu propósito, não é o meu estudo. Nessa área as fronteiras sempre são complicadas, e é por isso que eu tentei pegar o carnaval como uma janela para entender um pouco dessa colcha de retalhos de significâncias que é o Brasil.

    Eu gosto até de falar isso, para lembra das diferenças das diversas matérias que estudam a sociedade. Eu gosto até da fazer uma metáfora, que é a seguinte: a sociedade é sempre uma casa, mal desenhada. Aí os economistas, as pessoas que estudam direito, que estudam história social e que estudam política, entram pela porta da frente. Quem estuda sociologia, antropologia, entra pelo porão, pela janela, pela chaminé.

    Mas então qual é a vantagem de você entrar pela porta da frente? A vantagem é que você vê o melhor que a casa tem a oferecer. Você vê as estatísticas, não as pessoas, como vêem os antropologistas. Nós enxergamos as pessoas doentes, que precisam de hospital, que passam fome, e estamos lá, sempre do lado delas. Esse é um jeito de fazer um retrato da nossa casa também, apesar de parecer mais grotesco.

    E estou falando isso por causa do carnaval. No fundo ninguém quer aceitar que a brasilidade têm traços malandros mesmo, cheios de desejos de carnaval e de pecados que todo mundo tende a ser hipócrita e não assumir. Quando o assunto é carnaval, o brasileiro se se comporta igual se comporta na política: a gente não sabe se quer ser moderno ou atrasado, aí fazemos as sujeiras todas escondidas.

    "Houve uma recepção fria do Carnavais, Malandros e Heróis, porque os intelectuais queriam que eu abordasse a ditadura militar. Eles meteram o pau, porque não perceberam que a crítica ao autoritarismo estava embutida.Só uma sociedade dominada pela liberdade restrita e autoritária tem uma festa popular onde tudo é permitido"

    E aí, às vezes a coisa fica distorcida, na minha opinião quando a gente só usa estatísticas. Porque são as estatísticas que são oficiais. E aí se tem um retrato do Brasil que pode até apresentar números ruins, mas que no fim das contas, não dói em ninguém.

    Além disso, tem sempre alguém que comanda as estatísticas, e eu acho que o povo brasileiro devia até ser mais desconfiado delas, porque estamos num buraco danado que ainda não está sendo mostrado. Entendam mesmo como uma provocação.

    Por isso é que eu ainda acho que não é grotesco mostrar o nossa brasilidade um pouco suja. Porque eu acho que as pessoas precisam abrir o olho para muitas coisas e refletirem sobre isso. Quando eu fiz o livro, não entenderam muito bem essa proposta. Acharam que eu era doido, maluco e que estava falando tudo muito escrachado.

    Houve uma recepção fria, porque os intelectuais queriam que eu abordasse a ditadura militar. Eles meteram o pau, porque não perceberam que a crítica ao autoritarismo estava embutida. Só uma sociedade dominada pela liberdade restrita e autoritária tem uma festa popular onde tudo é permitido.

    Tem um trabalho que eu fiz que eu considero muito legal. Nós saímos durante o carnaval e fotografamos cenas de orgias que certamente acontecem nessa época do ano. Acontece mesmo, gente. E isso é uma coisa que é da brasilidade, doa a quem doer.

    Nessa necessidade de retratar a cultura brasileira, eu escolhi esse período no qual podemos tudo para analisar alguns comportamentos, e foi então que a primeira luz surgiu: é nessa época do ano, que eu me dei conta que a sexualidade, que o mundo cristão tornou sagrado, e o homem pecaminoso, que coloca o sexo dentro de certas condições, inclusive pela regra tem que ser realizado escondido, privadamente, nessa época do ano é feito em público. O brasileiro, nessa época do ano transforma o sagrado em brincadeira, e faz sem nenhuma culpa disso.

    Se o sujeito fizer o que fez no carnaval quatro dias depois que ele acabou, ele se sente mal, culpado, julgado por Deus. Mas no carnaval pode tudo. Quando eu morava em Juiz de Fora, essas coisas aconteciam aqui. Agora eu nem sei mais. Mas quando eu tinha 17 anos eu ia ao Círculo Militar e já começava a observar essas características e posso afirmar para vocês que acontecia muita cosa. Posso até dizer que meu trabalho e interesse começou mais ou menos por aqui.

    Roberto DaMatta em entrevista 
coletiva para imprensa Vou dar um exemplo pessoal. Na minha época de jovem, quando a gente dava um beijo na boca de uma menina, a gente ia para casa, tirava a roupa, ficava em frente ao espelho e se chamava de gostoso um monte de vezes, porque certamente estava com a bola toda aquele dia. Gente, em 1940, a gente ia pro carnaval e beijava muito mais. Porque sem ser no carnaval, a gente levava quase seis meses para conseguir fazer isso.

    Penso que o carnaval é basicamente uma inversão do mundo. Uma catástrofe. Só que uma reviravolta positiva, esperada, planificada e, por tudo isso, vista como desejada e necessária em nosso mundo social. Nele, conforme sabemos, trocamos a noite pelo dia; ou, o que é ainda mais inverossímil: fazemos uma noite em pleno dia, substituindo os movimentos da rotina diária pela dança e pelas harmonias dos movimentos coletivos que desfilam num conjunto ritmado, como uma coletividade indestrutível e corporificada na música e no canto.

    Se no mundo diário estamos todos limitados pelo dinheiro que se ganha (ou não se ganha...), pelas leis da sociedade, do mercado, da casa e da família, no carnaval e na fantasia temos a possibilidade de virar onipotente e ser tudo o que se tem vontade.. O universo da individualidade, que é tão temido na vida diária, é moeda corrente no carnaval, onde todos podem surgir como indivíduos e como singularidade, exercendo o direito de interpretar o mundo do seu jeito e a seu modo.

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