Alfredo Kenji Dan (foto abaixo) nasceu em Rio Bonito, no estado do Rio de Janeiro, cresceu entre o Japão e Leopoldina, estudou em Juiz de Fora, retornou ao Japão, juntou dinheiro, voltou para Juiz de Fora, montou um negócio, se casou, teve um filho e aqui continua trabalhando.
Por mais confusa que pareça, essa é a história do fotógrafo Kenji que adotou Juiz de Fora como sua terra natal. Os pais de Kenji se conheceram no Japão e lá se formaram.
Engenheiro agrônomo, o pai queria ir para o Amazonas ou para qualquer cidade do interior do Brasil onde pudesse ter uma plantação e ficar perto do mato. Cautelosa e já pensando em filhos, a mãe queria estar perto da cidade para o caso de emergências.
Assim, o jovem casal partiu para o Brasil onde viveu em São Paulo, Petrópolis e Rio Bonito. Nesse período de adaptação em solo tropical, a família sofreu grave acidente de carro, que custou a vida da matriarca e deixou um dos três filhos paralítico.
"Nessa época eu estava com cinco anos e meus irmãos eram um pouco mais velhos
do que eu. A família toda se desestruturou e meus avós vieram do Japão para cuidar
de nós"
. Decidiu-se, então, que, como o pai precisava trabalhar e não tinha
parentes próximos para ajudar na criação dos meninos, o melhor seria que eles
voltassem ao Japão com os avós.
E lá foi Kenji viver sob a cultura dos avós por cinco anos. Ele recorda que a
educação no lado oriental é muito diferente da que acontece no Brasil. "Lá eles têm mais
seriedade, as crianças, geralmente, estudam nas escolas dos bairros em que moram
e, como eles pregam a igualdade, os pais só podem levá-las a pé ou de
bicicleta. A merenda é só a que a escola oferece para evitar que as crianças que têm pouco
poder aquisitivo se sintam mal"
.
Outra diferença que o fotógrafo considera brutal na comparação entre as duas
culturas é a questão da limpeza das ruas. "Depois de muito tempo no Japão,
essa é a primeira coisa que chama a atenção quando você chega aqui. Lá você
não vê um papel no chão"
, diz.
Kenji ficou sob a tutela dos parentes japoneses e americanos (parte da família
materna é americana) até os dez anos, quando retornou ao Brasil. Dessa vez, o
destino foi Leopoldina, onde o pai estava morando com a nova esposa.
Lá, o jovem Kenji viveu com o pai, os irmãos e a madrasta até o colegial. Quando chegou em idade de fazer cursinho pré-vestibular ele veio para Juiz de Fora, onde ficou até 1993. Nesse ano, Kenji retornou ao Japão com intuito de trabalhar e juntar dinheiro.
Em solo nipônico ele permaneceu por dez anos e carrega lembranças não tão boas.
"No Japão as pessoas levam tudo muito a sério, o trânsito é caótico, você
leva horas para chegar no trabalho... É uma vida estressante demais"
, relembra.
Com o dinheiro no bolso ele retornou para Juiz de Fora porque considerava o mercado
de trabalho e a qualidade de vida aqui melhores do que em outras regiões do país.
"Minha família estava em Leopoldina, mas a cidade é pequena, não tinha muitas
oportunidades. Em cidades maiores, como São Paulo, a vida não deve ser muito diferente
do que no Japão por causa do ritmo estressante, então fiquei por aqui, onde já
tinha meus amigos"
.
Em Juiz de Fora ele constituiu a sua família. Casado há quatro anos, Kenji tem um filho de um ano e dois meses que é a mistura da loirice brasileira da esposa com os traços dos japoneses, mostrando que duas nações completamente diferentes em termos culturais podem se misturar e dar um belo resultado.
Sedimentado em Juiz de Fora, Kenji sonha em voltar para Leopoldina. "Mas isso
é só quando eu estiver velhinho porque lá é mais tranqüilo"
.
Por enquanto, ele quer mesmo é continuar fotografando os rostos dos juizforanos, ajudando a registrar os momentos inesquecíveis e criar seu filho usando o que há de melhor das três culturas com as quais conviveu: japonesa, americana e brasileira.
E, se possível, curtindo o calor humano do brasileiro e um barzinho com uma boa
cerveja gelada e um tira-gosto apetitoso no fim do expediente. Peculiaridades
nacionais que tanto lhe fizeram falta nos anos em que viveu no Japão. "Lá
não tem essa de sair do trabalho e ir para um botequim com os amigos. Você vai
direto para casa e eu adoro uma cervejinha. Lá não tem isso"
.
*Marinella Souza é estudante de Comunicação Social da UFJF