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    Hierarquia

    Nome do Colunista Carolina Fellet 22/04/2017

    Quando vejo alguém vestido com muito luxo, logo lhe atribuo uma ascendência cigana. Ora, os ciganos é que, devido ao nomadismo, tinham de amalocar no próprio corpo toda a riqueza de que dispunham. Vide dente de ouro, cordões, pulseiras, anéis em proporções de balcão de joalheria, saiões com pedrarias de uma gruta inteira e maquiagem com mais pinceladas que as obras 15 m X 25 m do Dalí.

    Só que o líder mais poderoso e influente de todos os tempos e todas as geografias deve ter revezado quatro batas e cinco franciscanas ao longo das pouco mais de três décadas de vida. E nem por isso lhe escapava a aristocracia. Porque nada aristocratiza mais que a sabedoria.

    Porém, ainda que ele tenha se tornado célebre pela palavra, os números é que costumam atestar a inteligência. Vejamos na escola; os alunos de destaque são aferidos pela Matemática, pela Física. Os campeonatos de raciocínio exumam logaritmo, hipotenusa, e nunca uma crase antes de nome próprio, tampouco um hífen após “super”.

    Fora do colégio, também somos hierarquizados em variadas frentes e diferentes fusos. Limonada suíça? Mas você nunca tomou o suco de limão siciliano da safra de agosto? Seguimos com nosso Uninho na Av. Brasil até que, com velocidade e faróis de predador, uma Hilux nos intimida, roçando a envergadura no carro que lhe estiver à frente e mostrando que está no topo da cadeia. Não acredito que você usa esse xampu nacional; o meu tem matéria-prima da Patagônia. São pequenos UFCs para os quais somos escalados sem o nosso consentimento.

    Como não dá para regressar ao lounge com meia-luz e ergonomia perfeita no qual ficamos nove meses antes de habitar esta vida cheia de letreiro e ruído, o jeito é nortear-se pelo próprio estatuto:

    Cláusula primeira – em um compartimento da mochila, carregar sempre os equipamentos do UFC.

    Cláusula segunda – manter uma distância de segurança de pessoas em compras no supermercado, em filas e de quem possui temperamento intempestivo.

    Cláusula terceira – a programação da rádio ser formada por, no mínimo, 80% de música nacional.

    Cláusula quarta  – fixar o olhar em um ponto cego no shopping, para não ter de socializar com todos os seus contatos do Facebook, WhatsApp, Insta, Twitter, catecismo e ponto de ônibus.

    Cláusula quinta – as pessoas terem noção de que, para ser bem-sucedido, não é necessário fazer networking em velório.

    Como o espaço para este texto está acabando, e a escrita se assemelha à arquitetura, na qual cada espaço deve ter uma serventia, vou me despedindo com a certeza de que subindo ou descendo na hierarquia, somos todos uma matéria humana altamente perecível cuja procedência desconhecemos. Nesse pé de igualdade, é preciso ser líder da própria vida, ainda que o preço disso seja uma solidão leonina.


    Carolina Fellet é jornalista. Mas, como só gosta de boas notícias, é inclinada à literatura e à música.

    Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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