A oportunidade de começar de novo. Foi em busca desse ideal que Douglas Santos Silva, que saiu há alguns anos da cadeia, entrou para o projeto do Núcleo de Prevenção da Criminalidade, NPC. Ele é um dos 30 egressos do sistema prisional de Juiz de Fora que lutam por um emprego e pelo fim do preconceito contra ex-presidiários. Eles montaram uma cooperativa e agora esperam recursos para terem sua própria oficina mecânica.
Durante dois anos, os egressos tiveram aulas de informática, português e cooperativismo
na Intecoop da Universidade Federal de Juiz de Fora
(UFJF) e aulas práticas de
mecânica no Colégio Técnico Universitário, CTU. Prontos para o trabalho, eles
formam a Cooperativa de Oficina Mecânica Pistão de Ouro. Para colocarem a "mão na
massa"
, aguardam parceria para conseguirem um local para oficina e um
orçamento de cerca de R$ 65 mil para comprarem as máquinas.
Para Douglas, presidente da cooperativa, a iniciativa foi uma mostra da confiança do CTU e da
UFJF em relação aos egressos. "Eles acreditaram na gente e nos trataram da melhor forma possível. Os
que quiseram melhorar de vida agarraram a oportunidade. Foi muito importante e
conseguimos nos re-inserir na sociedade"
, destaca.
Além da cooperativa, os egressos têm a oportunidade de fazerem um curso para
aprenderem a fabricar material de limpeza. O gestor social do NPC,
Flávio Sereno Cardoso (foto ao lado), explica esse é um começo de trabalho que visa a
diminuir a criminalidade. "O Núcleo ainda vai completar dois anos de criação
e oferecemos serviços a todos egressos em condicional e que tenham saído a
menos de uma ano da prisão. Não há limite de vagas, os que saem da cadeia
podem se inscrever"
, relata.
Hoje são mais de 200 egressos inscritos no núcleo, que vem ganhando mais divulgação
entre os presidiários. "Estamos divulgando mais o trabalho para
aqueles que estão prestes a sair da prisão. Quando chegam aqui, fazemos um pacto
para que eles não cometam novos crimes. Atualmente, uma média de dez egressos
têm procurado os projetos do núcleo mensalmente"
, revela Flávio.
Os egressos recebem apoio psicológico, judiciário e de assistência social.
Flávio considera esse acompanhamento fundamental. "Na maior parte das vezes,
são pessoas de baixa escolaridade, sem capacitação profissional, alguns
com problemas de alcoolismo e ainda carregam o estigma de serem ex-presidiários.
Temos que reverter isso para eles não voltarem a cometer crime. Esse é o
princípio do nosso trabalho. Caso a cooperativa dê certo, por exemplo,
com certeza vamos tentar formar novas parcerias desse tipo"
, observa.
O egresso, Henrique Madeira (foto acima, ao centro), acredita
que falta mais apoio do governo e dos empresários para o incentivo dessa
reintegração. "O preconceito ainda é grande e sempre é difícil retornar
ao mercado de trabalho. Se houvesse mais apoio a reincidência de crimes
ia ser menor. É preciso um incentivo"
, avalia.
Segundo a estagiária de psicologia, Cláudia Carvalho (foto ao lado),
a sensação de abandono e a queda da auto-estima são os problemas mais comuns enfrentados
pelos egressos. "É muito particular a situação de cada um, mas na maioria
das vezes eles precisam de acompanhamento psicológico para terem um acolhimento
mais amplo e se reintegrarem"
, explica.
Assim que entram no projeto, os egressos passam pelo grupo Primeiras Palavras. É
quando eles têm contato com participantes mais antigos do núcleo e podem
conhecer a importância do projeto. "Eles precisam de ter força de vontade
para continuar no trabalho. Por isso, têm encontros mensais com pessoal do
NPC. A divulgação dos projetos nas penitenciárias é essencial para aumentar
o número de egressos e prevenir a criminalidade"
, avalia Flávio.
O NPC é um projeto do Governo Estadual de Minas Gerais que está presente em várias cidades do estado. O Núcleo apresenta também projetos de prevenção primária do crime, mas isso não acontece ainda em Juiz de Fora. A meta do NPC local é de também trazer esses programas para a cidade.
*Thiago Werneck é estudante de jornalismo da UFJF