Crianças e trabalho doméstico Pesquisa mostra que, na faixa etária de 15 a 17 anos, 24,8% dos adolescentes deixaram de freqüentar a escola para ajudar nos afazeres domésticos
Repórter
31/03/2008
A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada na última sexta-feira, 28 de março, mostra que quase metade das pessoas entre cinco e 17 anos de idade realizava trabalhos domésticos em 2006.
Esta porcentagem representa um número de 22,1 milhões de pessoas e mais da metade, 62,6%, corresponde ao sexo feminino. Entre os homens, o número que exerce trabalhos domésticos, é de 36,5%. Segundo a pesquisa, a participação de crianças e adolescentes em afazeres domésticos era maior nas regiões Norte e Sul, com 54,1% e 54,5%, respectivamente, enquanto o Sudeste apresentava o menor percentual, de 45,2%.
A medida em que aumenta a faixa etária, também aumenta o número de jovens que realiza trabalhos domésticos. O número era de 24,7% para as crianças com idade entre cinco e nove anos e de 60% para crianças entre 10 e 13 anos. Para a faixa etária de 14 e 15 anos, 68,8% dos jovens colabora com as atividades do lar, e para a 16 e 17 anos, 67,9% exerciam atividades de casa. Em todos estes casos, o número de meninas é maior que o de meninos.
Na faixa etária de 15 a 17 anos, 24,8% dos adolescentes deixavam de freqüentar a escola para ajudar nos afazeres domésticos. Além destes números, a pesquisa também mostrou que, mesmo trabalhando, 75,8% das pessoas entre zero e 17 anos freqüentava a escola.
Para o chefe do setor de relações do trabalho da Gerência Regional do Trabalho
e Emprego em Juiz de Fora, José Tadeu de Medeiros Lima, este número
é inaceitável. "Temos que revertê-lo e fazer uma conscientização entre as pessoas.
É interessante que as crianças se afastem da escola e vendam seu futuro por causa do trabalho?"
,
questiona.
Segundo ele, os programas sociais do governo existem para evitar esse tipo de situação,
mas nem todas as famílias que precisam de ajuda têm acesso. "O problema é que esses
programas não conseguem atingir o público que realmente precisa"
, explica. Tadeu diz
não existem números que mostram a situação real de Juiz de Fora. "A Pnad faz essa pesquisa
em Juiz de Fora, mas os números não são divulgados por cidade"
, lamenta.
Crianças e adolescentes podem trabalhar?
Tadeu classifica o trabalho de crianças e adolescentes como uma modalidade invisível
e sem fiscalização. "É um trabalho que está dentro de casa e não podemos fiscalizar.
A casa é do cidadão e ninguém entra, a não ser com mandato judicial"
, explica.
O trabalho infantil é proibido e os adolescentes só podem trabalhar após os 14 anos,
na situação de aprendiz, o que se aplica ao trabalho urbano e rural
e não ao doméstico. "É difícil ter uma pessoa
para ensinar um jovem a trabalhar, por exemplo, na cozinha, onde só os maiores de 18 anos
podem exercer atividades. É um local perigoso, pois tem fogo, facas, panela de pressão"
.
Os adolescentes maiores de 16 anos só podem trabalhar desde que o ambiente não seja perigoso,
penoso, insalubre ou que o trabalho não seja realizado à noite. "Este tipo de trabalho só após os
18 anos"
, completa. Se o jovem maior de 16 anos realizar trabalhos domésticos, ele deve ter os mesmos
direitos que um adulto. Eles são regulamentados pela lei do trabalho doméstico, já que
a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) exclui este tipo de atividade.
"Ter carteira assinada, estar filiado à previdência social, ter férias e 13º.
Estes são os direitos de quem realiza trabalhos domésticos. A diferença para os outros
trabalhos é que o fundo de garantia é opcional e pode ter direito ao seguro desemprego
se trabalhar mais de 15 meses"
, diz Tadeu.
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