Deus ajudou e Juiz de Fora parou. Por cinco minutos, após o fim do jogo do Tupi, para ver o drama do Uberaba, e por horas, depois, para ver o Tupi passar. Em carreata, de trio elétrico e carro de bombeiro. Quem diria! Dois anos depois, o Galo trocou os camburões pelos carros de festa. A tensão, as vaias e os protestos pelos aplausos. E mais um capítulo da história de amor e ódio, porém com muito mais amor, de Juiz de Fora com o Carijó foi escrito.
Milagres acontecem no futebol, mas por esse poucos, de fato, esperavam. Tanto que dos 10, 12 mil pagantes que costumavam ir no Municipal em dia de jogo, apenas mil e quinhentos, mais ou menos isso, apareceram para a despedida. Era para a ser a despedida do campeonato deste ano. Mas foi mais do que isso: a despedida do Campeonato Mineiro do Módulo II. Agora, o Tupi volta a representar a cidade na Primeira Divisão dos Profissionais. Pena ter que esperar até 2007 para que os bons tempos comecem.
Antes deles, drama. Muito drama. O Tupi, que já teve a classificação perto das mãos, e longe das esperanças, entrou em campo quase eliminado do hexagonal final. Quase. O time precisava vencer por dois gols de diferença, em seu jogo contra o Juventus, de Minas Nova, e ainda contar com a sorte para que Uberaba e Mamoré, mesmo jogando em casa, não vencessem suas partidas. E foi o que aconteceu.
O Carijó entrou meio atrapalhado, sem muita objetividade, mas correndo atrás do que precisava. E conseguiu ainda no primeiro tempo. Depois de uma bobeira do goleiro adversário, que entregou a bola na cabeça de Felipe, a torcida Carijó foi ao delírio, aos 37 minutos. Mas durou pouco. Muito pouco a alegria. Logo dois minutos depois o Juventus empatou e Felipe passou de herói a vilão. Foi expulso e deixou o Carijó com apenas dez jogadores em campo.
Foi o suficiente para que o torcedor perdesse a cabeça. Na verdade, a
paciência andava tão curta quanto a esperança no Estádio Municipal
Radialista Mário Helênio. Na saída para o intervalo, ambas desapareceram.
Mas um tempo respirando, os resultados acontecendo nas outras partidas e o
torcedor resolveu dar mais um voto de confiança ao time.
Quem saiu vaiado no intervalo, voltou aplaudido. E fez por onde. Depois de uns minutos de sonolência e algumas mexidas do técnico Zé Luís, o Galo fez um e depois outro. Aos 13 e aos 29. Primeiro com Leandro Guerreiro, após ótima jogada de Allan. Depois do próprio Allan, que não se conteve e caiu no gramado após o gol salvador. Não foi do título, que ficou com o Rio Branco, mas nessa ocasião é como se fosse.
Sufoco, susto, tensão. Drama! Depois de conseguir o que precisava, reverter tudo o que estava contra, o Tupi precisava se segurar. O tempo foi passando, o Juventus apertando, mas a bola ía batendo daqui, dali e não entrava. Era a prova de que a sorte definitivamente tinha mudado de lado, enfim...
Quando o juiz apitou o fim do jogo o que se viu foi uma meia-festa. Tanto em campo quanto nas arquibancadas. Vibração contida, afinal ainda faltava terminar o outro jogo. Foram cinco minutos a mais de sofrimento. Jogadores ajoelhados, rezaram. Mudaram de função. Agora eram como os outros mil que se acotovelavam perto dos radinhos nas arquibancadas. Torcedores. Assim, difícil diferenciá-los entre jornalistas, dirigentes e demais pessoas envolvidas na ocasião. Rostos tensos, lágrimas nos olhos. Silêncio, o barulho do rádio. Chiados longes, difíceis de distingüir.
Momento ímpar. Nunca se viu e dificilmente nunca se verá algo como aqueles cinco minutos no Estádio Municipal. O tempo foi suficiente para que jogadores, torcedores, jornalistas, dirigentes, trabalhadores, todos pudessem entrar em um só pensamento. Será? Foi.
Explosão de alegria. Abraços, choro. Gritos. Palavrões. Palavrões de amor... Desses que só valem para o futebol.
Portões abertos, invasões do gramado. O que já se parecia, se misturou. A festa ganhou um contorno único. Era tudo uma coisa só. Uma alegria só. Um alívio só. Já não existiam mais as grades que separavam o suor dos jogadores, da lágrima do torcedor.
Atrás, na frente, em cima, do lado do trio-elétrico só não foi para quem, a esperança, já tinha morrido. Ao fim da partida, os corajosos que ficaram ou pegaram carros e entraram na carreata, ou subiram no caminhão de bombeiros mesmo, junto com alguns jogadores. A maioria dos atletas veio atrás, no trio-elétrico, com microfone na mão, comandando, eles mesmos, a alegria alvinegra. Bem diferente do que se viu em 2004, quando o Galo deixou o Municipal e a elite do futebol mineiro de camburão. Nada como um dia após o outro. Elencos mudaram, torcedores não. Talvez por isso a emoção foi tão grande. Haviam entre aqueles os que protestavam há dois anos antes e só agora podiam expressar exatamente o que estavam sentindo. Aplaudindo os jogadores, viveram seu dia de glória.
O goleiro Eládio, o mais festejado em todos os jogos, foi também o primeiro a se juntar à festa do lado de fora do gramado. Dali, explicou, com uma história simples, que aprendeu em casa, como o time não desistiu da disputa. Eládio contou a história do cavalo que caiu em um buraco, a mesma que contou aos jogadores no momento mais difícil que o time viveu no campeonato. Dos ensinamentos da família simples do goleiro parecem ter vindo as forças que ninguém mais sabia existir para que a situação mudasse.
Na história de Eládio, um cavalo cai no buraco e ninguém consegue tirá-lo e lá. Tentam de tudo, mas depois desistem. Decidem então jogar terra para enterrá-lo. A cada pá de terra que cai, o cavalo sacode, a terra cai no chão e ele soca com as patas. Assim, o buraco vai diminuindo, e o cavalo sai. Não precisa dizer mais nada.
Fora do buraco, é o Galo que agora teria um longo caminho, bem mais agradável do que o que viveu dentro dos campos nos últimos meses. Agora o único desafio era escapar de fios, árvores e bandeirinhas de Copa do Mundo, de cima do trio, na carreata que tinha como destino o Centro da cidade.
Com dezenas de carros atrás, a carreada Carijó mandou todo mundo para a janela no caminho. Crianças acompanhavam de bicicleta. Sabe-se lá como voltariam para um lugar tão longe depois. Descer era fácil. Subir, eles provavelmente nem lembravam que teriam que fazer. Um torcedor foi além. Desceu correndo, à pé. Até o Centro. Foi quando permitiram que ele subisse no caminhão de bombeiros e curtisse a festa, mais confortável e de novo ângulo.
De lá ele viu, em bares, nas janelas, nos prédios, nos passeios, um monte de gente feliz, aplaudindo e transmitindo o sentimento que Juiz de Fora nutre por seu único representante no futebol profissional. Luzes piscaram ao pedido de jogadores. Pedidos de sorriso eram retribuídos. A senhora que faz o sinal de positivo com o dedo. O homem que balança a camisa. O garçom que grita de emoção e vai acompanhando o trio, deixando as mesas à espera de atendimento.
Pela Rio Branco, Independência, ruas do Alto dos Passos, Paulo Frontin. A festa chegou até a Praça da Estação, quando os jogadores desceram e foram para um restaurante comemorar a vitória. Os torcedores ficaram do lado de fora. Ou foram para casa, para o bar ou para qualquer lugar. Foram comemorar o fim de um pesadelo. E o início de um sonho.