Esporte
Aikido
A arte marcial veio do Japão e mostra que nem sempre a força
é fundamental para garantir um bom desempenho no esporte
*Colaboração
19/03/2007
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Quando você pensa em arte marcial e um tatame, o que vem à sua cabeça? Provavelmente, imaginou pessoas lutando, competindo e fazendo esforço para vencer o adversário. Mas, para quem pratica Aikido (pronuncia-se aiquidô), o professor Ricardo Silva (foto) diz que nem sempre a força é fundamental para garantir um bom desempenho no dojô - o local em que os orientais praticam suas artes.
Ricardo assistiu à primeira demonstração da técnica em 1990,
quando era técnico da seleção mineira de caratê.
"Nessa apresentação, notei tudo que eu procurava treinar em uma arte marcial.
Deixei o lado competitivo do caratê de lado e passei a trabalhar o lado
filosófico com o Aikido"
, conta. Quase duas décadas depois,
o professor está no 3º Dan da faixa preta, nível de conhecimento que lhe
garante a possibilidade de ensinar outras pessoas.
E haja gente para treinar! No centro de treinamento de Ricardo,
mais de 70 jovens, crianças, idosos, homens e mulheres praticam a arte marcial.
"Qualquer pessoa pode participar das aulas. No Aikido, ao contrário
de outros esportes, a experiência garante um desempenho melhor, já que o
que conta aqui não é a força"
, comenta o professor. Desde que
trouxe a técnica para Juiz de Fora e começou a ensinar o Aikido,
Ricardo calcula ter treinado mais de 400 pessoas.
O estudante Bernardo Hallack (foto ao lado), de 19 anos,
é vizinho do mestre Ricardo. Como procurava uma arte marcial, a proximidade
o levou ao dojô do ex-carateca. Ele treina diariamente e diz que as mudanças
foram grandes. "A gente ganha consciência corporal e passa a saber qual
é o limite do nosso corpo. O mais interessante disso tudo é que, no Aikido,
a filosofia da não-violência mostra que não deve haver combate.
Aqui, a técnica se sobressai à força"
, defende.
Frederico Quesado tem 14 anos e treina há dez meses. Ele chega ao dojô
vestido com uma camisa do Flamengo, senta-se em um banco e começa a ler
um mangá - revista em quadrinhos baseada no estilo japonês, lida de
trás para frente. "Como sempre me interessei pela cultura japonesa
e meu pai começou a praticar Aikido, acabei entrando junto"
, diz.
Frederico não treinou porque estava com o braço dolorido e teria exame
de faixa dois dias depois, assim como vários outros colegas.
Ele foi ao treino só para observar. Como quem não quer nada,
ele acaba se deitando em uma esteira de palha próxima ao tatame e
tirando um cochilo. E é assim, nesse clima de tranqüilidade, que a aula acontece.
Tradição nipônica
O treino sempre começa com uma saudação ao retrato do fundador
da arte marcial, o japonês Morihei Ueshiba (foto ao lado).
"O Sensei", como Ueshiba é respeitosamente chamado pelos praticantes,
criou o Aikido a partir da junção de outras artes marciais no começo
do século passado. O grande objetivo da prática, segundo o professor
Ricardo, é o auto-conhecimento.
Para garantir um momento introspectivo no início do treino, o mestre acende
um incenso próximo ao quadro com a fotografia de Morihei Ueshiba. Em silêncio,
os praticantes realizam exercícios de respiração e alongamentos.
A concentração e o relaxamento são alguns dos benefícios apontados por Ricardo.
"O respeito ao próximo também é muito reforçado. O Aikido faz com que você
passe a ver o outro de uma forma diferente"
.
Com os praticantes relaxados, o treino começa a ficar mais intenso.
Os alunos se dividem em duplas e treinam, por mais de meia hora,
diferentes técnicas de acordo com o grau de conhecimento e experiência.
Pode parecer difícil para quem está começando, mas com o tempo os pupilos
acabam se adaptando. "A técnica tem muitos movimentos circulares,
que nós não estamos acostumados a realizar. Depois de bastante treino,
a dificuldade vai diminuindo"
, diz o mestre.
Para a estudante Larissa Delage, essa foi a sua segunda aula.
Ainda sem o gi - como é chamado o traje japonês que nos acostumamos
a chamar de quimono -, ela parece satisfeita e conta que quer se mudar
em breve para o Rio de Janeiro. "Minha mãe achou que aprender uma técnica
de defesa pessoal seria bom para mim, já que a situação lá no Rio não anda boa.
Sempre gostei de artes marciais, por isso entrei no Aikido"
.
"Mas o uso da espada de madeira e do bastão não tem nada a ver com violência. Quando o aluno aprende a usar esses instrumentos, é evidente a melhora da postura e do equilíbrio na falta deles", ressalta.
E para quem está preocupado com a boa forma,
a prática também pode gerar ótimos resultados. "Uma pesquisa mostrou
que o Aikido é a arte marcial que mais queima calorias, entre 800 e
900 por aula"
, diz Ricardo.
"Como os movimentos exigem firmeza,
o corpo ganha resistência e preparo físico"
, aponta Bernardo.
"Se você procura uma arte marcial que pode te trazer um bem-estar pleno,
que vai melhorar a sua auto-estima e mudar a forma como você vê o mundo,
pode começar a praticar o Aikido"
, recomenda o estudante.
Algumas curiosidades
Steven Seagal (foto ao lado), astro de vários filmes de ação, difundiu a prática do Aikido através do cinema. O ator, que é norte-americano, passou um tempo no Japão e foi instruído por um aluno do criador da técnica. Seagal está no 7º Dan e abriu seu próprio dojô."Os filmes dele foram importantes para divulgar o Aikido para o mundo, mas ele acabou mostrando muita violência, o que foge completamente à filosofia que nós pregamos", pondera o professor Ricardo.
Vez por outra, surgem vídeos na Internet demonstrando o
"poder" de alguns praticantes de artes marciais que, sem tocar
os adversários, conseguem derrubá-los ou mesmo arremessá-los.
O mestre não duvida do poder do ki - a energia vital em que se baseia
a filosofia do Aikido -, mas afirma que existem exageros.
"Não adianta querer ver aqueles poderes de desenho animado
japonês, porque isso não existe. O que acontece é que alguns
praticantes mais experientes conseguem se ligar com o oponente
de tal forma que, quando acontece um movimento de ataque,
eles conseguem se ajustar e fazer essa energia se voltar contra o adversário"
.
Lemas do Aikido
2 - Não se enervar
3 - Não se entristecer
4 - Não possuir sentimento hostil
5 - Ser compreensivo
6 - Ser tranquilo
7 - Ser pacífico
8 - Manter a ética
9 - Fazer amizade com todos
10 - Respeitar a Deus e as pessoas
11 - Ser humilde
12 - Ser justo e honesto
13 - Conscientizar-se que o Aikido representa o caminho de Deus
14 - Conscientizar-se de que a prática do Aikido tem por princípio o auto-conhecimento
*Fellipe Gomes é estudante de Jornalismo da UFJF.
A matéria foi realizada como atividade do processo de seleção
para estágio no Portal ACESSA.com
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