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Jornal Pessoal: a utopia do jornalismo

Lúcio Flávio Pinto - Setembro 2006
 

Neste mês de setembro, o Jornal Pessoal completa 19 anos de vida. O número não é redondo, mas a data tem um significado especial: este jornal se tornou mais velho do que a publicação na qual se inspirou, de longe o melhor jornal verdadeiramente alternativo que já circulou. O I. F. Stone’s Weekly começou em janeiro de 1953, em plena guerra fria e de maccarthismo, e terminou em dezembro de 1971, sob o governo Nixon, sobrevivente da época anterior. O IFW era escrito integralmente, em Washington, por Isidore Feinstein Stone, um filho de imigrantes russos que se tornaria mais conhecido como Izzy Stone.

Ele tinha 45 anos de idade e 26 de jornalismo quando decidiu fazer seu próprio caminho, depois de transitar por publicações que iam do centro à esquerda. Já era um profissional respeitado: 5.300 pessoas, entre as quais o físico Albert Einstein, o filósofo Bertrand Russell e Eleanor Roosevelt (viúva do presidente Franklin Delano Roosevelt, morto oito anos antes), se dispuseram a pagar antecipadamente cinco dólares por uma assinatura anual (com 48 edições) da nova newsletter.

Mas não foi uma ação de caridade. Fizeram, na verdade, um excelente negócio. Durante quase 19 anos o I. F. Stone’s Weekly registrou a outra história dos Estados Unidos e do mundo. Não só era a história não-oficial como seu conteúdo não aparecia em nenhuma outra publicação, mesmo as de esquerda, mais identificadas com as posições de Stone. O que distinguia o seu jornalzinho dos demais era sua capacidade de encontrar todos os fatos elucidativos das questões abordadas, enquanto os outros se restringiam a apenas alguns desses dados, substituindo-os ou suprindo-os com conceitos de valor, idéias, opiniões.

Quando suspendeu a circulação do seu jornal, depois de ver-se obrigado a torná-lo quinzenal, por causa de um enfarte que sofreu, Stone podia se orgulhar de ter 66 mil assinantes espalhados pelos EUA e os cinco continentes. Quarenta assinaturas, todas pagas, naturalmente, iam para a Casa Branca, a sede do executivo, e o Capitólio, a casa do parlamento. Mesmo os que não gostavam dele viam-se obrigados a lê-lo se queriam ter informações confiáveis e abordagens elucidativas.

Algumas das fontes não eram nada inacessíveis. Mas quem lê balanços de empresas, relatórios, estatísticas, prestações de contas, leis, decretos, portarias, acórdãos, estudos científicos? Em primeiro lugar, é preciso ter disposição para ler. Em seguida, saber ler, superando códigos e linguagens cifradas que bloqueiam o acesso. Depois, entender plenamente o que leu, situando o assunto em seu contexto e correlacionando-o a temas afins. E, no caso de quem quer comunicar o que sabe a terceiros, ser capaz de fazer-se entender, expressando-se com clareza.

Como era jornalista, Stone nunca se preocupou em seguir as regras de normalização e mesmo alguns procedimentos metodológicos correntes no mundo acadêmico. Os intelectuais universitários o liam muito, mas o citavam pouco. Os leitores fiéis de Izzy só se deram conta integralmente da apropriação não confessada de seus textos por terceiros quando eles foram reunidos em livros, permitindo uma visão de conjunto de sua obra (sempre em progresso).

Sua capacidade de obter, organizar e divulgar informações era notável, sem paralelo entre os que, na mesma época, produziram textos para divulgação pública imediata. Por isso, consultá-lo era indispensável – ou inevitável – para quem quisesse saber o que estava acontecendo na mesma hora em que estava acontecendo. Certamente muitos outros analisaram melhor vários dos temas abordados por Stone, mas já então à distância dos fatos.

A capacidade de perceber a novidade exatamente quando ela aparece é a principal qualidade dos jornalistas mais bem aparelhados. Entender o novo e contextualizá-lo é uma virtude rara mesmo entre os mais talentosos jornalistas. Por causa de sua inteligência privilegiada e excepcional capacidade de trabalho, I. F. Stone tinha das duas qualidades em abundância.

Ainda assim, é triste verificar que, menos de 20 anos depois de sua morte, aos 82 anos de uma vida fecunda, seu nome é cada vez menos lembrado. O melhor livro escrito sobre ele ainda é a biografia de Robert C. Cottrell, publicada em 1992 (e até hoje sem tradução no Brasil). É um trabalho de alto nível, especialmente por acolher o jornalista com generosidade, mas também com rigor, no geralmente preconceituoso mundo acadêmico. Cottrell mostra que a produção jornalística de Izzy resiste à mais exigente das leituras universitárias, sem se desmanchar no patois dos intelectuais de carreira.

A falha do livro está justamente no outro lado dos seus méritos: dar menos atenção ao modus operandi do jornalista no seu universo profissional. Um aprofundamento nas páginas do I. F. Stone’s Weekly e no seu método de investigação teria efeitos enriquecedores sobre os jornalistas em atividade, cada vez mais limitados no seu horizonte intelectual. No Google, ao que parece sua principal fonte de pesquisa, as entradas referentes a Stone são de uma pobreza lamentável. O Google e sites semelhantes fornecem informação, mas não cultura. Uma das chagas dos nossos tempos é a incultura glamourizada. Ficou fácil dar boa encadernação a imbecis.

De 1971 a 1989, quando morreu, já sem sua trincheira solitária, Stone espalhou textos preciosos por várias outras publicações, especialmente o New York Review of Books. Sem a bitola da informação em conta-gotas e da fita métrica da escrita, que se tornaram dogmas nos manuais de redação em vigor nas principais redações, esses artigos eram um convite ao raciocínio em profundidade, sem a gaseificação ligeira do jornalismo com enfisema mental. Nessas últimas décadas o intelectual que havia em Stone se libertou das amarras do cotidiano, sem nunca se desprender, porém, do seu terreno fundamental: os fatos. Em raros jornalistas essa combinação foi melhor.

Lembro-me bem dos efeitos tonificantes das primeiras leituras de Stone. Elas me davam argumentos para os duelos argumentativos, mas também me orientavam nas minhas próprias investigações e análises. Forneciam um método de trabalho sem que o autor tivesse qualquer intenção pedagógica. Não é no manual que se aprende o melhor jornalismo. Quem sai atrás desse objetivo nos cursos de comunicação vai se frustrar, depois de rodar na quadratura do positivismo.

O progressivo esquecimento de I. F. Stone significa que ele envelheceu? Duvido. A verdade tem que ser buscada do outro lado da pista: a vida intelectual é que se empobreceu e os intelectuais se encolheram em seus tugúrios. O intelectual público morreu, proclamou Russell Jacoby. Fileiras deles se movimentam pelos corredores das universidades e trabalham em seus escaninhos.

Mas não os obriguem a deixar suas tocas refrigeradas, apascentadas pela desobrigação de responder aos desafios do dia-a-dia. O que eles querem é produzir grandes dissertações, profundas teses, brilhantes insights, percucientes approachs. Tudo pelo mundo virtual. A realidade passou a ser circunstância menor, sem mérito, sem fascínio.

Numa região como a Amazônia, o cotidiano clama pela mente antimental dos intelectuais. Há muitas mudanças, terrivelmente rápidas, desconcertantemente desafiadoras. Necessita-se de um raciocínio capaz de costurar todos os fios soltos, estabelecer as conexões possíveis, dissipar as brumas enganosas, as miragens que desviam a compreensão, que fantasiam. Mas os muros das universidades são altos, estão cheios de hera, foram eletrificados. E o intelectual sumiu dos bares, das ruas, das praças, que já não são mais do povo (e o condor bateu asas e voou).

Digo tudo isso a propósito dos 19 anos deste Jornal Pessoal não para associá-lo à newsletter de I. F. Stone, num paralelismo desmedido, injustificadamente pretensioso. A referência pretende apenas mostrar que o impossível existe. Se não é possível produzir um jornal da mesma qualidade, é proveitoso tê-lo em conta. O possível só é impossível porque não estamos em condições de realizá-lo, mas alguém já o conseguiu ou conseguirá. Convém não desistir. Melhor manter aquecida a utopia.

O desejável era ter uma publicação coletiva, com meios para chegar aos leitores e recursos para alcançar os fatos, abrindo ao máximo a avenida da informação. Temos essa publicação? A existência deste jornal responde que não. Ele faz muito menos do que devia. Faz, aliás, um átimo do que devia. Mas o que faz revela que os que podem não fazem nem o que está ao seu alcance. A desinformação, com tantas fontes de acesso, é abissal. O comum dos cidadãos faz o que não sabe o que significa e o que sabe tem pouca significância para o fazer que decide. A história passa ao largo ou nos atropela. Estamos condenados a não vê-la ou a ser-lhe a primeira vítima.

Ao longo dos últimos tempos uma provocação cada vez mais difícil de encarar é a de colocar um assunto grave na capa deste jornal. Invariavelmente o resultado é uma queda na vendagem. A teimosia nessa prática é indício de masoquismo? Não: é compromisso com o princípio educativo do jornalismo. Nosso produto tem que vender, mas seu conteúdo não pode ser definido apenas pela necessidade de venda. Há um momento em que precisamos destacar aquilo que o leitor tem que saber, não apenas o que ele quer saber. Só assim se forma opinião pública. O problema é: o leitor ainda é suscetível a essa pedagogia? Ele está disposto a se interessar pelo que, desde logo, não lhe interessa?

É nesse momento que surge o agente cultural, o intelectual público. Surge em tese; devia surgir e não aparece, na realidade. Há uma divisória de incultura separando o comunicante do comunicado, o jornalista do leitor, o intelectual do cidadão.

Enquanto o índice de analfabetismo caiu bastante no país, o de analfabetismo funcional cresceu assustadoramente. As pessoas cada vez mais sabem ler. Mas não entendem o que lêem. Ou entendem completamente ao contrário do que está dito. O analfabetismo aberto está nas ruas. O analfabetismo funcional está nas escolas, inclusive nesses ninhos de rato em que se transformaram as faculdades amebas. Uma lâmina invisível se interpõe entre o professor e o aluno, isso quando o mestre tem o que dizer ao seu discípulo. O teatro do absurdo desceu do palco para a platéia.

É terrível um quadro cultural dessa qualidade numa região que sofre transformações radicais como a nossa. Mais do que em qualquer outra, aqui é mais sentida a necessidade do ofício da inteligência, dotada de capacidade de reação imediata ao novo desafiador, desarticulador. Mas quando as novas situações se estabelecem, sendo despejadas na selva pelos “grandes projetos”, a falta de quem traduza para a sociedade os códigos trazidos pelo novo personagem provoca um vácuo de inteligência, que gera incompreensão, conflito, desgaste, perda de identidade, subdesenvolvimento (ou qualquer outro conceito equiparável). Nossos sonhos de não nos tornarmos colônia se desmancham no ar.

Este jornal tem procurado fazer a sua parte, mas constata, depois de 19 anos, que o saldo, se existe, é magro, insuficiente para tentar reverter a onda que desaba sobre o litoral da nossa história. Resta-lhe, ao menos, olhar para trás e constatar que se as batalhas não foram vencidas, ao menos se batalhou e batalha-se. Não pouco. Ao contrário de muitos outros, em melhores condições ou mais bem aparelhados, buscou-se o combate, ao invés de se acomodar à sombra de um emprego, atrás de uma desculpa esfarrapada, como aquelas mais comuns (“não vou mais à banca”, “estava viajando”, “não tive tempo”, etc.).

Se a história destes tempos difíceis e fascinantes perguntar, o Jornal Pessoal continuará a responder: presente! Mesmo que já tenha ido.

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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006).

 




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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