Saúde


Artigo
Maternês II:
Quando a fala entra em cogitação
::: 20/01/2003

"Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva em seus braços
Eu serei perfeito amor".
Mário Quintana

O diálogo entre mãe e filho pode ser muito promissor na qualidade da comunicação, bem como pode dificultar a construção de uma relação saudável entre os dois, comprometendo a leitura que o bebê possa construir sobre o mundo, ou ainda modificar o que a mãe já tenha construído até então.

A interpretação mútua do diálogo vai estabelecendo uma conversação em direção ao desenvolvimento da linguagem, da cognição. A afetividade tende a solidificar a relação que pode ser observada no sorriso, na melodia da voz, no conforto do contato físico entre a mãe e seu bebê, entre o bebê e sua família.

O que podemos observar nesse processo de construção da linguagem?
Quando o bebê começa a entrar em contato com o mundo sonoro, ele vai desenvolvendo sons e todo o seu universo interno entra em movimento quando existe o contato saudável com o ambiente. Se ele sinaliza alguma situação através do choro, e substitui o conforto pelo desconforto , o prazer pelo desprazer, a alegria pela tristeza, é porque alguma coisa não está bem com ele. E se o choro for freqüente, estamos diante de um sinal de alarme que precisa ser cuidado com muita atenção. A comunicação e a felicidade entram em cogitação.

É possível reverter esse quadro? Como a família pode preceder?
Bem, é possível que a mãe sozinha não consiga dar conta dessa alteração de comportamento e o auxílio do pai e da família podem diminuir consideravelmente a angústia e o mal estar que surgem nessa situação.

Vimos anteriormente que a importância da fala dirigida ao filho está na manutenção da atenção e ativação da memória do mesmo, bem como na construção do vínculo e do apego, na medida em que, através do contorno melódico, a mãe pode transmitir seu afeto, interesse e cuidados. Isso torna benéfica toda e qualquer construção da comunicação. O inverso pode ser desastroso se não tomarmos cuidados, colocando em risco também a construção do apego entre mãe e filho, embora de tamanha complexidade, mas fundamental para a vida saudável da família.

Se a corporeidade sonora da linguagem desencadeia todo um prazer na criança pela descoberta do mundo, mas se ela não entrar no campo do prazer em falar, toda a construção do afeto, da linguagem entra em cogitação e não é difícil perceber seu corpinho contido, fechado, mostrando o início de um processo doentio do ponto de vista psicológico e lingüístico.

Todo trabalho preventivo necessita de auxílio de profissionais embasados em estudos e prática sobre o assunto. Psicólogos, pediatras e fonoaudiólogos, que se interessam pelo desenvolvimento humano, se preocupam com as questões relacionadas com a saúde psicológica e lingüística da família. E o têm feito com ciência e arte no desejo de que os humanos se tornem cada vez mais humanos.


Cal Coimbra
é psicóloga e fonoaudióloga especialista em voz
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