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Artigo Maternês II: Quando a fala entra em cogitação |
"Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva em seus braços
Eu serei perfeito amor".
Mário Quintana
O diálogo entre mãe e filho pode ser muito promissor na qualidade da
comunicação, bem como pode dificultar a construção de uma relação saudável
entre os dois, comprometendo a leitura que o bebê possa construir sobre o
mundo, ou ainda modificar o que a mãe já tenha construído até então.
A interpretação mútua do diálogo vai estabelecendo uma conversação em direção ao desenvolvimento da linguagem, da cognição. A afetividade tende a solidificar a relação que pode ser observada no sorriso, na melodia da voz, no conforto do contato físico entre a mãe e seu bebê, entre o bebê e sua família.
O que podemos observar nesse processo de construção da linguagem?
Quando o bebê começa a entrar em contato com o mundo sonoro, ele vai
desenvolvendo sons e todo o seu universo interno entra em movimento quando
existe o contato saudável com o ambiente. Se ele sinaliza alguma situação
através do choro, e substitui o conforto pelo desconforto , o prazer pelo
desprazer, a alegria pela tristeza, é porque alguma coisa não está bem com
ele. E se o choro for freqüente, estamos diante de um sinal de alarme que
precisa ser cuidado com muita atenção. A comunicação e a felicidade entram
em cogitação.
É possível reverter esse quadro? Como a família pode preceder?
Bem, é possível que a mãe sozinha não consiga dar conta dessa
alteração de comportamento e o auxílio do pai e da família podem diminuir
consideravelmente a angústia e o mal estar que surgem nessa situação.
Vimos anteriormente que a importância da fala dirigida ao filho está na manutenção da atenção e ativação da memória do mesmo, bem como na construção do vínculo e do apego, na medida em que, através do contorno melódico, a mãe pode transmitir seu afeto, interesse e cuidados. Isso torna benéfica toda e qualquer construção da comunicação. O inverso pode ser desastroso se não tomarmos cuidados, colocando em risco também a construção do apego entre mãe e filho, embora de tamanha complexidade, mas fundamental para a vida saudável da família.
Se a corporeidade sonora da linguagem desencadeia todo um prazer na criança
pela descoberta do mundo, mas se ela não entrar no campo do prazer em falar,
toda a construção do afeto, da linguagem entra em cogitação e não é difícil
perceber seu corpinho contido, fechado, mostrando o início de um processo
doentio do ponto de vista psicológico e lingüístico.
Todo trabalho preventivo necessita de auxílio de profissionais embasados em estudos e prática sobre o assunto. Psicólogos, pediatras e fonoaudiólogos, que se interessam pelo desenvolvimento humano, se preocupam com as questões relacionadas com a saúde psicológica e lingüística da família. E o têm feito com ciência e arte no desejo de que os humanos se tornem cada vez mais humanos.
Cal Coimbra
é psicóloga e fonoaudióloga especialista em voz
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