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A Parada do Orgulho GLBT de Juiz de Fora vai completar sua quarta edição neste sábado, 26 de agosto, com expectativa de público de 70 mil pessoas. A Parada é um movimento importante como uma das formas de expressão dos movimentos gays, mostrando a necessidade de quebrar os preconceitos e barreiras impostas pela sociedade. Este ano, o tema da Parada na cidade vai seguir o mesmo que todas as outras do Brasil: Homofobia é crime. A equipe do ACESSA.com foi conversar com o presidente do Movimento Gay de Minas (MGM), Oswaldo Braga, sobre a importância deste movimento para a inclusão social dos homossexuais e também sobre a declaração de Clodovil Hernandes não participar de Paradas Gays. ACESSA.com - O que o MGM tem a dizer sobre a declaração de Clodovil não participar de Paradas Gays? Isso incomodou em que sentido? Oswaldo Braga - Incomodou no seguinte sentido. O Clodovil não entendeu ainda que a Parada Gay é um movimento cívico, um movimento de defesa de direitos. Quando ele diz que não se expõe a esse ponto de participar de uma Parada Gay, ele, na verdade, está dizendo que ele não reconhece as Paradas Gays como movimento cívico. Ele mesmo disse isso, que a Parada é nada, que a Parada é um carnaval fora de época. Eu acho que ele ainda não conseguiu ver o que está por trás disso. quando nós homossexuais vamos pra rua, vamos botar a nossa cara num dia, com orgulho. Orgulho de ser quem a gente é, não se escondendo de vergonha, igual a gente passa a maior parte do tempo, como a gente, muitas vezes, é obrigado a agir pra escapar da violência, da opressão contra os homossexuais. O dia da Parada é o dia que a gente inverte esse sentimento. A gente vai pra rua pra mostrar politicamente que nós existimos, que nós somos cidadãos, que nós precisamos que nossos direitos sejam garantidos, que nós que estamos escondidos - principalmente, nas casas das famílias mineiras, lá no quartinho dos fundos, não conta pra ninguém - e de repente a Parada vira isso. Uma vez por ano nós vamos às ruas para dizer: "Somos homossexuais, vivemos nessa cidade, colaboramos com o progresso dessa cidade, ajudamos a construir esse país e estamos aqui". De que jeito? Do jeito que nós sabemos fazer, do jeito que é culturalmente nosso. Com alegria, com música, com cores, com muita bandeira do arco-íris, com muita roupa exagerada. Nós somos assim! E nesse momento, na hora que a gente se beija na rua, o que nós estamos querendo fazer? Nós estamos querendo mostrar para as pessoas que nós temos a nossa forma de afeto e que as pessoas acostumem-se conosco! Não estamos querendo afrontar ninguém. Nós estamos querendo dizer o seguinte: "É assim, ó! Igual você, heterossexual, que beija sua mulher com carinho, com afeto, nós também!". Então, é um movimento político.
Ele nunca veio no Miss Brasil Gay, nunca! O Miss Brasil Gay tem 30 anos. Clodovil Hernandes tem 70 anos! Quando o Miss Brasil Gay começou, Clodovil já tinha 40! Quando Clodovil se tornou famoso, o Miss Gay já existia. Por que que o Clodovil nunca veio? O que ele está fazendo aqui agora? Ah, é por que ele é candidato? É por isso sim, é porque ele é candidato. Ele está sendo oportunista! Ele disse isso na entrevista pra vocês. Ele disse isso: "Estou indo agora, porque sou candidato. A Marta Suplicy faz, porque eu não posso fazer?". Ele diz: "A Marta Suplicy se apropria desse segmento para conseguir votos, por que eu não posso fazer?". Sabe por que ele não pode fazer? Porque nós gays temos muita consciência. A gente não vota 'gay vota em gay'. Não. A gente vota em quem tem propostas. E Clodovil Hernandes mostra, cada dia, que não tem proposta nenhuma! Um cara completamente incoerente, vazio, esquisito. Aquela entrevista que ele deu pra vocês foi esquisitíssimo. Tem pedaço que não ficou coisa com coisa, sabe. Ele se contradiz o tempo todo... E na Tribuna também!
Não sei de onde Clodovil tirou que nós estamos guetizando!
Que clube dos gays, clube dos negros, clube dos aleijados. Não é isso!
ACESSA.com - No jornal ele fala que não tem a ver com a política, que
ele é candidato por São Paulo.
Oswaldo Braga - Mas ele sabe muito bem que aqui está lotado de paulista nessa época do ano, no Miss Gay, na rua. Ele sabe disso. Se ele não veio de voto diretamente, ele veio atrás de popularidade. Isso ele veio fazer aqui. Se destacar. Estar na mídia. Como está! Clodovil é polêmico sim, a gente sabe disso. Agora, eu acho que ele está polemizando por um lado que ele não deveria. Olha, Elton Jonh quando se casou agora - foi um dos primeiros gays ingleses a se casar - deu um exemplo de como essas pessoas famosas deveriam se comportar. Até, na época, ele disse - quando eu soube disso, eu mandei um e-mail para os meus contatos - 'Cada país tem o gay que merece'. O Elton Jonh, na hora do casamento dele, quando a imprensa foi entrevistá-lo, ele disse que lamentava muito esse direito que ele estava exercendo, de estar se casando, ainda não estar acessível a todos os gays. Uma declaração dessas é uma declaração política, onde ele está pensando no coletivo. Em compensação, quando a gente vai entrevistar um gay famoso em nosso país, entrevista quem. Clodovil? O que é que Clodovil nos diz? Que casamento entre homossexuais é uma coisa ridícula. Isso é uma homofobia internalizada, na medida em que ele não se considera merecedor desse direito! De ter afeto, de construir uma família. Espera, aí, poxa!? Se não quer pra você, pelo menos você tem que ter o direito de optar 'hoje eu quero me casar, hoje eu não quero me casar. Eu quero adotar uma criança', o outro 'eu não quero'. Mas nós podemos optar. Hoje em dia não nos é dado esses direitos. E Clodovil não entende isso! ACESSA.com - E como o MGM percebe a visão das pessoas em relação a Parada Gay? Oswaldo Braga - A Parada Gay espera, esse ano, 70 mil pessoas. Não são 70 mil homossexuais. A Parada Gay não é uma festa gay somente. É uma festa de inclusão, é um momento em que nós gays nos incluímos no contexto enquanto gays. Mas você vai virar e falar assim: 'mas os gays estão no carnaval!'. Estão, estão sim. Mas lá estão enquanto foliões. Não interesse se ele é gay, se ele não é.
Então, não sei de onde Clodovil tirou que nós estamos guetizando! Que clube dos gays, clube dos negros, clube dos aleijados. Não é isso! Pelo contrário. É um momento em que os homossexuais se incluem nessa diversidade toda. Só isso! E a cidade cada vez mais simpática. Olha, nós perturbamos trânsito dessa cidade de uma forma, porque nós fechamos as três principais vias da cidade, que é a avenida Rio Branco, a avenida Independência e a avenida Getúlio Vargas. Nós fazemos de tudo pra incomodar o menos possível a população, mas não tem jeito. E a população não se antipatiza conosco. Ela compreende. É um dia por ano. Eu vou deixar o meu carro na garagem, vou a pé para o centro ou vou buscar outras alternativas. Se eu não quero ver os gays, eu não quero conviver com os gays, eu vou fazer outra coisa, mas não vou ao centro, porque hoje é o dia deles. Eu sinto que, cada vez mais, a população recebe a gente muito bem. A visão que eles têm da Parada é muito positiva.
Ele nunca veio no Miss Brasil Gay, nunca! O Miss Brasil Gay tem 30 anos. Clodovil Hernandes tem 70 anos! Quando o Miss Brasil Gay começou, Clodovil já tinha 40! Quando Clodovil se tornou famoso, o Miss Gay já existia. Por que que o Clodovil nunca veio? O que ele está fazendo aqui agora?
Ah, é por que ele é candidato? É por isso sim, é porque ele é candidato.
ACESSA.com - Todo ano há um tema em cada Parada?
Como foi a escolha este ano e qual é?
Oswaldo Braga - O tema esse ano é nacional. Na verdade, existe um projeto de lei pra ser votado na Câmara que criminaliza a homofobia. Faz com que a as penalidades da homofobia sejam iguais aos do racismo. Todas aquelas características que têm quando se é racista, a homofobia também terá. e nós percebemos que a probabilidade deste projeto ser aprovado é muito maior, nesse momento, que a união civil, por exemplo. Por quê? Pelo desenho conservador do Congresso. Os conservadores não deixam que a união civil seja aprovada. Eles alegam que existe toda uma questão moral, religiosa e por aí vai. A criminalização da homofobia a gente não acredita que nem esses conservadores vão ser contra uma lei que pretende evitar a violência. A gente acredita que a probabilidade desse projeto ser aprovado é maior do que da união civil. Então, todos os movimentos, todos os organizadores de Parada do Brasil adotaram para esse ano a frase Homofobia é crime. Exatamente para alertar as pessoas da necessidade de aprovação deste projeto da deputada Iara Bernardes. ACESSA.com - O que, normalmente, as pessoas elogiam na realização da Parada do Orgulho GLBT de Juiz de Fora? Oswaldo Braga - A organização. A nossa Parada foi considerada a Parada mais bem organizada do Brasil, de todas as 150 que são feitas. Esse é um ponto fortíssimo. Segundo ponto que as pessoas elogiam demais na Parada é o capricho que a gente tem, são os detalhes. Nós espalhamos banheiro químico em alguns pontos estratégicos do trajeto da Parada, nós decoramos a avenida, nós enfeitamos a cidade toda com as nossas cores, incentivamos as vitrines. Esse capricho é sempre muito elogiado também. Nós temos sempre um presentinho para dar para as pessoas. Esse anos nós vamos distribuir 20 mil bandeirinhas do arco-íris com mensagem de prevenção pra criança, pro velhinho, pra todo mundo que estiver em volta da Parada. Vai ficar linda a Parada, vai ficar muito bonita mesmo. E, finalmente, outra coisa que é muito elogiada é o pacifismo. É um movimento de paz. Nós atravessamos as principais vias da cidade, cantando e dançando sem nenhum incidente, sem nenhuma briga. Isso é muito bacana! O pai não tem receio de ir pra rua assistir à Parada com o filho dele, porque sabe que não vai ter briga, não vai ter problema. Esses são os pontos que eu acho que a nossa Parada mais arrasa. ACESSA.com - A Rainbow Fest surgiu antes da Parada JF. O que fez vocês perceberem que a cidade estava preparada para receber uma Parada Gay?
Como tirar as pessoas do Calçadão e do Parque Halfeld? Já foi uma luta tirar do Calçadão e levar para o Parque Halfeld, diga-se de passagem, porque a tradição do Miss Gay era o Calçadão. Pra gente levar essas pessoas pro Parque Halfeld, nós levamos shows, as Frenéticas... E agora pra levar para um outro lugar, foi aí que a gente falou. Está na hora da gente fazer a Parada. Pegamos toda a festa do Parque Halfeld e do calçadão e arrastamos atrás dos trios elétricos pra praça Antônio Carlos. Na verdade, juntou uma coisa necessária, prática, um problema concreto que tínhamos que resolver com um sonho. Nós sempre sonhamos em fazer uma Parada. A gente tinha muito medo de fazer uma Parada e não aparecer ninguém. Porque nosso segmento é muito invisível. Eu faço uma Parada, será que as pessoas vão botar a cara? A nossa primeira Parada foram 10 mil pessoas, já foi um sucesso. Oswaldo Braga - ACESSA.com - Como é o trabalho do MGM durante todo ano para a inclusão social dos homossexuais?
Quando chega o Rainbow Fest, o que nós fazemos? Nós trazemos as pessoas que estão mais estudando, mais arrasando em termos de modernidade de idéias, o que tem de mais atual, nós trazemos pra Juiz de Fora, abrimos essas informações pra mídia, pra todo mundo, damos a visibilidade ao nosso movimento, ao nosso projeto e mostramos que com pouquíssimo recurso é possível fazer muito. O MGM não é uma ONG que passa pires pedindo; "Ó, me ajude, me ajude!". Não, de jeito nenhum. Nós entendemos que nós temos que ter a nossa própria sustentabilidade. E nós temos, através dos projetos, através das ações que nós desenvolvemos.
ACESSA.com - Que mensagem você deixa para os internautas do ACESSA.com, que acessam o caderno Zona Pink. Oswaldo Braga - Que as pessoas venham conosco, venham pra rua mostrar sua cara, o armário é muito ruim. Eu acho que as pessoas devem avaliar o seguinte. É preferível você ser honesto, coerente, verdadeiro do que você forjar uma pessoa que você acha que vai agradar os olhos dos outros. É preferível você mostrar quem você é de verdade e quem não gostar, o mínimo que vai fazer ou que tem que fazer, é te respeitar. Ficar no armário é muito ruim, então saia do armário e vem pra Parada com a gente!
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