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O fantasma da revolução, 17 anos depois

Jean Rodrigues Sales - Maio 2011
 

Ridenti, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. 2. ed. rev. e ampliada. São Paulo: Editora da Unesp, 2010. 324p.

A editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) reeditou ano passado o livro O fantasma da revolução brasileira. Discutir esse trabalho hoje implica refletir sobre o que permanece de atual na própria obra, mas também pensar a respeito dos rumos tomados pela área de estudos da história da luta armada contra a ditadura militar.

Ao ser lançado em 1993, o livro, fruto de uma pesquisa de doutorado realizada na Universidade de São Paulo (USP) no final dos anos 1980, encontrou um panorama político e historiográfico no qual era patente a falta de interesse na universidade pela temática da luta armada contra a ditadura militar. É certo que as relações entre motivações político-sociais e interesses acadêmicos constituem um tema que ultrapassa os objetivos desta resenha, mas não seria exagerado afirmar que, no início dos anos 1990, a relação da sociedade brasileira com o seu passado ditatorial assentava-se, ainda mais do que hoje, em práticas que visavam ao esquecimento como forma de apaziguar os possíveis conflitos envolvidos na história da ditadura brasileira [1].

Entre os temas mais sensíveis dessa história, encontrava-se justamente o da luta armada, no qual estão implicadas discussões sobre violência, tortura, morte e adesão ou oposição ao regime ditatorial, o que pode explicar o pequeno número de trabalhos publicados sobre o assunto naquele momento. Além disso, não podemos esquecer que os anos 1970 e 1980 foram marcados pela ascensão de novos atores sociais na cena política nacional, como o sindicalismo e os movimentos urbanos de reivindicações variadas, os quais receberam importante atenção dos historiadores e cientistas sociais.

No que diz respeito à historiografia, o livro de Ridenti encontrou, assim, poucos interlocutores diretos. Entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, haviam sido publicados, no Brasil e no exterior, alguns livros de memória e entrevistas de militantes e ex-militantes. Destaca-se a publicação, em 1979, de uma série de reportagens assinadas por Marco Aurélio Garcia no jornal Em tempo, intituladas de “Contribuição à história da esquerda brasileira”, nas quais é feito o esforço pioneiro de discussão sobre a trajetória dos diversos agrupamentos revolucionários que atuaram na oposição à ditadura militar nos anos 1960 e 1970. No mesmo caminho, está a publicação dos documentos de maior parte das organizações armadas no livro Imagens da revolução, de 1985 [2].

No entanto, seguramente o diálogo mais importante de O fantasma da revolução brasileira se deu com os livros de Jacob Gorender, Combate nas trevas, de 1987 [3], e de Daniel Aarão Reis Filho, A revolução faltou ao encontro, de 1990 [4]. O trabalho de Gorender, ex-dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), faz uma descrição sistemática do surgimento, atuação e desintegração dos grupos que pegaram em armas contra a ditadura. Mesmo não tendo sido fruto de pesquisa acadêmica, o livro valeu-se do método historiográfico, utilizando documentos escritos variados e depoimentos de ex-militantes, constituindo-se rapidamente em referência nos estudos dessa área.

O livro de Daniel Aarão, autor que também participou do movimento de oposição à ditadura militar, tendo atuado no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), foi a primeira pesquisa acadêmica de vulto no Brasil a se dedicar ao estudo da problemática da luta armada contra a ditadura militar. O autor defende que o afastamento dos grupos da esquerda revolucionária em relação à sociedade advinha da própria característica de funcionamento de vanguarda de tais agrupamentos. Dessa forma, não se poderia atribuir a derrota da luta armada a este isolamento social.

O livro de Marcelo Ridenti dialoga com os trabalhos acima, mas apresenta inovações importantes, distinguindo-se dos demais. Diferentemente do trabalho de Gorender, o autor não se propõe fazer a descrição exaustiva da trajetória dos agrupamentos, preferindo ater-se à discussão analítica da problemática da luta armada. Em relação ao livro de Daniel Aarão Reis Filho, apresenta como eixo a discussão sobre as raízes sociais da esquerda armada, o que em si é uma inovação importante na medida em que amplia o ângulo puramente político que até então marcara a análise deste objeto.

Passados quase vinte anos da publicação de O fantasma da revolução, houve modificações importantes no panorama histórico e historiográfico do país. Em termos sociais, há alguns anos acontece um importante debate a respeito da ditadura militar instaurada em 1964. Nas discussões, ganharam destaque, na mídia e na universidade, entre outros temas, as indenizações recebidas pelos ex-militantes e por familiares dos mortos e desaparecidos políticos. Para alguns setores da sociedade, este pagamento seria indevido, uma vez que a violência perpetrada pelo Estado teria sido equivalente àquela praticada pelos agrupamentos de esquerda. Já para determinados setores sociais, as indenizações seriam importantes por representarem o reconhecimento estatal de sua responsabilidade sobre as mortes, torturas e banimento de centenas de pessoas durante o período ditatorial.

Outro elemento social que ajudou a atrair a atenção para a história da esquerda e da ditadura militar foi a chegada à presidência de Luis Inácio Lula da Silva, em 2002. Durante os dois governos do petista, muitos ex-militantes da luta armada tiveram participações importantes nos altos escalões da administração pública, tendo causado constrangimento a alguns militares da reserva, e outros setores sociais, que haviam participado e apoiado a ditadura militar nos anos 1960. A própria candidatura recente de Dilma Rousseff, ex-membro da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Var-Palmares), foi alvo de críticas de setores conservadores da sociedade, que a acusaram de “terrorista”, enquanto diversas personalidades e grupos sociais apontaram a atividade política de Dilma como uma atitude contra o regime de terror implantado em 1964.

Os elementos sociais esboçados acima, que exemplificam a presença na cena política da temática da ditadura militar brasileira, são parte da explicação para a mudança ocorrida no panorama historiográfico desde a publicação de O fantasma da revolução brasileira. O livro encontra hoje um ambiente de grande interesse sobre a história das esquerdas e do regime militar [5]. Nesta produção, alguns temas ganham destaque como as discussões sobre a anistia e as reparações aos familiares dos mortos e desaparecidos políticos, bem como as disputas pela construção da memória social sobre o período em questão [6]. Também é digna de nota a verticalização temática dos estudos sobre as esquerdas e a diversificação geográfica dessa produção, ultrapassando o eixo Rio-São Paulo [7]. Nesta sucinta apreciação da produção recente sobre os anos 1960, não podemos deixar de registrar a importante utilização das fontes produzidas pelas polícias políticas, as quais foram em grande parte disponibilizadas para pesquisa a partir de meados dos anos 1990, bem como o uso de entrevistas com militantes e ex-militantes das organizações guerrilheiras.

Passados dezessete anos de sua primeira edição, e diante da nova produção historiográfica, é evidente que O fantasma da revolução brasileira apresenta alguns elementos que soam menos convincentes, como o próprio autor aponta no posfácio à nova edição. No entanto, quero salientar nesta resenha o que permanece de mais atual no livro. Neste caso, há pelo menos dois temas que, pela abordagem recebida, o tornam um dos principais trabalhos publicados sobre a história das esquerdas no Brasil: as raízes sociais da derrota da esquerda armada e as a relações entre arte e política nos anos 1960.

A problemática da inserção social dos grupos de esquerda que pegaram em armas contra a ditadura militar é o que fundamenta a análise de O fantasma da revolução brasileira. Marcelo Ridenti analisa a tentativa de inserção dos militantes em setores de base da sociedade, em especial entre os subalternos das forças armadas, entre trabalhadores manuais (urbanos e rurais) e no setor estudantil. Na conclusão do trabalho, o livro foi pioneiro na explicação segundo a qual a derrota dos grupos armados teria se dado pela falta de enraizamento social. De acordo com Marcelo Ridenti, estes agrupamentos, isolados socialmente, entraram em uma dinâmica de sobrevivência e autodestruição à margem da sociedade. Esta abordagem, que hoje parece naturalizada nas análises sobre o tema, naquele momento apresentava de forma sistemática uma explicação que se afastava das perspectivas personalistas, que até então buscavam respostas para a derrota das esquerdas na incapacidade teórica e prática de certos indivíduos, grupos ou partidos.

A relação entre arte e política — que não deixa de ser parte da problemática mais ampla da inserção social das esquerdas — parte da discussão sobre a participação de artistas e intelectuais na luta contra a ditadura militar, com ênfase nos setores que pegaram em armas. Mais do que apontar quais e quantos artistas aderiram ou se aproximaram de determinadas organizações guerrilheiras, o livro analisa a politização destes artistas e intelectuais e de suas produções culturais. O livro é feliz em demonstrar que deste ambiente sociocultural radicalizado, incluindo os jovens participantes do movimento estudantil, principais consumidores dessa arte engajada, emergiu grande parte dos militantes que aderiram às organizações guerrilheiras.

Em resumo, se a temática da história da luta armada no Brasil já havia sido tratada por autores importantes nos anos oitenta e início da década de 1990, a publicação de O fantasma da revolução brasileira, em 1993, apresentou um aporte qualitativo nessa área de estudos. Isso pode ajudar a explicar o fato de que hoje, ainda que se possa fazer reparos pontuais ao trabalho, as suas contribuições substantivas continuem plenamente válidas.

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Jean Rodrigues Sales é professor de História Contemporânea do DHE-IM-UFRRJ. Publicou A luta armada contra a ditadura militar. A esquerda brasileira e a influência da revolução cubana. São Paulo: Perseu Abramo, 2007.

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Notas

[1] A este respeito, ver as discussões pioneiras feitas por Daniel Aarão Reis Filho (Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000).

[2] REIS FILHO, D. A; SÁ, J. F. de (Orgs.). Imagens da revolução. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985.

[3] GORENDER, J. Combate nas trevas. São Paulo: Ática, 1987.

[4] REIS FILHO, D. A. A revolução faltou ao encontro. São Paulo: Brasiliense, 1990.

[5] Para uma ideia do amplo leque de produções sobre o período da ditadura militar, pode-se consultar: FICO, C. Além do golpe. Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2004.

[6] A respeito das disputas em torno da memória social sobre o período ditatorial, ver: SANTOS, C. M.; TELES, E.; TELES, J. de A. (Orgs.). Desarquivando a ditadura. Memória e justiça no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2009, 2 v.

[7] Um exemplo da diversificação temática e geográfica é a publicação: FERREIRA, J.; REIS, D. A. (Orgs.). As esquerdas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, 3 v.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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