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A evolução da esquerda – 4

Hamilton Garcia de Lima - Agosto 2018
 

Às vésperas de seu ocaso político, o PCB, ainda não atingido em sua espinha dorsal pela repressão e tentando reconquistar a liderança perdida na sociedade civil depois da dura derrota de 1964 — vide artigo anterior —, produziu um documento que, não obstante o linguajar anacrônico e os resquícios canônicos do marxismo-leninismo, apontou com precisão a direção da luta política para uma esquerda envolta nas brumas do mito revolucionário: “mobilizar, unir e organizar [...] as forças democráticas [...] contra o regime ditatorial [...] e a conquista das liberdades democráticas” [1]. 

Nesta resolução, a unidade democrática ainda não havia assumido a fórmula rígida do MDB: “As formas concretas que assumirá a unidade [...] serão ditadas pelo desenvolvimento da luta. Por ser uma reunião de forças heterogêneas, a frente [...] desenvolve-se simultaneamente com a luta entre os seus próprios componentes. [...] Os comunistas defenderão sempre, no seio da frente [...], a necessidade [...] de organizar [...] o povo [...]” [2].

Tampouco a frente tinha seu foco principal nas forças liberais — como aconteceria a partir de 1978: “A batalha antiditatorial exige um cuidado prioritário pela unidade das forças mais avançadas da frente única. Os comunistas obrigam-se, por isso, a dirigir sua atenção [...] para a aproximação com as diversas correntes que se incluem no movimento de esquerda [...]” [3].

O realismo político pecebista, envolto na bandeira já rota do bolchevismo, não foi suficiente para neutralizar a atração que o guevarismo exercia sobre os jovens militantes, o que os impeliu a usar as primeiras grandes manifestações sociais contra o regime, convocadas por eles — a mais famosa delas a Passeata dos Cem Mil, em julho de 1968 —, numa mobilização em prol não da constituição da frente democrática, mas da frente popular articulada à guerrilha urbano-rural. Isso acabaria por reforçar a ditadura, limpando o terreno para a institucionalização do arbítrio, em dezembro (AI-5), e o esmagamento da oposição, que esboçava seus primeiros atos ampliados de resistência, não só com base nos intelectuais e nos estudantes, mas também com o apoio do operariado e da Igreja (Católica).

Como já vimos, os comunistas, fortemente perseguidos, deixaram escapar a forma concreta com que a frente democrática se apresentaria a partir do ressurgimento dos movimentos sociais — estudantil (1977) e operário (1978). Mas, como em política não há vácuo, as forças progressistas aninhadas nos movimentos sociais, na imprensa alternativa (Opinião e Movimento) e no MDB autêntico — inclusive as bases do PCB —, passaram a discutir a criação de um partido popular, que, todavia, esbarraria na pretensão das lideranças exiladas em reconstruir/legalizar seus próprios partidos.

O impasse intraoposicionista, que opunha lideranças internas e exiladas, só se resolveria após a segunda greve operária do ABCD (março de 1979), em favor dasforças internas, quando a intervenção policial projetou Lula como liderança política nacional autônoma, sem vínculos com as forças tradicionais da esquerda (neostalinistas, castristas, maoístas e nacionalistas) e em rota de convergência com os teólogos da libertação — nova tendência assumida pelo catolicismo de esquerda depois da desagregação da Ação Popular (1962).

É daí que surge o Movimento Pró-Partido dos Trabalhadores (1979) que, sem conseguir atrair as velhas lideranças em vias de retornar do exílio (Prestes, Brizola e Arraes), é bem sucedido em atrair os resquícios da diáspora esquerdista — excetuando os stalinistas —, os ambientalistas, a juventude progressista e uma miríade de novos movimentos sociais oriundos da urbanização dos anos 1960-1970.

O PT vem à tona operando uma série de rupturas necessárias à sobrevivência da esquerda radical no novo contexto. No plano da composição social, a classe trabalhadora deixa o segundo plano que ocupava no PCB, cujos quadros históricos eram de origem militar, e passa a ser a principal fonte política de impulsionamento da nova agremiação, não obstante a preponderância castrista na esfera organizativa (máquina partidária) e dos intelectuais marxistas no âmbito da luta ideológica.

No plano da estrutura interna, o PT também inovaria assumindo um caráter federativo e pluralista, típico dos partidos socialistas ocidentais, em oposição ao centro único dos partidos comunistas. Isto fez com que os petistas, no curto e médio prazo, tivessem dificuldades competitivas com os partidos centralistas que disputavam o controle dos movimentos sociais, mas tais dificuldades acabariam superadas pela capacidade da nova formação política em atrair militantes e simpatizantes em diversos segmentos sociais e campos ideológicos — em particular entre os cristãos —, além de votos.

No plano ideológico, de novo, a inovação aproximou o PT do paradigma social-democrático — sem adesão efetiva ao campo —, onde predominava uma acepção ampla de classe trabalhadora e ideais socializantes vagos o suficiente para comportar uma ampla diversidade de crenças organizadas numa luta interna pactuada.

Todas estas inovações, porém, ocorreram à moda transformista, sem efetivo revisionismo político-ideológico e acalentando boa dose de utopismo, tornando o PT um feixe de forças sociais e ideologias contraditórias. Estas estavam amalgamadas pelo carisma de um líder pragmático que perseguia o poder externo (Estado) com base no controle do poder interno (aparato partidário), por meio de lideranças unicistas de viés totalitário. E, ainda, amparava-se em discurso de fundo místico-libertador que aliava utopia e pragmatismo numa perspectiva classista singular, baseada no neocorporativismo identitário.

Tal combinação mostrou-se poderosa fórmula para se chegar ao poder, eclipsando e contornando o espinhoso debate acerca do papel da democracia política e suas instituições na construção de uma sociedade mais justa e menos desigual — para não falarmos das instituições econômicas necessárias para tornar sustentável tal propósito. Mas, ao mesmo tempo, se mostrou insuficiente para fundar uma nova tradição apta a renovar a política brasileira, construir um novo modelo de desenvolvimento (sustentável) e resistir aos perigos do carisma e do poder — inclusive à sedução do dinheiro.

A nova esquerda radical — de feições “ornitorrínticas” — atravessou o rubicão do poder, depois de treze anos à frente da União, mostrando toda a sua incompetência política e programática não só para manter a sustentabilidade econômica de seu projeto — afundando o país na maior recessão de sua história —, mas para reverter o lento e persistente esgarçamento dos valores e das instituições públicas/privadas parasitadas pelo ethos neopatrimonial das elites dominantes desde a redemocratização. Finalmente, a estas se rendeu e se converteu, em cabal demonstração da esterilidade da fórmula radical convencional no Brasil democratizado.

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Hamilton Garcia de Lima é cientista político e professor da Uenf/ Darcy Ribeiro

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Notas

[1] Resolução Política do 6º Congresso (1967), in Marco Aurélio Nogueira (org.), PCB: vinte anos de política, São Paulo, LECH, 1980, p. 174.

[2] Id., p. 179.

[3] Id., p. 180.

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A questão militar
A democratização do Estado
A evolução da esquerda – 1
A evolução da esquerda – 2
A evolução da esquerda – 3




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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