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Será fácil destruir o conhecimento e a cultura?

Alfredo Maciel da Silveira - Janeiro 2020
 


Um dos episódios marcantes dos primeiros dias do poder hitlerista fora, em Berlim, o ato simbólico da queima de livros: a proclamação das trevas, abrindo passagem ao nazismo.

Bolsonaro, em seus primeiros dias de mandato, explicitou estar seu governo imbuído da missão de destruir, no amplo espectro do conhecimento e da cultura. Demolir instituições, diretrizes, normas. Liquidar organizações. Afastar cientistas, pensadores, criadores, artistas, quadros executivos.

Exemplos são diários. Agora foi a vez dos núcleos de pesquisa da Casa de Rui Barbosa. Logo a casa de Rui, cuja relação com os livros traz à lembrança aquele tenebroso ato simbólico de Berlim.

Mas, quando se trata de conhecimento e cultura, as lições da vida mostram não ser tão fácil lograr sua destruição.

Comecemos pela própria Alemanha. É sabido que ela fora fisicamente destruída na 2ª guerra. Mas em poucos anos se levantou, pois não fora destruída a “massa cinzenta” de seu povo. Comparativamente a cada centavo investido em países atrasados, sem o lastro cultural e educacional da Alemanha, o resultado nesta última foi e continua sendo muito maior.

Um outro exemplo. Há uns 30 anos, em paralelo às mudanças de paradigmas na organização da produção surgira uma abordagem nova nas práticas administrativas a que se denominara “Gestão do Conhecimento”. Constatava-se que um trabalhador ou equipe de trabalho que se deslocasse de uma empresa para outra, ou fosse simplesmente demitido, já não era totalmente despossuído dos “meios de produção”, pois levava em seu cérebro justamente o ativo mais valioso, o conhecimento.

Por contraste, uma destruição dos cérebros é devastadora para a coletividade. O Brasil perdeu totalmente a capacidade de lançamento de satélites quando toda a equipe portadora do respectivo conhecimento estava reunida na plataforma que explodiu. Foi o que se poderia chamar “efeito Barreira do Inferno”.

Pretender destruir o conhecimento e a cultura de que são portadores indivíduos, equipes, comunidades não é como destruir a base material do mundo que nos cerca.

Para lembrar, aqui no Brasil recente, a noite da ditadura fermentou a inspiração dos artistas, como na canção de Ivan Lins e Vitor Martins:

No novo tempo, apesar dos perigos
Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta
[...]
Pra que nossa esperança seja mais que vingança,
Seja sempre um caminho que se deixa de herança.

Que fique o alento. Bolsonaro pode dispersar, perseguir, desorganizar, desde a intelectualidade democrática e crítica a grupos de arte popular. Mas tudo será rapidamente refeito, se conseguirmos a virada política.

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Alfredo Maciel da Silveira é MSc. Eng. de Produção e Doutor em Economia.

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A representação (desproporcional) na Câmara: Pacote de Abril e Constituição de 1988
O voto em lista semiaberta
Os nomes na mesa
O fator rejeição





Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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