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Agradecimento póstumo ao professor Ruy Fausto

Cláudio de Oliveira - Maio 2020
 



Fiquei consternado ao saber da morte do professor Ruy Fausto no último dia 1º/05, aos 85 anos em Paris. Segundo li, ele sofreu um enfarto enquanto tocava piano [1].

Lembrei-me de um cordial diálogo que travamos em abril de 2011, a propósito de um artigo de sua autoria intitulado “Em torno da insurreição de 1917 e dos seis primeiros meses do poder bolchevista”, publicado em duas partes na revista Fevereiro [2].

Tomei conhecimento da revista em março de 2010 pela notícia do seu lançamento na Folha de S. Paulo. Acessei o site da revista e gostei principalmente por sua perspectiva democrática.

Resolvi escrever para o professor Ruy Fausto sobre algumas questões relativas à tomada de poder pelos bolcheviques em 1917. Em homenagem e em agradecimento póstumo a ele, tomei a liberdade de reproduzir aqui os três e-mails que trocamos. Como debatemos questões públicas de interesse geral, torno públicas suas mensagens.

Em 26/04/2011, enviei o seguinte texto ao professor:

Gostaria de lhe parabenizar pelo seu belo texto sobre a revolução de 1917.

Queria que o senhor me permitisse apresentar algumas questões que me afligem:

1. Segundo os bolcheviques, a insurreição de outubro se sustentaria por ser o primeiro passo que abriria caminho para uma revolução social em toda a Europa. Tal premissa revelou-se falsa. Diante disso, ainda com Lênin, os bolcheviques passaram a falar na construção do “socialismo em um só país”.

2. A tradição bolchevique costuma creditar o fracasso de uma revolução mundial às posições reformistas dos líderes socialistas nos países centrais do capitalismo, Alemanha, Inglaterra, França. Mas, se houvesse uma situação verdadeiramente revolucionária, aqueles líderes não teriam sido atropelados pelos comunistas, com apoio popular, a exemplo do que dizem ter acontecido na Rússia?

3. A Guerra Civil era mesmo inevitável? A tomada de poder pelos bolcheviques teria sido o fato que desencadeou a guerra civil? Hobsbawn escreve que não havia alternativa à tomada de poder pelos bolcheviques. Ou eles faziam a insurreição ou o país cairia nas mãos do exército alemão. E que os bolcheviques eram a única força política capaz de organizar o caos na Rússia. Hobsbawn critica, todavia, a proscrição dos outros partidos socialistas que faziam parte dos sovietes, bem como o fechamento da Constituinte. E também a criação da Internacional Comunista em 1919, provocando a divisão do movimento operário europeu e mais isolamento internacional dos bolcheviques.

4. Tal divisão, mais a bolchevização dos partidos comunistas, com sua política sectária de buscar novas insurreições, de denunciar a social-democracia como inimigo principal do movimento operário, não terá facilitado a ascensão do fascismo em vários países, já em 1923 na Itália e uma década depois na Alemanha?

5. Admitindo que a Guerra Civil teria estourado mesmo com a continuidade do Governo Provisório, uma vez que o general Kornilov preparava a contrarrevolução, disposto a restaurar a ordem czarista, o custo politico, militar e social dela teria sido o mesmo com os bolcheviques como partido único no poder? Teria sido menor com uma coalizão liberal-menchevique-bolchevique?

6. Quais as verdadeiras causas da grande fome que matou milhões de russos após Outubro? Terá sido a grande seca que atingiu o país? Qual a contribuição do isolamento internacional e interno dos bolcheviques para o agravamento da situação? A política econômica do comunismo de guerra não terá sido desastrosa para os milhões de cidadãos russos?

7. A NEP não terá sido um reconhecimento tardio dos bolcheviques de que, de fato, como era a posição de diversos grupos mencheviques, a Rússia não estava suficientemente desenvolvida para uma revolução socialista? Isto é, que o capitalismo ainda não estava suficientemente maduro, que não havia as bases materiais para uma ultrapassagem socialista? E que não havia uma classe operária extensa e desenvolvida, capaz de sustentar verdadeiramente a construção de uma sociedade socialista? E assim, o gigantesco e atrasado campesinato russo, muito superior em número ao operariado urbano, não terá propiciado o florescimento do fenômeno do stalinismo?

8. Ao cabo de toda a experiência soviética, com a queda em 1991, não terá sido demonstrado historicamente que os reformistas estavam mais próximos da realidade? Se a revolução russa de fevereiro tivesse se afirmado como uma revolução democrática avançada, a Europa poderia ter evitado o fascismo e construído já nos 1930 a democracia de massas e de bem-estar social que se ergueu no Ocidente após a Segunda Guerra? Pelo que os países do leste, a Rússia inclusive, ainda se batem atualmente?

É um tema apaixonante. E por isso espero ansioso a segunda parte do seu artigo.

No dia 14/05/2011, recebi uma mensagem do professor Ruy Fausto:
Desculpe muito o atraso dessa resposta. Andei superocupado, tanto com assuntos pessoais, como com a preparação do número 3, que, felizmente, já vai saindo. Como nesses três dias ainda estou numa corrida, e a sua carta merece uma resposta cuidadosa, lhe envio essa mensagem rápida anunciando uma outra maior, em poucos dias.

Abraço muito cordial.

No dia 22/05/2011, Ruy Fausto me responde, com importantes sugestões de leitura.
Você me faz várias perguntas que implicariam retomar o conjunto do tema. O que só posso fazer, aqui, de forma limitada. Mas vejo, pelas suas perguntas, que estamos mais ou menos no mesmo registro, o de quem tenta entender criticamente e sem preconceitos (mesmo os “bem” assentados) a história dos anos 1917/1918, na Rússia.

Recomendo a leitura dos bons livros a respeito, porque, afinal, já há um número suficientemente grande de bons livros, muitos já traduzidos para o português.

A coisa mais importante, a meu ver, é o livro de Orlando Figes, A People's Tragedy, the Russian Revolution 1894-1924, se não me engano. Saiu em português, não sei se pela Record ou outra. É um belo livro, muito bem escrito, brilhante, feito por um universitário de esquerda, crítico do bolchevismo.

Há outros livros importantes, parte dos quais indico nos meus textos (além do artigo, se quiser, veja o meu livro A esquerda difícil, editado pela Perspectiva, 2008).

Começo pela guerra civil. O Figes diz muito bem que uma guerra civil, a certa altura dos acontecimentos, era mais ou menos inevitável. Mas poderia não ser a guerra civil absolutamente horrível que ocorreu. Como diz o autor do The Russian Civil War (ver a indicação completa no meu artigo), é mais verdade que a guerra civil veio da repressão do que o contrário.

Não vou desenvolver isto aqui, porque foi o tema do meu artigo (a segunda parte está saindo, em mais alguns dias, no número 3).

O governo de Samara, a primeira instituição antibolchevique de esquerda pós-outubro, se apoiava, politicamente, nos dirigentes socialistas-revolucionários (inclusive muitos membros da Assembleia Constituinte), que os bolcheviques tinham reprimido.

Quanto ao argumento do Hobsbawn, é preciso distinguir “derrubada do governo provisório” e “revolução bolchevista”. Todo mundo, ou quase, na esquerda, estava convencido de que seria preciso derrubar, ou pelo menos substituir, o governo provisório. Mas todos queriam “governo do soviete” e não governo bolchevista. Isso é bastante claro. Leia a respeito do “quiproquó” de outubro o artigo de Nicolas Werth, que faz parte do livro (acho que também já traduzido): O livro negro do comunismo. (Não se assuste com o título. O livro foi feito por gente de esquerda, como Werth, mas também de direita, e houve uma briga interna a respeito dele. Tudo isso pode interessar, mas interessa mais o fato de que o artigo do Werth é muito bom, excepcional mesmo. Entre os outros artigos, há coisas boas. Outras menos. O prefácio do Courtois é que é muito discutível).

Sobre o papel da social-democracia, seria necessário me alongar muito a respeito. Veja um pouco no meu “Para um balanço dos movimentos revolucionários ...” (ou algo assim), ainda em A esquerda difícil.

Acho que a social-democracia teve coisas boas e más. Algumas muito más. Isso vale também para a social-democracia russa (Martov era muito bom, inclusive queria o fim do governo provisório, mas não queria ditadura bolchevique; outros sociais-democratas se deixaram levar pela ideia da necessidade da aliança com os liberais, uma ilusão naquelas condições).

Mas globalmente, o projeto de um socialismo democrático fica. Nesse sentido, apesar dos erros e crimes de parte da social-democracia, pode-se dizer que a social-democracia era melhor.

Para esses problemas, que são os problemas gerais da esquerda, me permito remeter a um longo texto que começo a publicar em Fevereiro, no número 3.

Sobre as outras questões: acho que não se deve insistir nos argumentos marxistas ortodoxos do tipo “a situação não era madura”, etc. Não há exatamente, pelo menos nesse sentido, “situações maduras”. Essas expressões, pelo menos tal como são usadas frequentemente, remetem a uma visão hiperdeterminista marxista da história, que já não serve.

A fome começa já sob o bolchevismo, e em boa parte por causa dele. Mas do bolchevismo ao stalinismo a diferença é grande (o que não significa inocentar o primeiro). Veja no Werth (e nas indicações bibliográficas que ele dá) os elementos para julgar o genocídio de camponeses no inicio dos anos 30.

A tese geral dos críticos (Figes é exceção) é de que ele não resultou apenas de erros e fanatismo, mas foi literalmente programado para liquidar a resistência camponesa. De qualquer forma, o regime stalinista (por “culpa” ou “dolo”, provavelmente, uma mistura dos dois) foi o responsável.

Com a NEP, os bolchevistas fazem o que os mencheviques diziam, desde 1918 mais ou menos, que era preciso fazer. Ele foi um respiro, mas muito contraditório, porque a repressão não cessou.

Bom, por aqui fico. Agradecendo a você, de novo, o interesse pela nossa revista, e esperando que manteremos o contato, um abraço muito cordial.

Essas considerações do professor Ruy Fausto, bem como a bibliografia indicada por ele, motivaram-me a escrever alguns textos sobre a Revolução Russa quando do seu centenário em 2017.

Incentivado por Luiz Sérgio Henriques, tradutor da obra do italiano Antonio Gramsci no Brasil e editor do site Gramsci e o Brasil, complementei os textos e resolvi transformá-los em um livro eletrônico intitulado Lênin, Martov, a Revolução Russa e o Brasil [3]. A obra tem a perspectiva de uma esquerda democrática, de alguma forma influenciada pela contribuição do professor Ruy Fausto, pelo que agradeço publicamente.

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Jornalista e cartunista

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Notas

[1] Morre aos 85 anos o filósofo Ruy Fausto, um dos principais teóricos do marxismo

https://tinyurl.com/y979oxhu

[2] Fevereiro, nºs 2 e 3

http://www.revistafevereiro.com/index.php

[3] Lênin, Martov, a Revolução Russa e o Brasil. Disponível em e-book no site da Amazon.

https://www.amazon.com.br/dp/B07B8WCBKT

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O fechamento da Constituinte na Rússia de 1918
Julius Martov e a Revolução Russa
O plano menchevique e a NEP de Lenin

 






Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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