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Poesia e utopia em Moacyr Félix

Carlos Lima - Novembro 2005
 

A Kaj, companheira do poeta; a sua memória

1. Poesia e utopia

"Não poderia haver caminho se não houvesse o caminhante" — com essas palavras de Ernst Bloch, o filósofo da utopia, começamos nossa aproximação à poesia de Moacyr Félix. São 50 anos de atividade poética desde o primeiro livro, Cubo de trevas, até Introdução a escombros em 1998. O caminho e o caminhante dialéticamente fizeram-se um e o mesmo na múltipla dimensão de um sujeito lírico que se fez humanamente coletivo, como já ressaltava Alceu Amoroso Lima sobre Um poeta na cidade e no tempo: "Os poemas de Moacyr Félix representam um dos pontos mais altos, em nossa poesia moderna, dessa aproximação profunda da poesia com o problema social e revolucionário, que Carlos Drummond por um momento tocou na sua Rosa do Povo. Moacyr Félix agora se consagra. Marca uma atitude coletiva, mostrando a poesia não como divertimento ou nostalgia ou omissão ou malabarismo verbal, mas como participação profunda no sofrimento humano. Na luta contra os tiranos. Na revolta contra todas as alienações".

Esses 50 anos de atividade poética, cumpre ressaltar, não se restringiram apenas à sua obra pessoal, mas se diversificaram nas várias revistas e antologias que organizou e editou, tais como a Revista da Civilização Brasileira, Cadernos do povo, Revista Paz e Terra, Encontros com a Civilização Brasileira, Violão de Rua, Poesia Viva, e mais recentemente a belíssima antologia 41 Poetas do Rio. Assim como também na leitura de poetas mais jovens e na crítica certa, na hora de selecionar os poemas para publicação. Essa última característica fez sempre de Moacyr um dos poetas mais informados sobre a nova geração e um leitor ávido da poesia que se publicou de norte a sul do País. Não foram e não são poucos os poetas (entre os quais se inclui o autor destes apontamentos), que nos últimos 30 anos devem ao poeta uma parte de sua trajetória e evolução poética. Convém aqui lembrar as palavras de Walter Benjamin: "Um escritor que não ensina nada a outros escritores não ensina nada a ninguém".

A poesia de Moacyr Félix acompanhou os últimos 50 anos da história brasileira e essa história entranhou-se nas vísceras de cada um dos seus poemas, a poesia ganhou em universalidade aproximando-se da história, a história apesar dos seus horrores fez-se poética na singularidade de cada verso. A paixão pela poesia como expressão da verdade do ser é a principal vocação desse poeta, que através da sua poesia sempre procurou, desesperadamente, dar resposta à afirmação de Adorno (afirmação que deveria estar sempre presente quando alguém se sentisse tentado a escrever um poema): "A poesia é impossível após Auschwitz". É esta preocupação que faz com que sua poesia procure, permanentemente, resgatar o humano no homem, única forma de impedir que a barbárie tecnológica complete a sua obra de destruição no mundo contemporâneo. E na afirmação desse humanismo trágico ele nos diz: "Onde se destrói o mundo em que vivo / aí estou. / Onde há destruição, aí se define o meu caminho. / Onde os deuses se desmoronam é que apareço / sem rosto / atrás de suas formas feitas de noite e de medo. / Onde se morre, onde se nasce. / Onde se morre é que renasço."

É uma poesia voltada para a realidade do mundo sem, no entanto, deixar de perceber que o real concreto é a síntese de múltiplas determinações, por isso tem consciência da contradição dialética entre forma e conteúdo e nunca padeceu do déficit dos formalistas que se consagraram em procurar abrigo no mito isento de contradições da forma pura. E nos dá o seu testemunho: "Escrever um poema não é brincar / de ser com palavras e sons / sobre a brancura sem defesa / do papel ou da vida que não foi vivida. / No fundo dos becos sem saída / é que o poema se encontra / lado a lado com as mortes / inumeráveis e indefinidas / na mão que o escreve. / Morre e transforma-te! / Não há outro caminho: / o poema é sempre uma autópsia."

Moacyr Félix é herdeiro de uma das tradições mais ricas da poesia na literatura do ocidente. Essa tradição que alinha Blake, Shelley, Byron, Hölderlin, Victor Hugo, Baudelaire, Rimbaud, Walt Whitman; e que no século XIX lançou as bases da revolução poética da modernidade. Herdeiros desta tradição são também Breton, Éluard, Aragon, Péret, Tzara, Lorca, Hernandez, Maiakosvki, Brecht, Vallejo, Neruda e Nazim Hikmet, entre outros. Por esta relação já percebemos que o poeta anda em excelente companhia e sabe onde o leva a sua poesia. Como Breton que escrevia em 1924: "Sabe-se hoje que a poesia deve levar a algum lugar. É sobre esta certeza que se funda o interesse que temos por Rimbaud". Rimbaud, que fundou toda a sua poesia na dimensão da utopia e que forneceu os elementos para essa nova poética através da sua própria vida e obra quando escreve: "É preciso ser absolutamente moderno!", "É preciso mudar a vida", "O amor tem que ser reinventado". Rimbaud, o  poeta da Comuna, que na sua obra elaborou o que definimos, em outro lugar, como sendo a poética da utopia, que fundamenta o que melhor produziu a tradição poética da modernidade.

No Brasil essa tradição procurou também ir além da poesia através da própria poesia, unindo a estética à ética, e fazendo o seu conteúdo de verdade ser a recusa em dar sentido a um mundo sem sentido. Entre os seus representantes podemos reunir Castro Alves, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond, Joaquim Cardozo, João Cabral, Paulo Mendes Campos, Ferreira Gullar, entre outros. Basta lembrar o Castro Alves abolicionista, a poesia da negatividade lutuosa de Augusto dos Anjos e a fatalidade do sarcasmo de Mário de Andrade na sua "Ode ao Burguês": "Eu insulto o burguês! O burguês níquel, / O burguês-burguês! / A digestão bem feita de São Paulo! / O homem-curva! O homem-nádegas! / Eu insulto as aristocracias cautelosas! / Ódio vermelho! Ódio fecundo! / Ódio cíclico! Ódio fundamento, sem perdão!"

E ainda Mário, no seu testamento poético "A Meditação sobre o Tietê": "Porque os homens não me escutam! / Por que os governadores / Não me escutam? Por que não me escutam / Os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes? / Todos os donos da vida? / Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo, / Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito / Metálico dos números, e tudo / O que está além da insinuação cruenta da posse."

Esta tradição acentua-se mais ainda no explosivo Drummond do "Sentimento do Mundo": "Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan."

E Moacyr Félix junta-se a eles, com um lirismo desesperado nesta época de reificação total, pois o conteúdo de verdade de sua poesia está em relação direta e significante com o seu conteúdo utópico. Assim a sua poesia torna-se o espelho de uma unidade dialética entre verdade e utopia, que traduz uma tensão permanente na busca da verdade não-reconciliada num mundo reconciliado com a não-verdade da vida mutilada. Dessa forma resta apenas ao poeta ser a síntese utópica da negatividade neste mundo da culpabilidade absoluta onde a subjetividade permanece condenada à alienação. E o poeta escreve: "Vim para quebrar os relógios deste tempo que dá voltas sempre / Sobre ele mesmo, sempre com a mesma areia a redemoinhar-se / Entre portas giratórias que se abrem e que se fecham para o oco da existência. Vim para inventar trajetórias que nunca existiram a não ser na medida que me despedaçam. / Vim sob o escuro cadáver de Deus a transformar-se em montanhas de som dentro do que parece ser o meu silêncio. / Essa literatura aos pés dos poderosos, nem como adubo serve!"

O que denominamos como poética da utopia tem como base conceitual a obra de Ernst Bloch, Walter Benjamin e Theodor Adorno. Do primeiro podemos ressaltar três categorias do Princípio Esperança: o Pré-Aparecer, o Ainda Não-Ser e a Consciência Antecipadora. De Benjamin principalmente as 18 Teses sobre a Filosofia da História e o caráter anatréptico e alegórico do seu discurso filosófico. De Adorno a metacrítica da Teoria Estética e a dimensão paratática da Dialética Negativa. A interação dessa tríade de dialetas do século XX no que eles têm de mais pregnante nas suas obras, configuram para nós o fundamento determinante à potencialidade dialética da possibilidade objetiva de um logos, uma lógica e uma estratégia da utopia.

Se a história, como desesperadamente afirmou Benjamim, é escrita pelos vencedores, ela se torna portanto o discurso da dominação e da legitimação do poder. Neste caso, só resta à arte, e à poesia em particular, ser a expressão do que está fora da história, ou seja, ser a voz dos derrotados, dos que excluídos, estão fora da história. Se a história só tem lugar para os vencedores como lugar do poder, então a poesia tem que ser o outopos (negação do lugar) e afirmar o lugar-outro na sua dimensão utópica em memória de todo o sofrimento acumulado. Por isso o poeta coloca a voz solidária do seu canto: "No lixo da praça os ossos do mundo / brilham como luas doentes. / No lixo da praça o poeta / quer ser apenas um homem / com uma canção nos gatilhos / de uma revolução necessária. / No lixo da praça os ossos do mundo / brilham como luas doentes / à espera da poesia, cadela / feroz e machucada, cadela / que ao poeta se amarra [...]"

Nós sabemos que a cotação do socialismo hoje está em baixa. Os especialistas da inteligência de mercado, como coveiros que são, saúdam o fim do socialismo. Mas a poesia de Moacyr Félix, a contrapelo, move-se ainda no limite das promessas de felicidade de uma razão que sabe que a história não é uma rua de mão única, e que a utopia sinaliza o futuro no presente que ainda-não-é. A sua poesia parece dizer, como Júlio Cortazar, "salvarse solo no es salvarse". E o poeta tem consciência que neste mundo do capitalismo da antropofagia neoliberal só é permitido ao homem encerrar-se no labirinto da sua própria solidão ou negociar uma felicidade de segunda mão. Por isso, recusa instalar-se no deserto da consciência passiva e do luto organizado proposto pela tropa de choque dos teóricos do capitalismo tardio, e adverte: "É preciso ser radical como este ódio /  em que sou todo uma porção de gomos de amor. / Radical como a pá do lixeiro / sobre a infância naufragada nestas ruas / em que encontro amigos e inimigos, / gente em cujos rastros uiva danado o meu poema. / Radical como o silêncio nas prisões / em que Nazim e Miguel Hernandez desenhavam / o céu para as estrelas que morriam / no ar em que eles aprendiam cada vez mais a imensidão."

O poeta sabe o escândalo que é a poesia que se isenta do desespero e do sofrimento dos homens. E que nestes tempos a derrota da subjetividade configura a nossa impotência diante da barbárie. Por isso tem consciência que só cabe à beleza ser a negação da ditadura do mercado, onde apenas se vende a contrafação do seu sentido verdadeiro. E o poema tem que ser a síntese não-tautológica destas múltiplas contradições: "O poeta não tem razões para ter orgulho: / seu impulso é todo ele feito de esperas / sob uma não-ação que o transforma / em esperanças desesperadas / a bater em portas que não abrem. / O poeta é o homem que exibe a sua muleta / ou o coração dos seres que lhe faltam..."

Em nome do combate dessas "esperanças desesperadas" podemos dizer que a poesia de Moacyr Félix lembra a frase de Eric Hobsbawm sobre o colapso do socialismo na União Soviética: "O principal efeito de 1989 é que os ricos pararam, por enquanto, de ter medo". Portanto, só resta à poesia, em nome da verdadeira vida, ser a arte do desespero da verdade na miséria de um mundo desumanamente sem sentido, e ao poeta vestir o desespero aceso da esperança.

2. A reinvenção da utopia

"Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana; então, só podemos trocar amor por amor, confiança por confiança". Colocados no justo lugar a que esta frase de Marx nos conduz, estamos agora preparados para situarmos a poesia de Moacyr Félix. A sua trajetória como poeta jamais se afastou daquele princípio defendido por Walter Benjamin: "Quem não é capaz de tomar partido deve calar-se".

A poesia é assumida como utopia por este poeta e este tornou-se extensivamente o conteúdo de verdade que ele exprime através tanto de sua obra como da sua vida. Moacyr Félix é um militante da utopia, com isso queremos dizer que há em sua obra um princípio ético-político, que o homem pode e deve superar os limites da barbárie do capitalismo tecnológico e construir, e também viver, numa sociedade mais justa, livre da miséria e de um mundo cada vez mais absurdo na sua desumanidade.

A maioria dos críticos que já investigaram a  poética de Moacyr Félix ressaltou este princípio. Antonio Candido sublinhou o caráter de poesia-ação de sua obra, e que ele "é um poeta que deseja intervir na vida, porque como sugere um poema do seu livro O Pão e o Vinho,  se os deuses podem abismar-se na meditação, ao homem só é dado agir". Essa mundidade é para Nelson Werneck Sodré o que marca o poeta, "não houve episódio que não encontrasse eco na apurada sensibilidade do poeta". Já o poeta e crítico Ivan Junqueira da mesma forma afirmava a universalidade de sua poesia "é esse voluntarismo cósmico, esse movimento que se opera sempre ´em nome da vida`, que fazem de Moacyr Félix um  poeta único em nossa literatura de participação social e, a rigor, em toda a literatura que aqui se escreveu na segunda metade do século". Mas, no que foi talvez, a mais densa aproximação dessa poesia até agora, José Paulo Netto em "Sobre uma Dialética do Desespero" escreveu: "O desespero não interdita a esperança. Entre o ceticismo, equalizador do diferente, e a atitude dogmática, nutriz do otimismo irresponsável que se alterna com o pessimismo catatônico, o desespero instaura um horizonte que é sustentado pela esperança. Por isto, aliás, Benjamin escreveu um dia que ela só nos é dada pelos desesperados". 

Toda a poesia de Moacyr Félix é um esforço por encontrar as palavras certas que possam dar significado à dor dialética de subverter a impossibilidade na possibilidade de superar o sofrimento dos homens. Essa é a palavra do poeta, por isso toda a poesia em todos os tempos foi sempre um imperativo ontológico. Esse é o sentido verdadeiro da poesia ser a configuração do ontos-utopos por excelência, o que fica bastante claro neste outro poema: "O poeta é, tem que ser, um destruidor de destinos. / O poeta é, tem que ser, um destruidor de mitos. / O poeta é, tem que ser, um destruidor de certezas / porque ele traz o salto e não a pausa / porque ele traz a luta e não a trégua / nesta floresta de vidas e coisas transformadas / em isca para a fome dos tigres amestrados / do homem que tem dinheiro e compra / o poder de usar a humanidade inteira / de outro homem, de todos os outros homens. / Entre a escuridão das vozes e o soterrado azul / a poesia nada entre os pedaços do mundo / naufragado..."

Há neste Singular Plural de Moacyr Félix uma fome que nos consome a todos nós brasileiros eticamente corretos, que é a fome de utopia. Essa é a fome mais pregnante de toda a cultura brasileira: já estava presente no dialeto da senzala que gerou Zumbi dos Palmares, já estava no sonho mineral da utopia das letras em Minas Gerais, já estava na utopia da terra em Canudos do Conselheiro e Euclides da Cunha; e que depois explodiria na revolução cultural da utopia modernista de Mário e Oswald de Andrade; mas também, estava no Cavaleiro da Esperança, em Marighella e em Lamarca; e também em Caio Prado Jr., em Sérgio Buarque e na consciência isebiana de Álvaro Vieira Pinto, Nelson Werneck Sodré, Roland Corbisier; e está na nossa melhor crítica de Antonio Candido e Roberto Schwarz. Está sempre presente na mais alta poesia de Drummond e de Gullar, e também no Tem Gente Com Fome desse extraordinário poeta e guerrilheiro cultural que foi Solano Trindade; presente na fome de absoluto do Cinema Novo de Glauber Rocha, Joaquim Pedro e Leon Hirszman; na utopia cultural do MCP e dos CPCs; na nova objetividade de Antonio Dias, Rubens Gerschman, no bestiário apocalíptico de Darcílio Lima, na dionisíaca pintura nietzschiana de Edson Dantas; na devoração coletiva do Teatro Oficina de Zé Celso e Renato Borghi; na música de Chico, Caetano e Milton, que iam pra rua beber a tempestade; está na poesia viva de Afonso Henriques com sua Avenida Eros, no Mais dia Menos Dia de Angela Melim, no Agente Infiltrado de Jorge Wanderley, na Vertigem dos Argumentos Invisíveis de Leonardo Fróes, nas Folias Metafísicas  de Geraldo Carneiro, na androginia surrealista do Abra os Olhos & Diga Ah de Roberto Piva, nos Atabaques utópicos de Éle Semog, no Beijo da Fera de Salgado Maranhão, na Vastafala de Antonio Barreto e na Kalusha de Bruno Cattoni, e tantos outros.

Este Singular Plural de Moacyr Félix é um livro poeticamente faminto, por ser uma síntese de todas essas múltiplas fomes utópicas que formaram e formam este país. E nada melhor que um poeta como Moacyr Félix, para atualizar a necessidade ontológica de utopia neste nosso início do século 21.

3. Introdução a uma poética dos escombros

Este livro na sua verdade nos diz que estamos vivendo no limiar do tempo, no limite do tempo, na linha de passagem, no clínamen para um novo tempo. Tempo novo que jaz nos destroços do velho tempo. Assim como Abadon é o anjo do Abismo, há também o anjo das ruínas que é o anjo da Melancolia, é ele que infiltra essa luz nos olhos dos poetas e faz com que eles nos dêem o seu testemunho sobre o trágico do tempo:

Aconteceu a aurora. E um deus trabalhou. Na sua forja — não sei se era amor, não sei se era dor, nunca soube o que era — cavalos de fogo foram atrelados aos carros do Tempo. Os olhos dos cavalos de fogo — terríveis! — eram azuis, no entanto, como o primeiro sorriso.

O poema fala no chão da terra e rasga o ventre das luas que engravidam o tempo da sua única possibilidade que é o futuro. Nas caixas do tempo o poeta fala: "Ah, afinal, o que resta de nossas vidas / é a vida, / inconformada substância que nos veicula. / Sobre a mesa, / as vísceras da cidade. / Lúcida é a fome. / Nítido é o frio. / Ah, miséria! Ah, dor dos miseráveis! / Ah, coisa aleijada! / Ah, mundo! / Ah, montão de vidas alugadas."

Certamente há desespero neste Introdução a escombros, mas não é o desespero kierkegaardiano que mergulha nos abismos infinitos para alcançar Deus, encontrando, então, uma paz transcendental acima da existência humana. Não, o que existe neste livro é o desespero dos que, como afirmava Benjamin, são capazes de nos ensinar a esperança. É o que se dá aqui, através de uma poesia que se faz dialética e mergulha no abismo da existência humana, para dele extrair não um transcendente vazio, mas uma transcendência a partir do próprio homem concreto, tornando-o mais e mais humano, recolocando-o na sua condição de homem-humano. A poesia de Moacyr Félix nos mostra através dessa dialética que o destino do homem é o próprio homem. Mesmo que o homem esteja mergulhado nesta selva selvaggia da luta de classes, ele comunga com a afirmação de Brecht que as contradições são as esperanças: "Isto não é um poema: isto é / um palavrão, ou seja, o meu mundo / jogado nas esquinas da história / como um cadáver de criança / sob as rodas de um ônibus / desgovernado e bêbado / dentro do tempo em que nosso dia se mede / nos ponteiros feitos com os ossos / de solidão, desamor e torturas."

O que nos interessa em Moacyr Félix é a afirmação constante e permanente, em sua poesia, do espírito da utopia, um dos fundamentos que deu origem à poética da modernidade. E que na busca de uma síntese entre poesia e dialética procura exprimir os caminhos de uma utopia concreta que estaria não no passado, mas no futuro do homem. É com essas armas que o poeta busca decifrar a desesperante máquina do mundo:

Ó seres imóveis pela mais estranha morte! Ó poças que ignoram o desabrochar das rosas e a sede das mãos em concha! Ó monstros de seda e de cristal! Ó mentira! Ó luxúria! Ó Mamon! Ó tu, único demônio!

Desmascarar a submissão, a reificação e o simulacro desse mundo no atual estágio do capitalismo, eis a força dessa lírica, onde o poeta nunca é apenas um espectador, e muito menos um cortesão das conjunturas, mas se quer testemunha da beleza da primeira manhã, do terror da noite última e da paz do sétimo dia. Neste livro, que dá continuidade à obra poética de Moacyr Félix, mais uma vez ele se associa com o pensamento expresso por Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos, e que deve servir como uma espécie de bússola da utopia neste tempo de barbárie e miséria: "O homem constrói também em conformidade com as leis da beleza".

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Carlos Lima é poeta e professor de Cultura Brasileira na Uerj. Escreveu, entre outros, Cantos Órficos, Anatomia da Melancolia, Terra, Poemas esquerdos e Rimbaud no Brasil.  

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Bibliografia

Adorno, Theodor. Teoria estética. São Paulo: Martins Fontes, 1982.

__________. Dialectique negative. Paris: Payot, 1978.

Andrade, Mário de. Poesias completas. São Paulo: Martins, 1974.

Benjamin, Walter. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985.

Bloch, Ernst. Principe espérance. Paris: Gallimard, 1991.

Breton, André. Manifestes du surréalisme. Paris: Pauvert, 1965.

Félix, Moacyr. Singular plural. Rio de Janeiro: Record, 1998.

__________. Introdução a escombros. Rio de Janeiro: Record, 1998.

__________. 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.

Marx, Karl. Manuscritos econômicos-filosóficos de 1844. Paris: Éd. Sociales, 1990.

Netto, José Paulo. "Sobre uma dialética do desespero". Temas de Ciências Humanas. São Paulo: LECH, 1980.             



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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