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O pensamento político de Mariátegui

Alberto Aggio - Janeiro 2006
 

O peruano José Carlos Mariátegui é pouco e mal conhecido no Brasil. Dele se publicou apenas um livro entre nós (Os sete ensaios de interpretação da realidade peruana, em 1975), além de algumas coletâneas de textos selecionados [1]. Isso não acontece somente no Brasil. Até bem pouco tempo, pelo menos até meados da década de oitenta do século passado, Mariátegui ainda era um desconhecido para o grande público em diversos países latino-americanos.  A exceção é o Chile que publicou uma coletânea de seus textos em 1931; posteriormente a família Mariátegui iniciou a publicação de suas Obras completas na década de 1950 e, pelo que se tem notícia, ainda não terminou de publicar todos os seus escritos.

Mariátegui nasceu em 1894 e viveu apenas por 35 anos. Morreu em abril de 1930, poucos meses antes de um programado embarque rumo a Buenos Aires, onde havia decidido prosseguir seu trabalho e sua militância política. Foi um autodidata, viveu quase que exclusivamente da atividade de jornalista e, em função de sua intensa atividade política e cultural, acabaria se tornando, a despeito de toda a querela política e intelectual que se formou, desde sua morte, em torno de suas concepções, uma referência intelectual e política não apenas para o Peru mas também para toda a América Latina. Mariátegui não foi somente um teórico e um produtor de idéias. Foi um homem de ação e até hoje sua obra é considerada a produção mais original do marxismo latino-americano. No Peru, Mariátegui foi considerado — por décadas e pelos mais diversos intelectuais — como o formulador de um projeto de nação, pensado, pela primeira vez no país, como uma democracia social avançada. Numa perspectiva latino-americana, contudo, Mariátegui é considerado um divisor de águas na história das idéias políticas no continente uma vez que produziu as bases de um pensamento que procurou captar a particularidade e a originalidade das sociedades construídas na Ibero-América.

Seus contemporâneos o conheceram por sua incessante atividade cultural e política, mas não assumiram nem concretizaram suas idéias num movimento social de massas, como ele ambicionava. Num certo sentido, pode-se dizer que ele foi esquecido e mais tarde recuperado, permanecendo, em relação às suas idéias, um conjunto de interpretações, às vezes desencontradas e até mesmo antagônicas, que se confrontam num verdadeiro campo de batalha, cujo resultado, na maioria das vezes, tem sido o de despedaçar o seu pensamento.

Passados os anos, e apesar de reverenciado por muitos, Mariátegui se tornou e, de certa forma, permanece sendo um personagem incógnito, enigmático, excentrico e inclassificável; um marxista — mas um marxista atípico, se pensarmos na história do marxismo triunfante do século XX — que sempre acreditou que o pensamento de Marx não deveria perder sua fecundidade e, para isso, não poderia perder o contato e o diálogo com a cultura mais promissora que estava sendo produzida no século XX. Para Mariátegui, o “verdadeiro moderno marxismo não pode deixar de se basear em nenhuma das grandes aquisições do século XX em termos de filosofia, psicologia, etc.”(Ideologia y Política. Obras completas, p. 16).

E, de fato, ler Mariátegui hoje é surpreendente, entre outras coisas, por suas referências muito distantes do comum para um pensador localizado na tradição marxista, e mais surpreendente ainda se o pensarmos dentro da tradição marxista-leninista latino-americana. Apenas como um exemplo do que estamos afirmando e que muitas vezes passou inteiramente desapercebido por seus estudiosos, para a epígrafe do seu famoso Siete Ensayos, editado em 1928, Mariátegui escolhe uma frase de Nietzsche na qual o pensador alemão, apelando à ação, afirmava: “Yo digo: Maestro, hermano, te seguiremos cantando, seguiremos llamándote” (a tradução é creditada a Pablo Neruda). E mais: na nota introdutória ao livro (uma Advertencia ao leitor), a menção e a inspiração do autor alemão se fazem diretas e incisivas:

Da mesma maneira que La Escena Contemporánea, não é este, pois, um livro orgânico. É melhor assim. Meu trabalho desenvolve-se segundo a vontade de Nietzsche, que não amava o autor devotado à produção intencional, deliberada, de um livro, mas aquele cujos pensamentos formavam um livro espontânea e inadvertidamente. Muitos projetos ocupam a minha vigília: mas sei antecipadamente, que apenas realizarei aqueles que me forem ordenados por um imperioso mandato vital. Meu pensamento e minha vida constituem uma coisa só, um processo único. E se existir algum mérito que eu espero e reclamo que me reconheçam é o de — ainda segundo um princípio de Nietzsche — pôr todo o meu sangue nas minhas idéias (Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. São Paulo: Alfa-ômega, 1975, p. XXI).

Para um estudioso do pensamento de Mariátegui, a referência a Nietzsche pode ser ainda ampliada. O próprio Mariátegui poderia ser pensado como um equivalente cultural de Nietzsche. De acordo com José Aricó,

Mariátegui é para a cultura peruana e talvez latino-americana o que representou Nietzsche para a consciência alemã e européia, isto é, a fonte crítica, a introdução às grandes questões 'a marteladas'. Não apenas uma doutrina, mas uma maneira de viver, uma conduta. Mas também a pluralidade de sentidos, de interpretações, de camuflagens [...]. É o centro solar de onde partem não somente opiniões mas sistemas que se estabelecem, convicções fundamentais, ideologias que se implementam. E, por isso, é também a fonte das nossas mais ariscas ortodoxias e heterodoxias, umas e outras recolhidas quase dos mesmos textos, extraídos de toda obra que se julga como fundadora, sempre de um caráter deslumbrante e ao mesmo tempo inacabado [2]

Uma outra situação bastante desconfortável para avaliações e qualificações mais dogmáticas a respeito de Mariátegui, especialmente no interior de um certo tipo de marxismo praticado na América Latina, se estabelece quando o estudioso se defronta com curiosa a declaração de Mariátegui a respeito da sua “descoberta da América”, ou melhor dito, de quando e como ele próprio percebe ser possível uma abordagem marxista para a particularidade e originalidade da América. Como ele mesmo confessou, a leitura dessa América somente foi possível quando ele esteve, por alguns anos, na Europa. Mariátegui exilou-se na Europa em 1919, retornando ao Peru somente em 1923. Sua estadia na Europa (depois de passar também pelos EUA) lhe possibilitou encontrar o país que havia deixado na América. Nas suas palavras, a “Europa me revelou até que ponto eu pertencia a um mundo primitivo e caótico; e ao mesmo tempo me impôs, me deixou claro o dever de uma tarefa americana” [3], a saber, a busca de um caminho próprio para o desenvolvimento das sociedades ibero-americanas, a partir de uma ruptura com a dependência intelectual em relação à Europa.

No seu retorno da Europa, Mariátegui enfrentou uma acusação muito forte de seus antigos companheiros das lutas da reforma universitária, entre eles Victor Raul Haya de la Torre, o criador do Apra, do qual Mariátegui fez parte até a sua conversão em partido político, em 1924. A acusação se estabelecia em termos de uma crítica ao suposto “europeísmo” de Mariátegui. Essa acusação, o autor dos Siete ensayos rebateu com palavras duras e claras, na mesma nota introdutória mencionada acima:

Não faltará quem me considere um europeizante, alheio aos fatos e aos problemas do meu país. Que a minha obra me faça justiça contra essa barata e interessada conjectura. Fiz na Europa o meu melhor aprendizado. E acredito que não haja salvação para a Indo-América sem a ciência e o pensamento europeus ou ocidentais. Sarmiento, que é ainda um dos criadores da argentinidade, foi na sua época um europeizante. Não achou melhor maneira de ser argentino.

A acusação era totalmente infundada e se alimentava de um ambiente cultural e ideológico de afirmação do nacionalismo e do antiimperialismo na América Latina. Mas isso era, até certo ponto, explicável. Quando Mariátegui volta ao Peru, ele organiza uma série de cursos sobre a situação mundial, que são ministrados por ele na Universidade Popular González Prada, em Lima. Ao mesmo tempo, publica uma série de artigos em diversos jornais peruanos a respeito do panorama internacional depois da Grande Guerra, examinando tantos os conflitos mundiais quanto diversos aspectos da cultura na década de vinte, especialmente. Boa parte desses ensaios foram reunidos e fazem parte do primeiro livro publicado em vida por Mariátegui, intitulado La Escena Contemporánea; mais tarde outros ensaios feitos nesse período e outros escritos posteriormente serão reunidos em diversos livros póstumos (Historia de la crisis mundial, Figuras e aspectos de la vida mundial, Signos y obras).

Particularmente, em La Escena Contemporânea, Mariátegui discute os conflitos internacionais que marcam o mundo, dialogando fortemente com um texto que mais tarde se tornaria um clássico: The Economic Consequences of the Peace, publicado originalmente em 1919 por John M. Keynes. É necessário anotar que há coincidências expressivas entre Mariátegui e Keynes a propósito das causas geradoras da instabilidade internacional que marcava o pós-guerra. O fascismo italiano pode também ser mencionado como um outro tema de interesse e concordância mútua. Pode-se dizer que a partir desse fecundo diálogo Mariátegui conseguiu montar uma chave analítica para o cenário mundial. Para ele, o período pré-belico, caracterizado pela belle époque parisiense havia terminado. No período pós-bélico, a Revolução Russa de 1917 e o fordismo norte-americano constituíam-se nos principais elementos de renovação e mudança nas concepções de vida. Após a guerra, o Oriente está impregnado de pensamento ocidental. Como um paradoxo aparente, a idéia de democracia, agonizante na Europa, afirmava-se em outros lugares do mundo. É nesse contexto que Mariátegui analisa a situação da Índia e a liderança de Gandhi – outro aspecto surpreendente e pouco observado por seus estudiosos. Mas, mais surpreendente ainda é registrar que Mariátegui, analisando a situação do pensamento liberal-democrático na Europa, chega a caracterizar intelectuais como Keynes como verdadeiros “corifeus da democracia”, observando ainda que “se Lenin era o político da revolução e Mussolini o da reação; o primeiro-ministro inglês, Lloyd George, era o do compromisso e da reforma” [4].

Fica claro, assim, que Mariátegui, antes ou ao invés de ser compreendido como “essencialmente um indigenista peruano”, deve ser percebido sobretudo como um político e um pensador atento aos fatos do mundo. Mais ainda: Mariátegui revelava possuir uma perspectiva muito mais voltada para uma orientação democrática, de alianças políticas e intelectuais, que sedimentasse e cimentasse a construção de um movimento que tinha o sentido de uma revolução pensada não de maneira convencional e doutrinária que infelizmente para ele dava fortes mostras de se afirmar naquele momento. Atento ao mundo, Mariátegui buscava uma via de passagem, de prática reformista, para o seu projeto de socialismo indo-americano.

Isto fica evidente, a nosso ver, se observarmos que Mariátegui optou por um afastamento em relação ao movimento conduzido por Haya de la Torre de afirmação do Apra como partido político — um movimento de forte selo leninista — e passou a trabalhar por uma outra perspectiva organizacional que iria redundar na fundação do Partido Socialista Peruano. Por outro lado, Mariátegui iria também se desentender violentamente com a Internacional Comunista (IC) em função da leitura que a IC passaria a fazer das sociedades latino-americanas. O pensamento mecanicista adotado pela IC no seu processo de “descoberta da América Latina” a levou a caracterizar as sociedades latino-americanas, em seu conjunto, como sociedades semicoloniais, além de tratar o tema indígena no Peru como um problema de Estado, isto é, como uma questão nacional, que demandaria o estabelecimento de um objetivo claro: a luta pela criação das “Repúblicas indígenas”. Mariátegui se colocou frontalmente contra isso, argumentando que “a resolução para o problema do índio deveria ser uma solução social” (Peruanicemos al Peru, Obras Completas, p. 45). Frente à orientação de criação das “Repúblicas indígenas”, Mariátegui foi duríssimo:

[...] a constituição da raça indígena em um Estado autônomo não conduziria, no momento atual, à ditadura do proletariado indígena e nem mesmo à formação de um Estado indígena sem classes, como alguém pretendeu afirmar, mas à formação de um Estado indígena burguês, com todas as contradições internas e externas dos estados burgueses [...]. O problema indígena, na maioria dos casos, se identifica com o problema da terra [5].

Apesar da pouca difusão no Brasil, a imagem que se formou de Mariátegui entre nós é a de um marxista herético mergulhado no mundo indígena peruano. É certo, como vimos acima, que ele valorizava muito o componente indígena no processo de renovação da invertebrada nação peruana, procurando com isso potencializar sua ação política autônoma. Contudo, no fundamental, a ação política e cultural de Mariátegui possuía horizontes mais amplos e uma postura ideológica bastante definida.

Na apresentação da revista Amauta [6], fundada por ele em 1926, Mariátegui caracteriza-se a si e ao grupo da revista como uma “força beligerante e polêmica” que não faria “nenhuma concessão ao critério geralmente falaz da tolerância de idéias”. A intolerância — se esclarece em seguida — era em relação ao que eles consideravam como “idéias más”. Aquele era um tempo duro de disputa da hegemonia no qual o pensamento marxista se apresentava sem meias palavras como “doutrinário e científico”.

Mesmo assim, entendemos que o mais significativo é o fato de que Amauta declarou e procurou cumprir o objetivo de investigar o Peru “dentro do panorama do mundo”, no qual se buscava compreender “todos os grandes movimentos de renovação política, filosófica, artística, literária e científica” que vicejavam naquele tempo. A vocação universalista do projeto civilizatório de Mariátegui era, assim, bastante clara. É expressivo que a idéia final que se proclama na apresentação à revista Amauta é a máxima: “todo o humano é nosso”. Poderíamos dizer, assim, que aquela “força beligerante e polêmica” somente reconheceria o pluralismo na criação e na inovação. Guardando em si muito do clima e do ambiente, aquela era uma postura revolucionária que era difícil deixar de ser incompreendida como uma espécie de voluntarismo ou movimentismo.

O marxismo e a ação político-cultural de Mariátegui foram, sem dúvida, marcados pela autonomia, por um engajamento agonístico (no sentido de integral e conseqüente) e por um espírito de frente política: uma síntese surpreendente para a época e, por que não reconhecermos, até mesmo para os dias que correm. Da mesma maneira poderíamos registrar que as idéias de Mariátegui sugerem uma reconsideração permanente da discussão a respeito da problemática relação do marxismo com a cultura e a política, um tema ainda candente em nosso tempo.

Contudo, Mariátegui viveu o alvorecer do século XX. Naquele momento predominava o liberalismo econômico com paradigma de organização para todas as sociedades em âmbito mundial. No contexto da crise daquele liberalismo, Mariátegui buscava um “novo mundo” e, em especial, um lugar para a (nossa) América. Caso conseguisse ultrapassar toda a estruturação colonial e oligárquica que a oprimia e estancava, a América “ao sul do mundo” poderia ser a grande novidade dessa nova civilização mundial. Mariátegui não pôde nem estimular nem dirigir essa construção. Os homens dessa América que, como ele, sonharam com essa perspectiva, viram-se de frente com a catástrofe da guerra mundial uma década depois de sua morte.

Aos homens de hoje é imperativo reconhecer que Mariátegui permanece atual em sua metodologia e em sua perspectiva de ação e de futuro. Mariátegui é, portanto, parte essencial da cultura política do socialismo que vicejou na América Latina. Sua leitura, desprovida dos resquícios doutrinários e simplistas que a marcaram no passado, pode alimentar, como se tentou demonstrar aqui, uma reflexão crítica sobre o tipo de civilização que a América “ao sul do mundo” pode propor para ela mesma e ao mundo.

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Alberto Aggio é professor livre-docente da Unesp/Franca, autor e organizador de Gramsci: a vitalidade de um pensamento. São Paulo: Unesp, 1998, e Pensar o século XX: problemas políticos e história nacional na América Latina. São Paulo: Unesp, 2003 (com Milton Lahuerta).

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Notas

[1] Imediatamente após enviarmos esse artigo ao editor, apareceram dois novos livros de Mariátegui em português: Do sonho às coisas retratos subversivos. Tradução, organização e notas de Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Boitempo, 2005; e Por um socialismo indo-americano. Seleção e introdução de Michael Löwy. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2005.

[2] Aricó, J. “Mariátegui: el descobrimiento de la realidad”. Debates. Buenos Aires, out./nov. 1985, p. 9-11.

[3] Mariátegui, J. C. El Alma Matinal. Citado por Aricó, J. “Mariátegui: el descobrimiento de la realidad”, cit.

[4] Silva, Renata Bastos. “O Lord pelo Amauta — a leitura de Keynes por Mariátegui”. Estudos de História. Franca, v. 7, n. 2, p. 155-84, 2000. Ver também da mesma autora Mariátegui além dos Sete Ensaios. Franca: Unesp, 1998, dissertação de mestrado.

[5] Mariátegui, J. C. Ideologia y Política. Obras Completas, p. 81. Apud Moreno, “Mariátegui: pensar por cuenta propia”. In: Monereo, Manuel (Org.). Mariátegui (1884-1994). Madrid: Talasa Ediciones, 1995, p. 49-65.

[6] A “Apresentação” de Amauta está publicado em português em Amayo, E. e Segatto, J. A. (Orgs.). J. C. Mariátegui e o marxismo na América Latina. Araraquara: Unesp, FCL, Laboratório Editorial; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2002, p. 109-111.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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