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A Santíssima Trindade

Luiz Werneck Vianna - Agosto 2006
 

Noam Chomsky. Ambições imperiais. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. 200p. Tariq Ali. A nova face do império. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. 216p. Edward Said. Cultura e resistência. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. 230p. Emir Sader (Org.). Contragolpes. São Paulo: Boitempo, 2006. 264p.

Contragolpes, uma seleção de artigos da New Left Review coligidos por Emir Sader em edições publicadas entre 2002 e 2004, mais Ambições imperiais, de Noam Chomsky, A nova face do império, de Tariq Ali, e Cultura e resistência, de Edward Said – estes três últimos, coletâneas de entrevistas concedidas pelos autores, no mesmo espaço de tempo, ao jornalista David Barsamian, que mantém há vários anos um programa radiofônico na Alternative Radio (EUA) –, compõem um painel homogêneo e altamente representativo da opinião de intelectuais que, em meio a uma cultura de crescente especialização de suas atividades, persistem na posição de uma intelligentsia clássica.

Chomsky, Said e Tariq Ali. O primeiro é um cientista de renome internacional na área de estudos lingüísticos, professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). O segundo, crítico literário e consagrado teórico da cultura, igualmente professor em um centro destacado de pesquisa, a Universidade de Columbia. E o último é um romancista e ensaísta de sucesso. Homens já bem passados dos 60 anos – Said morreu em 2003, com 68 anos, depois de nove anos de luta contra uma forma insidiosa de leucemia. Com efeito, sem nunca terem abandonado suas atividades científicas ou culturais, eles se lançaram ao mundo como cavaleiros do justo e da justiça, em particular na denúncia das condições opressivas que vitimam povos como os do Haiti, da Palestina e do continente africano. Não são políticos – o mais parecido com um deles talvez seja Tariq Ali –, e o seu espaço é menos o do Estado-nação de cada qual do que o cenário que vem surgindo da globalização.

Embora nada formalize suas intervenções – nem partido político ou uma mera associação nem uma concepção sistematicamente ordenada como forma de agir no mundo –, são a primeira floração da intelligentsia nessa hora de globalização, que parece ressurgir, desde que se proclamou o seu ocaso em algum momento dos anos 1960, também em personagens tão diversos deles – como é o caso de Habermas. No caso desses três intelectuais, trabalha a favor da autenticidade de suas posições o fato de que todos eles, de um modo ou de outro, possuem vínculos com a periferia do mundo, quer pela origem nacional – Tariq Ali é paquistanês,  Said nasceu na Palestina –, quer por traços identitários culturais, como no caso de Chomsky, um judeu-americano, filho de um professor de hebraico e criado, em suas palavras, em um "gueto" encravado em solo ianque.

O ponto de vista da periferia, para esses grandes personagens da cultura ocidental, não lhes é, portanto, estrangeiro. Não por acaso, David Barsamian, o entrevistador, é um americano filho de armênios exilados do genocídio turco. O seu antiimperialismo provém, basicamente, desse ângulo particular com que se defrontam com o mundo. São recorrentes as referências a Joseph Conrad, Rudyard Kipling e George Orwell, cujas literaturas testemunham a ação do antigo Império Britânico nas colônias submetidas ao seu domínio. Se, antes, o império se apresentava como o portador de uma missão civilizadora – o fardo do homem branco de que falava Kipling –, hoje, sob sua versão norte-americana, tal missão seria a de difundir os valores e as instituições da democracia, e, no jargão retórico do presidente dos EUA, George W. Bush, garantir a supremacia do bem contra o mal, identificado ao terrorismo qualquer ato de resistência ao seu domínio.

É de Said a caracterização: "Todo império faz duas coisas: começa dizendo que não é igual a nenhum dos impérios do passado [...], não fala em termos de destruição, mas, na verdade, fala o contrário. [Ele] traz esclarecimento e civilização, paz e progresso [...]. Os apologistas do império nunca dizem isso abertamente, mas para eles os conquistados são inferiores. Portanto, temos que levar essas coisas maravilhosas para eles. Era verdade nos tempos de Conrad há cem anos, e é verdade hoje em dia".

Para os três entrevistados, a dificuldade no enfrentamento do domínio imperial hoje dominante estaria na falência do socialismo de Estado, na perda de substância do Estado-nação como idéia-força e na corrosão da inteligência, que, com as correntes pós-modernas, ter-se-ia afastado da herança do Iluminismo e da história "como grande narrativa". Chomsky, tratando dessa herança e do valor das doutrinas liberais clássicas, ressalva que a apropriação contemporânea deve ser contextualizada, mas afirma que "devemos ter grande respeito pelos ideais do Iluminismo – racionalidade, análise crítica, liberdade de expressão, liberdade de investigação", horizonte que, segundo ele, desde o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter vem sendo perdido pela sociedade americana com a emergência do fundamentalismo religioso.

Tariq Ali, remetendo-se à guerra entre civilizações, que, para Samuel Huntington, tenderia a se travar entre o Oriente e o Ocidente, a traduz ironicamente como "um choque entre um minúsculo fundamentalismo religioso, bastante retrógrado, e a matriz de todos os fundamentalismos, o fundamentalismo imperial americano", que se serviria da sua força política e militar a fim de "remodelar o mundo segundo suas necessidades e interesses". Mas, diagnosticam, o império não pode se sustentar apenas na força. Ele é força e consenso, e uma chave do poder está, nas palavras de Chomsky, na "engenharia do consentimento".

Essa intelligentsia incorpora, como se vê, o léxico gramsciano e se concebe em uma guerra de posições, uma vez que o império não poderia ser derrotado militarmente. Ele deve ser objeto de um assédio intelectual e moral, em que a opinião pública internacional, a que não pode faltar o peso decisivo da opinião pública norte-americana, se constitui como ator. Nesse sentido, faz parte do arsenal dessa intelligentsia a luta pelo melhor argumento ao estilo habermasiano, na disputa pelo direito e nas controvérsias históricas, na cena das esferas públicas nacionais e internacionais. Ademais, em sua base, o império conhece fissuras: no Oriente árabe, no Afeganistão, na América Latina. O "projeto" gramsciano da intelligentsia quase ganha organicidade com a institucionalização dos fóruns sociais mundiais sob a palavra de ordem "um outro mundo é possível" – em que, ao menos em Chomsky, parecem ecoar antigas lições libertárias de John Dewey, inspirador pedagógico da escola em que foi educado.

A seleção de artigos de Contragolpes pode ser lida como um aprofundamento das análises dos pontífices dessa intelligentsia, salvo o brilhante e original artigo do chinês Qin Hui, que se dedica à análise da questão agrária na China. Mas é no igualmente brilhante artigo de Perry Anderson, editor da New Left Review, que as concepções dessa intelligentsia ganham nitidez conceitual. Anderson sustenta com propriedade que a teoria da hegemonia – uma síntese de mecanismos de "dominação" e de "direção" –, tal como formulada por Gramsci, deve ser estendida ao sistema internacional. E, nesse plano, algumas antinomias são constitutivas: a potência hegemônica tem de possuir uma força superior em armas, "atributo nacional que não pode ser alienado ou compartilhado", enquanto, por outro lado, os elementos de "direção" supõem um movimento de generalização.

Tal generalização, contudo, tem como base a matriz específica da história nacional da potência dominante, que, como inevitável, não necessariamente se encaixa nas matrizes dos Estados-nação expostos à sua hegemonia; exemplares os casos da França e da Alemanha. Essa é uma outra fissura. Mas, se assim é, não se compreende bem por que não "lamentar que o governo Bush tenha eliminado o pobre simulacro do Tribunal Penal Internacional ou varrido as folhas de parreira murchas do Protocolo de Kyoto" [acordo internacional para reduzir a emissão de gases que causam o efeito estufa]. Temas como esses, tão caros aos europeus, assim como o dos direitos humanos, portadores de uma vocação de universalização, não deveriam fazer parte de uma agenda contra-hegemônica?

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Luiz Werneck Vianna é cientista político e professor no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).



Fonte: Folha de S. Paulo, 13 ago. 2006.

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