Cultura

Os múltiplos talentos de Neli Aquino Música, fotografia, literatura, artes plásticas e cênicas são as áreas por onde a artista já passeou. Tudo ao mesmo tempo com seriedade e obstinação

Marinella Souza
*Colaboração
01/12/2008

A mãe sempre valorizou toda e qualquer expressão artística, um dos irmãos é artista plástico, a outra é pintora. Neli Aquino achava que não podia adentrar esse universo já habitado pelos irmãos e escolheu a música como o primeiro caminho artístico a ser trilhado.

"Quando eu tinha uns dez, 11 anos, quis aprender a tocar violão e minha mãe disse: 'você pode fazer aula, mas se não aprender vou fazer um colar na sua cabeça'", recorda sorrindo. Algumas aulas depois, a pequena Neli desistiu do violão, mas não ganhou o temido colar que a mãe prometeu.

Quatro anos mais tarde, ela se encantou pela flauta doce e começou a estudar. Obstinada, ela queria aprender a tocar "a outra flauta", que jamais tinha visto. Quando conheceu a sonhada flauta transversa achou que não conseguiria tocar, mas persistiu.

Arrumou professor particular e uma flauta velha e aprendeu a tocar. Apesar de ter cunho amador, a música parecia ser a "praia" de Neli. Mas isso não era o suficiente para Neli que, por pouco, não foi médica.

Ela chegou a fazer vestibular, passou, mas um dia de aula foi o suficiente para que ela entendesse que aquele não era o seu lugar. Abandonou a faculdade e se dedicou à música e à fotografia que, àquela época, já era uma paixão.

Foto de varal com dois pregadores de roupa molhados Foto de quadro com sapatos de palhaço Foto de esculturas de pássaros de arames

Junto com os estudos (ela se formou em Letras) Neli fazia exposições de fotografia e tocava em uma orquestra. Tudo ia bem, mas era necessário ganhar dinheiro e ela começou a trabalhar em um banco. Com o horário apertado, Neli teve que se afastar da arte e seis anos e meio depois essa troca começou a dar sinais de sua falência.

"Eu estava adoecendo, aí percebi que valorizar as pessoas só por causa do dinheiro que elas têm não combinava comigo. Saí de lá e abri uma loja de roupas brancas", conta. Foi nessa época que o desenho começou a entrar na vida dessa artista de mil e um talentos.

"Na minha cabeça, desenho era área da minha irmã, mas as pessoas reconheciam o meu talento, viam que eu desenhava bem. No ano 2000 fiz uma decoração especial para a vitrine da loja com arames articulados e fui premiada", comenta.

Nessa época, o irmão Marcelo Aquino já fazia algumas esculturas e, mais uma vez, Neli não quis entrar na seara do irmão. No entanto, não abandonou a idéia. "Eu tenho uma disputa comigo mesma e quando me disseram que eu tinha talento para o desenho eu comecei a me dedicar a isso. Toda noite eu chegava em casa e ia desenhar. Vi que era capaz", diz.

Foto do Palhaço Risadinha  - fantoche Foto da cachorra Sílvia - personagem de Neli Aquino Foto de Flor - personagem de Neli Aquino

Tanta obstinação a levou novamente para os bancos de faculdade. Aos 43 anos Neli entrou para o curso de Artes no qual está se formando em 2008. Nesse meio tempo, ela escreveu um livro infantil com as histórias que contava para os sobrinhos durante as viagens de Juiz de Fora para Cabo Frio.

Além disso, criava algumas personagens durante as horas vagas. Na faculdade, Neli teve que apresentar um teatro de fantoches numa das disciplinas e se apaixonou pelo teatro de bonecos. Coincidentemente, no mesmo período foi convidada para uma festa de carnaval para qual fantasia era quesito obrigatório.

Meio à contragosto, aceitou o convite e começou a pensar em uma fantasia. A idéia surgiu da mente materna que lhe sugeriu: "você gosta tanto de cachorro, por que não se fantasia disso?". Noites e noites observando detalhes da sua cadelinha Miucha e debruçada na máquina de costura, renderam a primeira personagem materializada, a cachorra Sílvia.

Foto de quadro hiperrealista, com carambolas Foto das mãos de Neli Aquino desenhando Foto de quadro de burro

Atualmente, seu foco principal está na arte de palhaço, sem abandonar as outras atividades. "Eu nunca deixei nada para trás e nem pretendo deixar", declara a obstinada artista. No entanto, se, por algum motivo, fosse obrigada a escolher apenas uma das atividades para continuar exercendo, a escolha seria o palhaço.

"É a única, tirando a música, que é presencial. Depende de mim, a gente vê o riso da outra pessoa. Eu acho o riso muito importante... você despertar o riso da outra pessoa através do seu ridículo, do seu lixo, é muito gostoso. Essa é a grande satisfação", revela.

E conhecendo tantas nuances artísticas, o que é a arte para Neli Aquino? Alguns segundos de silêncio são o suficiente para a resposta objetiva: "Arte é ter disponibilidade de captar os pequenos acontecimentos que nos cercam e transformá-los em grandes coisas", define a artista plástica, musicista, fotógrafa, escritora, comediante, palhaça e professora de desenho em uma faculdade de moda da cidade.

*Marinella Souza é estudante de Comunicação Social na UFJF