Há oito anos, o analista de sistemas Thiago Andrade não coloca um bife na boca.
"Não me sentia bem comendo carne. Ficava pensava no sofrimento dos animais e cheguei à
conclusão de que não valia a pena me alimentar do sofrimento deles."
Primeiro, Andrade parou de ingerir carne vermelha. Com o tempo, parou também de comer a branca, e
planeja fazer a dieta vegana, ou seja, parar de comer qualquer alimento de origem animal. "A cada passo que
dou, sinto meu organismo mais limpo e a minha consciência mais leve."
Quando sai com os amigos para uma confraternização, a sua opção é por comer em casa antes de ir para o encontro. Para ele, é complicado se alimentar em restaurantes, porque a culinária brasileira costuma misturar pedaços de carne nos pratos, além de utilizar caldos de carnes como tempero.
Esse problema também é enfrentado pela professora Carla Cristina Delgado Lacerda. Ela se tornou vegetariana há quatro anos e conta que quando tomou a decisão de mudar o hábito alimentar enfrentou piadinhas dos colegas.
A professora afirma que sempre teve uma ligação muito forte com os animais e que, para
ela, era incoerente continuar comendo carne. Assim como Thiago, ela pretende, um dia,
se tornar uma vegana. "É preciso se preparar para esta mudança"
, afirma.
Ela sempre procura informações sobre vegetarianismo na internet e costuma ler composições
de alimentos industrializados. "Há alimentos que se você não procura se informar,
não fica sabendo que é produzido com substâncias de origem animal, como a gelatina,
que é feita do tutano do boi."
Para eles, defensores do vegetarianismo, não comer carne é muito mais do que uma
mudança no hábito de vida. Além de ser mais saudável, prevenindo várias doenças, como
as coronarianas, é também uma questão ética, pois existe a preocupação com a matança
dos animais e, ainda, ambiental, já que a pecuária tem ação impactante sobre o meio ambiente.
"Um dos fatores que mais provoca o desmatamento
da Amazônia é a criação de pasto. O desmatamento causa poluição e aquecimento global"
,
ressalta Carla.
As referências vegetarianas e a vida sem carne crescem cada vez mais. No site de relacionamento mais frequentado no Brasil, fazem sucesso comunidades como Vegetariano (23.140 membros), Todos os animais merecem o céu (1.158) e Vegetarianismo - Um mundo melhor (1.206). Em Juiz de Fora, há anos só havia um restaurante vegetariano. A cidade, hoje, conta com quatro.
Em 2008, Carla fundou um grupo de discussão, do qual Andrade também faz parte, com
o objetivo de divulgar o vegetarianismo. Ela conta que na primeira reunião do grupo
conseguiu reunir oito pessoas. "Mesmo não sendo um número expressivo, não me
intimidei. Parti do princípio da antropóloga Margaret Mead, de que as grandes mudanças
no mundo começam com poucas pessoas."
Menos de um ano após a primeira reunião,
já são 20 participantes no grupo.
Além dos encontros mensais, o grupo promove eventos. Eles comemoram o fato de terem
impedido a realização da Copa do Laço de Bezerro no final do ano passado. "Esse
tipo de competição provoca o sofrimento dos animais, que podem até quebrar o pescoço.
Entramos com uma ação pública para impedir a sua
realização e conseguimos. Foi uma conquista, mas sofremos muita retaliação."
Atualmente, o grupo colhe assinaturas para entrar com uma petição na Câmara Municipal de
Juiz de Fora contra a realização
de rodeios na cidade.
O vegetarianismo é o hábito alimentar de não comer carne, porém algumas pessoas adotam hábitos vegetarianos de formas menos restritas.
A alimentação vegetariana gera muitas dúvidas sobre sua nutrição. Há a preocupação
devido à falta de proteína e ferro. No entanto, o nutricionista Marcos Vidal
Martins defende que estes nutrientes podem ser encontrados em outros alimentos.
Ele se tornou vegetariano após assistir o documentário A carne é fraca, do instituto Nina Rosa.
"A cota diária média de ingestão de proteína é de 10% do valor calórico da alimentação.
Isso conseguimos atingir ingerindo cereais e leguminosas, como arroz e feijão,
combinação típica da mesa dos brasileiros."
Com relação ao ferro, Martins explica que existem duas formas do nutriente, a heme
e a não-heme. "Na carne, as duas formas são encontradas. Nos vegetais, só há a não-heme.
É preciso um fator para ajudar a absorção, que é a vitamina C, encontrada nas frutas.
Vegetarianos comem muita fruta."
Ele afirma que as mil miligramas diárias de cálcio necessárias ao organismo são ingeridas pelos vegetarianos
através do consumo de vegetais verde-escuros e brócolis. "Dessa forma, podem-se excluir da alimentação
o leite e seus derivados."
Já o zinco e o selênio são obtidos através da ingestão de castanhas,
nozes, pistache, dentre outras frutas oleoginosas."Só precisamos de uma porção
diária desses nutrientes."
Para obter a quantidade de ômega 3 ideal, o vegetariano
deve ingerir de duas a três colheres de sopa de linhaças trituradas por dia.
O único nutriente que não é encontrado em outros alimentos que não sejam os de origem animal
é a vitamina B 12. "Para quem é vegano há a necessidade da suplementação. A vitamina
está presente em vários processos metabólicos e a falta dela provoca deficiência neurológica."
Para Martins, se o vegetariano incluir nas refeições frutas, alimentos
integrais, azeite de oliva extra-virgem e óleo de girassol, ele não terá problemas
de saúde. "A dieta vegetariana é benéfica para o funcionamento do
intestino e para a prevenção de doenças. Ela traz uma leveza física e também mental."
* Os textos são revisados por Madalena Fernandes